Walcyr Carrasco Pequenos Delitos e outras cronicas - 2004
 EDITORA BEST SELLER
Pequenos Delitos e outras crnicas Copyright (c)  2004
I Wakyr Carrasco Licena editorial para a  Editora  Nova  Cultural
Leda. Tdoa os direitos reservados. Coordenao  editorial  Janice
Flrido Editores Elici Silveira Cunha Fernanda Cardoso Editoras de
arte Ai,a Suei S. Dobn Mnica Maldonado Reviso Ubirajara  Idoeta
ar Arte da capa Orlando. Pedroso  Foro  do  autor  Fran  Moreira
Editorao eletrnica Dany Editora Ltda. Todas as  crnicas  foram
originalmente publicadas pela revi  Veja  So  Paulo,  da  Editora
Abril, que autorizou esta publicao. Apresentao QUANTO  DAR  DE
GORJETA sem ser po-duro? Como se livrar daquela amiga que aparece
nos horrios mais inconvenientes? E os  pseudovendedores,  que  te
empurram tudo quanto  coisa que fatalmente ir para o  lixo?  Que
tal realizar o sonho de ter uma casa no campo e  depois  descobrir
que aquiquiriu um mico? Voc consegue disfarar  a  de  cepo  ao
receber um presente que no ter nenhuma serventia? -  Quem  nunca
passou por situaes semelhantes? E quem nunca se irritou,  riu  e
se emocionou com muitas delas? A arte de  Wakyr  Carrasco-est  no
modo de narrar esses episdios: a  escolha  das  palavras,  o  tom
levemente irnico, uma emoo cmica, uma certa indignao que no
d para ser disfarada. Suas crnicas so  um  apanhado  geral  do
cotidiano de todos ns, e  sem  dvida  nos  identificamos  com  a
maioria das situaes. Estamos sujeitos a  pequenos  delitos,  mas
podemos troc los por grandes prazeres:  ler  Pequenos  Delitos  e
outras crni  cas  ser  certamente  um  prazer.  5  EDITORA  NOVA
CULTURAL LTDA. Direitos exclusivos da edio em lngua  portuguesa
no Brasil adquiridos por  Editora  Nova  Cultural  Ltda.  ED  BEST
-SELLER uma diviso da Editora Nova Cultural Lula. Rua Paes  Leme,
524  -  102  andar  CEJ'  05424-010   -    So    Paulo    -    SP
www.editorabestseRer.com.br  2004  Impresso  e  acabamento:    RR
Donnelley Amrica Latina Fone: (55 11) 4166-3500 1  O  Tempo  e  a
Memria OUTRO DIA OBSERVEI UMA FO ro minha, quando beb. Um garoto
gordinho de chocalho na mo. Sei que sou eu. Ao mesmo tempo existe
um certo estranhamento. No me lembro de quando andava de gatinhas
Abro um livro da minha infn cia. Alice no Pas das Maravilhas. As
ilustraes em preto-e-bran co esto pintadas com  lpis  de  cor.
Fui eu! Tive um ursinho de  pelcia,  tambm.  No  sei  onde  foi
parar. Decidido a ser mdi co, eu lhe  aplicava  injees.  Acabou
destrudo,  o  coitado!  Eu  adorava  o  ursinho,   como    deixei
desaparecer? O incio de um novo ano  simblico.  Sempre  se  faz
uma certa retrospectiva. Flashes passam pela minha cabea. Um ano-
novo em Ubatuba, quando eu era adolescente. Uma  festa  agi  tada.
Andava com uma turma da qual no tenho  mais  notcia.  Havia  uma
carioca, chamada Marcy. S a conheci naquela pas sagem  de  ano..,
ou ter sido na seguinte, em Parati? Entre meus guardados  h  uma
foto da garota. Um sorriso enorme. No  soube  mais  dela.  A  sua
alegria, nunca esqueci. Tento imaginar.  Como  estar  agora.  uma
mulher madura, com filhos? O que a vida lhe reservou?  Um  marido,
uma separao? Ter ido viver fora do pas? O sorriso permanece  o
mesmo? Tive um grande amigo, Nlson, l pelos vinte anos.  Artista
grfico. Passei dois anos vivendo fora do pas. S nos escrve mos
no comeo. Quando voltei,  prguntei  dele  a  conhecidos  Comuns.
Sumiu. De um dia para o outro no se teve mais notcia. 7 A mulher
procurou por todo lado. Foi na poca da ditadu ra  militar.  Nunca
soube que tivesse envolvimento poltico. Se ria um segredo seu? Ou
simplesmente largou tudo? Saiu d casa para ir ao  cinema  e  nunca
mais voltou? A pergunta di. Sumiu ou foi sumido? - E minha  amiga
Malu, psicloga? amos danar sempre. No perdamos festas.  S  a
vi muito tempo atrs, em um lanamen  to  de  livro.  Beijou-me  e
pediu: No desaparea. Prometi ligar na semana seguinte. H  anos.
Resta a vaga informao de que ela fez doutorado. Ser  que  ainda
dana? Outro psiclogo, o Erclio. Gostava de psicodrama. Continua
r acreditando em um modo de vida alternativo? Ou transfor  mou-se
em um homem formal? H gente que nos acompanha a vida toda.  Tenho
uma amiga desde a infncia. No nos  falamos  muito.  Outro-  dia,
depois de uns cinco anbs, ela me ligou. - Estou  com  un  problema
afetivo. Precisode um conse lho e s-tenho voc  a  quem:recorrer.
Ficamos duas horas ao telefone No final, ela agradeceu, ali viada.
-  bom ter com quem falar. Passo anos sem ver o Prsio e o  Raul,
a Snia e a Mriam. Se nos encontramos, comeamos a conversar como
se tivsse mos nos visto a noiie  anterior.  Certas  amizades  so
assim, no? A gente fica um tempo enorme sem  se  ver.  Quando  se
encon tra, retoma do ponto em que parou.  No  consigo  deixar  de
pensar, ao comear um ano, nas coisas que poderia ter feito.  Quis
ser pintor, e h uma tela -horrenda que perpetrei aos  onze  anos.
Mdico. Leitor de-tar. Fica uma certa lamentao pelos amigos que
nunca mais vi. Por tudo que poderamos ter vivido juntos.  Tambm,
outras pes soas entraram na minha'vida. Olhando em torno, eu penso
que essa  a grande vantagem dos anos. A gente forma famlias  no
s de sangue. Mas de pessdas que nos acompanham, de  perto  ou  de
longes sempre em um cantinho do corao.  Vejo a foto de  um  beb
que fui. Pergunto-me. A vida  apenas uma grande recordao? Vem a
resposta, como se o beb da  foto  conversasse  comigo.  -    uma
continuidade. Voc de hoje  fruto do de ontem. Sorrio. A  entrada
de- um novo ano mostra que a vida con tinua. Passado,  presente  e
futuro se misturam, com  muita coisa - boa  para  acontecer.  8  9
Promessas Angelicais CONTO OU NO CONTO? Pois bem, digo. Neste ano
piometo perder a barriga. Posso at visualizar o sorriso descrente
de quem estiver lendo estas bem traadas linhas.  Falo da minha h
tempos. Prometer, nunca prometi. O-caso  o seguinze:  todo  final
de  ano  enfio  o  p  na  jaca.  Vou  a  festas.  Devoro  perfis,
bacalhoadas, tnderes,  arroz com passas, lentilha com lingia (a
lentilha  para  dar  sorte,  a  lingUia  porque    bom  mesmo).
Esbaldo-me como se estivesse prximo do Juzo  Final.  Desta  vez,
foi pior ainda. Afinal, havia boa possibilidade  de  que  o  Juzo
Final acontecesse. Desde criancinha  ouo falar  nisso.  Para  que
fazer regime, se o mundo podia acabar no rveilion? O resultado  
visvel: minha barriga ultraparsou todos os limites. Seja  dita  a
verdade.  A gula  o nico pecado que vem com o castigo junto. Fiz
outras promessas. Uma delas  fugir de tudo que    "alternativo".
Passei as ltimas dcadas i'everenciando essa  palavra.  Cada  vez
que comia  um  prato  de  broto    de  feijo  em  um  restaurante
"alternativo", eu me sentia mais saudvel. Quan  tas  vezes  tomei
suco de couve pela manh? Confesso: at macrobitica tentei.  Tudo
comeou quando estive  em  um  restaurante  do  tipo.  O  dono  me
garantiu que se tornara um homem equilibrado  .e  sem  ansiedades.
Passei dez  dias comendo arroz integraL Depois dessa fase radical,
inclu bardana e peixe no cardpio. No final do primeiro ms  tive
uma inequvoca experincia extra-sensorial.   Estava  deitado,  de
olhos abertos, quando  um  hanribrguer-salada  flutuou  na  minha
frente. Esti quei os maxilares, pronto para abocanhar  a  delcia.
Ao morder, quase perdi a lngua. A viso etrea do  hambrguer  se
desfez. Sa pela madrugada atrs de uma lanchonete.    Comi  tr's
ham brgueres quase fui parar no  hospital.  Recentemente  li  Uma
reponagem sobre  as  propriedades  do  dry  martni.  Sim,  ele  
antioxidante. Combate os radicais  livres. Pesquisa cientfica.  E
o vinho tinto?  bom para o  corao,  dizem.  Enquanto  eu  comia
bardana e tomava ch de jasmim, os desregrados  que se davam bem!
Sinto  arrepios ao ouvir falar em "alternativo". Prometo  tirar  a
diferena nste milnio. Vou ler todos  os  romances  policiais  e
ouvir as msicas bregas a qt tenho direito. O caso  que adoro  um
bom policial, mas meus amigos vivem  dizendo  que  um  intelectual
deveria estar se abastecendo de livros, mais srios. E  sou  louco
por boleros. Quem vai a minha casa mexe em  meus  CDs  e  suspira.
Dizem 4ue tio h nada que preste.  No h. Mas eu gosto. E se  eu
gos to, presta: Pelo menos para mim. Fica mal para um intelectual,
eu sei. Talvez eu desista de ser intelectual, mas no dos boleros.
Quero me transformar em um homem bom. Um anjo.. Prometo, com todas
as minhas foras, nunca mais falar mal de mulheres ao  volante.  A
estatstica demonstra que elas  sofrem menos  acidentes.  Pensarei
nisso cada vez que pedir passagem  e  uma  delas  me  cortar  pela
direita. Elevarei meus olhos, pensan  do:  "Perdoai-as,  elas  no
sabem  o que fazem". Terei a mesma atitude perante os motoqueiros.
Qu cinco ou seis  deles  cmzarem  em  diagonal  na  minha  frente,
batendo no meu espe lho  e  me  xingando,  manterei    um  sorriso
harmnico no rosto. l pensarei que a CET deveria dar duro em  cima
deles. Mas que esto trabalhando e  por  isso  tm  o  direito  de
transformar as pistas em  uma loucura. No  sou  bom?  Durante  os
engarra famentos, procurarei manter a calma. Farei meditao trans
cendental cada vez que a 23 de Maio ficar paralisada. Talvez    um
dia,G carro saia levitando. lo 11  Finalmente,  eis  minha  ltima
promessa.  sria. Quero perder o rano de esquerda. 'Passei  toda
a minha vida analisan do cada fat dentro do seu  contexto.  Arre!
Cada  vez que  viaS  um  mendigo,..decidia  no  ajudar  porque  o
problema, afinal,  da sociedade como um todo. Da distribuio  de
renda. Do... Se  expljcasse  tanta  responsabilidade    social  ao
pedinte, acho que - levaria uns tapas.  Outro  dia,  no  semforo,
apareceu uma se nhora com um beb. Dei a esmla e  me  senti  bem.
Pronto. Que teoria resolveria  a vida dela? Com tudo isso,  eu  me
sentirei um anjo. O anjo carrasco. Soabem. Eu  gosto.  Quem  sabe?
GOSTO DE PASSEAR EM LOJAS. Em vez  deme  esfalfar  em  mo  ntonas
pistas de exerccio,  tento  ativar  a  musculatura  andap  do  em
shoppings ou em ruas comerciais: Pensei  at em criar um mtodo de
emagrecimento de tipo. Seria um sucesso, mesmo que no  tirasse  a
barriga  de  ningm.  Admiro  uma  coisa,  outra.  Eventualmente,
compro. Mas  est ficando difcil. No sei  se  a  crise,  mas  os
vendedores andam com sndrome de car rapato. Grudam. Entro na loja
e imediatamente vem algum com um sorriso de    orelha  a  orelha.
Posso ajudar? Tenho vontade de dizer  que  estou  muito  bem,  no
preciso de ajuda. sorrio. - S estou olhando. Caminho, tentando  -
desfrutar a vi de copos, roucas, o  qe  seja.  O  vendedor  corre
atrs. Este at est com preo promocional. Obrigado. Tento fugir,
ele insiste. T  s at amanh. Quase grito que j  s  Continuo  a
sorrir e dou dois passinhos. O vendedor d dois passinhos atrs de
mim e fica parado logo atrs, como um falco observando  a  presa.
Perco toda a vontade de continuar na loja. Vou embora,  diante  da
cara decepcionada. Existe o tipo que faz questo  de  perguntar  o
nome e dize o seu. Dali a pouco,  se resolvo  perguntar  o  preo:
Sndrome de Carrapato [ 1 12 13 - Qual  mesmo seu nome?  -  Se  
para se fazer de simptico, por que no  tenta  um  es-  foro  de
memria? H o que tnta se enturmar a qualquer custo.  Outro  dia,
procurava uma mochila para viagem. Vi uma bolsa de  lona  perfeita
na vitrine. - Quero essa aqui. A mocinha correu para  mostrar  uma
maior e mais cara. - Esta  quase o mesmo  preo,  e    maior.  -
Obrigado, mas prefiro a menor. Abriu a bolsa na minha frente. -  A
ala  de couro muito bom.  -  Sei.  Vou  levar.  -  Viaja  muito?
Sinto-me em um interrogatrio. Resolvo no dar trela. -  Pouco.  -
Vai para o Guaruj? - No. Ao Rio. - Costuma ir muito para o  Rio?
- As vezes. Entrego o carto de crdito. As  perguntas  continuam.
No respondo e saio, provavelmente com fama de antiptc Pior  foi
o rapaz de uma grife de roupas masculinas. - Go dessa  cala.  Tem
meu nmero? - Humm... experimente est aqui. Dois nmeros menor. A
braguilha mal fechava. Ele sorri, falso. - Ficou muito  bom.  Olho
no espelho. Se respirasse mais fundo,  era  capaz  de  estourar  o
boto da cintura. - No serviu. - Garanto que est  tima.  Usando
nmero menor, voc fica mais magro. Quase atiro as calas no nariz
dele. Juro nunca mais pisar na loja -  horrvel quando tentam nos
fazer de  bobos.  Vitoriosa  foi  uma  vendedora  de  um  shopping
carioca.  Es  colhi  a  mercadoria  exposta.  Cheguei  ao   balco
decidido. Quero o mai da vitrine. Qual o  meu  nmero?  Percorreu
minha silhueta com um leve sorriso nos lbios. - Grande. Im que  a
causa do sorriso  fosse  a  barriga.  Mandei  tra  zer.  Pediu  no
estoque, com toda a naturalidade. - Quer experimentar? - Acho  que
no precisa. Saquei o talo de  cheques.  S  ento  notei  que  a
padronagem no conferia. - No & este aqui.  o azul. Mas o azul 
sunga! Abriu o kacote, desfraldando um  mai  feminiho  inteirio,
ideal para uma me de famlia de classe mdia. Perplexo, des obri
a causa da confuso. Homem no Rio,  usa    sunga.  Mai  sempre  
feminino. Ns, paulistanos,  que falamos um termo ou outro. Ainda
tentei argumentar: - Voc acha que eu, peludo desse jeito, ia usar
mai de alcinha? Sem se  constranger,  a  diaba  respondeu:  -  O,
senhor pediu, eu vendi. Fiquei imaginando a cena. Eu,  com  minhas
pernas cabelu das, experimentando um mai listrado e ela  dizendo:
- Ah, ficou bm, sim.  exatamente o seu nmero!  Levei  a  sunga.
Pelo menos dessa vez a vendedora tinha  savoir_fajre:  14  15  Eu,
Cidado COMO BOM CIDADO, decidi racionar meus gastos com ener-  -
gia eltrica. Chamei a empregada: - Voc est  proibida  de  tomar
banho aqui em casa. - Mas o senhor quer que eu v embora  suja?  -
Quando for para casa, voc vai ter, de pegar um  nibus  lotado.  O
primeiro banho ter sido intil,  pois  ter  de  tomar  outro  ao
chegar.  Economize!  Ela  olhou  raivosaniente.  Com  certeza  no
economizou  pensamentosi  Lembrei-me  dos  conselhos  de  um  av,
segundo os quais baiihos frios ajudam a manter  a  pele  elstica.
Abri o chuveiro. Ai, que frio! Sa -pelo banheiro sakitando  corno
uma r. Conversei com meu personal trainer. A esteira gasta  muito
energia. - Voc substitui  eliminando  o  elevador.  Moro'  no  12
andar. Quando cheguei ao terceiro, minhas.  pernas  latejavam.  No
quarto, eu me agarrava nas paredes como uma lagartixa.  No  sexto,
bati na porta da vizinha,  pedindo  so-'  corro.  As  panturrilhas
duras recusavam-se a dar sequer um pas so!  De  qualquer  maneira,
funcionou. Com as pernas  em  cha  mas,  nem  penso  em  voltar  
esteira! O microondas est criando teias de aranha. Ultimamente s
comia  refeies  dietticas  adquiridas  em   supermercados.    -
Entretanto, j que  para usar o fogo a gs...   vamos    luta!:
Chafurdei em salsichas com  mostarda.  Fiz  um  bolo  de  cenoura'
miga. - Vamos nos contentar com uma conversa agradvel, sem o1har
um para o - retruquei. No ofereci caf, pois  minha  cafeteira  
eltrica. Sugeri: - Aceita um refrigerante mrno? A visita demorou
'quinze minutos. - Aposentei um antigo e herico freezer. Era  meu
orgulho. Tem bem uns dezessete anos. Aparelhos velhos g mais. -  A
gente podia criar abelhas dentro dele - props o - ' -' caseiro da
chcara. - - Para tudo h um novo uso. No seria o impulso para me
'transfrmar em um gi produtor de mel? Botamos ofreezer  encostado
na cerca, certos de que abelhas pertencentes a algum movimento das
sem-colmia  se  iiistalassem.  Dois  dias  depois,  ouvimos    um
barulhinho. No disse que elas vinham? - comemorou  o  caseiro.  -
Fomos espiar cautel Dependurado nas grades havia  um  bando  de...
morcegos! Fugimos. Na chcara h uma piscina. Proibi a  Iimp  -  -
Como o senhor vai nadar? - No vou, neste frio. A  gua  comea  a
esverdear. Tento agora descobrir como evitar a dengue. S temos um
problema: o cortador de grama. Se eu no cortar,  isso  aqui  vira
mato: - Resolvi comprar uma ovelha. Nada mais  til.  Poderia  pas
tai e ainda fornecer nutritivos litros de leite. E l, caso eu  en
 ontrasse algum capaz de fiar e tecer. Foi difcil. Tive  de  ir
at 17 om calda de chocolate. Ganhei dois quilos, mas sem peso na
conscincia. Tudo pelo racionamento! Luz, s para ler.  Outro  dia
recebi visitas no escuro. - Assim no consigo enxergar o seu rosto
- reclamou uma perto de So  Roque,  onde  onsegui  uma  linda  e
econmica ovelhinha. Mal cheguei, o cachorro rosnou. -    co  de
caa, ele vai querer comer a ovelha.  No  deu  outra.  O  caseiro
passou dias de favor tentando impedir os  instintos  selvagens  do
co. A ovelhinha tremia, e nada de comer a grama! Para sobreviver,
teve  de dormir presa - na cama do caseiro. Est sendo  devolvida.
Foi um prejuzo, que espero recuperar na conta de  luz!  Parei  de
ouvir msica. Para me distrair, canto em voz alta. Assim, alm  de
evitar o meu consumo, evito o  dos  vizinhos.  Ouvi  falar  em  um
abaixo-assinado, mas nada   ainda  chegou  at  mim.  J  ouvi  um
zunzunzum falando  em  camisa-de-fora.  Nem  sempre  uma  atitude
cvica  bem compreendida. O bom cida do ,  antes  de  tudo,  um
mrtir! COMPRAS DO MS. Percorro as  prateleiras  do  supermercado
:plhando gi1losam tudo aquilo que  bom  mas  engorda.  Um  senhor
magro e grisalho pra  diante  -dos  iogurtes.    Olha  em  tornd,
cautlosamente. Agarra uia garrafinha sabor morango, abre e  vrra
na boca, bem depressa. Esconde a embalagem. Dis faro, mas sigo  o
homem. Podem me  chamar de abelhudo. Sou. Minha desculpa, que  s
tento entender o comportamento humano para escrever depois. Dali a
pouco o homem pega um pacote de bolachas. Abre.  Come  algumas.  A
sobremesa? Na banca de frutas. Uvas-itlia tiradas  do  cacho.  Um
pssego pe queho. Devora. Esconde o caroo no bolso. Nem sei  como
consegue fazer  a digesto, tal a rapidez. No, no  se  trata  de
nenhum MSS - Movimento dos  Sem-Supermercado  -  ou  coisa  que  o
valha.  um senhor com jeito de  vovozinho  e  trajes  de    class
mdia. Termina as compras de barriga  cheia  e  com  expresso  de
vitria. Fao detudo para no praticar pequenos  delitos  -  conta
uma amiga. -  uma respnsabilidade pessoal. Culposamente,  lembro
de quando vou comprar fruta seca. Adoro uva passa. Com a  desculpa
de experimentar, pego uma. Duas. Trs. Trezeritas! Outra  amiga  
absolutamente  contra camls. Diz que emporcalham  a  cidade.  H
uma semana che  gou  com  um  brinquedo  para  os  filhos.  Paguei
baratinho - contou animada. Era de  uma  banquinha  do  centro  da
cidade. Espantei-me. Pequenos Delitos 18 19 - Voc no   contr'a?
- Sou contra, mas no sou b Pode? Hoje em dia  se  fala  muito  em
tica. Mas, quando podem dar o golpe nas  pequenas  coisas,  muita
gente se sente orgulhosa.  Conheo  uma  livraria,  em  Pinheiros,
onde s se aceita devoluo. Recentemente  uma  senhora  levou  seu
exem piar. A gerente no reconheceu o livro. A cliente  teimou.  1
verificou todas  as  notas.  Simplesmente    o  ttulo  no  havia
ngociado. Insistiu: - Eu troco, desde que a  senhora  me  diga  a
vetdade. No  daqui, ? A  mulher  reconheceu:  havi  comprado  o
exemplar h tem- pos, em outr lugar. Mesmo assim, aceitou a  troca
e saiu satisfeitssima com um livro novo. Outra cliente levou    o
livro de atividades do filho, acompanhada  pela  criana.  Trocou.
Dias depois se descobriu que  os  questionrios  internos  estavam
preen chidos a mo. Era golpe. - Que exemplo  essa  mulher  d  ao
filho? - admira-se a moa. E quando o troco vem  errado?  Confesso
que a-minha pri meira reao  de alegria! De repente, tenho  mais
dinheiro do que pensava. Em seguida lembro que a diferena    ser
paga pelo. caixa. Devolvo. J vi gente feliz da vida porque o dono
da Ioja fez confuso nos preos. Outra coisa que odeio  emprestar
e no receber. H  uma    predisposio  para  n  pagar  pequenas
dvidas. Mesmo quem empresta  fica  sem  jeito.  -  So  s  cinco
reais... no fao questo. omo se fosse feio receber o que  seu!
J ouvi, uma vez que reclamei. - Po-duro! Voc liga pra  mixaria?
Tenho um conhecido que jamais tem dinheiro para dar ao manobrista.
Sempre pede um trocado. Se eu no tenho, pede desculpas ao  homem.
- Da prxima vez, dou em  dobro.  Ou  ento:  -  Sasem  talo  de
cheques. Hoje voc paga o jantar, o jwximo  meu. Ah, que  raiva!
De facadinha em facadinha, faz uma  bela  economia!  Surrupar  um
'queijinho no supermercado parece no ter sequer importncia.  Mas
o pequenos delitos, quando soma  1dos  tornam  a  vida  na  cidade
grande ajuda mais selvagem. 4 21 20 Em Busca da Paz  FRIAS!  QUEM
VAI VIAJAR costuma ser acometido pela  sndro  me  de  mudana  de
vida. Basta sentir um cheirinho de mato ou uma brisa marinha  para
querer jogar o emprego,  os compro mi e a rotina cheia de horrios
para o alto.  o sonho de morar fora  da  cidade.  Quer-se  largar
tudo e viver no campo ou na  praia,  mergulhado  em  silncio    e
tranqilidade. Um casal de amigos tinha um stio em  Ibina,  onde
esperava passar a velhi ce. Casa simples e trs  cachorros,  ue  a
dona chamava carinho- samente  de meus filhos'peludos  .  Acabaram
sequestrados jun tament com  os  caseiros.  -Os  "filhos  peludos"
mantiveram-se a distncia, abanando o rabo para os  meliantes.  Os
refns fica ram presos em uma casa, no meio da mata. Apavorados. A
fa mlia no poderia pagar um resgate, nem que fosse  dividido  em
suaves presta A certa altura,  os bandidos saram. Meus ami  gos
conseguiram abrir uma janela. Saltaram. Ela torceu o  tor  nozelo.
Fugiram pelo mato, morrendo  de  medo  das  cobras  e'  de  outros
bichos,  ou de ficarem perdidos para sempre. Gente urbana  imagina
que toda mata  semelhante  selva amaznica.  Desaguaram  em  uma
chcara a quilmetros de dis tncia. Ainda tiveram  de  fugir  dos
ces de guarda.  Esses, sima furiosos! E montar rest   beira-mar?
Conheo uma penca de gente que l pelos 40 anos almeja ser dono de
bar ou restau-: rante. Imaginam que basta ficar bebendo e  comendo
com 22 regeses, e passar a  vida  dando  risada.  Acompanhei  um
casal - durante todo o processo. Ela m Vou servir umas  comidinhas
caseiras, tipo feijo gordo, atroz. bem soltinho, mandioca  frita.
Quem no vai gostar? E fazia a pergunta desagradvel:  A  -  Quem
vai fritar a  mandioca?  Mal  arrumaram  o  ponto,  em  uma  praia
distante, desco briu a resposta. Acorda todos  os  dias  s  4  da
manh para botar o feijo  no  tacho.  Os  cabelos,  antes  1  com
xapipu, trans frmaram-se em uma massa envolta em leo de cozinha.
L est -da, a postos, quebrando o fritando, cortando,  temperando
e brigando com garons. Ele se esfalfa  no  caixa  e  reclama  das
costas! Ao se deitarem, modos de cansao,  suspiram pelos tem pos
n asfalto. Iam ao cinema. Liam. Podiam sentir preguia! De suspiro
em suspiro, a esperana reviveu. Puseram o  restau-    venda!  Eu
tanfbm j tive o sonho. Fui para  o  stio  de  um  amigo  com  o
objetivo de comprar algum em torno. Passamos o dia com o corretor.
No primeiro, para chegar casa era  preciso ' atrav o  estbulo  no
meio das vacas, com o risco de levar uma chifrada.  Outro,  lindo,
repleto de buganvlias, era na bei ra da estrada. Mais  barulhento
que o Minhoco!  Dormi no s tio onde fora convidado. Os cachorros
latiram embaixo da minha janela at o amanhecer.  Passei  a  noite
desejando estar - no d um belo congestionamento! - Nem  tudo  est
perdido. Finalmente, descobri uma pessoa que-conseguiu realizar  o
sonho de ser feliz.  Uma  antiga  colega  J  d  escola,  Eugnia.
Mudou-se para Perube. Trabalha como - tradutora. Escreveu  alguns
livros. O ltimo narra sua vida na p divertida e... bem,  no  to
pacfica assim! Morar na praia  no  campo    mel  para  hspedes!
Durante as frias sua casa fica  invadida  por  parentes,  amigos,
amigos dos amigos. Passa o - 23 vro preparando cafs da  manh,,
almoos, secando toalhas lavando o cho. Vive na praia,  mas  fica
aterrorizada diante ' chegada do sol. Realizou o sonho,  mas  est
sempre torcend pela vtnda da chuva e do mau tempo Que vida Ja  no
se fa-  zem  sonhos  como  antigamente!  Frias  so  boas  quando
justamente o que  o  nome  diz:  simplesmente    frias!  A.  Raa
Superior : HUMANA ACREDITA ser a nica inteligente.  Puro  engano.
H tempos imemoriais ,ns, os humanos, fomos  der  aados  por  uma
raa superior, muito mais esperta. Mais que  . fomos domesticados.
Pelos cachorros. De.fato, s?b  ,t  ndice  de  avaliao,  a  raa
canina se mostra superior. a convive com um co gosta de dizer que
 "dono". Como redhar, se tudo prova que  o  cachorro    dono  do
homem? Na da alimentao, por exemplo. Qualquer pessoa gasta ei:ro
e tempo para comprar rao. Analisa os vrios tipos e  experimenta
uns pedacinhos para avaliar o sabor. Corre  atrs  de  ossos  para
proporcionar tardes  de  degustao  ao  ca  Compra  imitaes  de
borracha. Indstrias pesquisam  novas  ra4es  ntritivas.  Gastam
uma fbula em propaganda. Ou seja: 'La levan uma pata, o  cachorro
faz com que os seres huma .,pos  i  torrando  neurnios,  tempo  e
dinheiro simples -  rz  para  aliment-los!  Certa  vez  tive  uma
cachorrinha  que ;'-s podia  comer  arroz  com  cenoura  e  carne
moda. Estava sem empregada. Durante um  ms  levantava  uma  hora
antes, prepa- ' tava a comida e saa para trabalhar.   Ao  voltar,
servia uma nova rfeio e lavava o pratb. Em troca, ela me lambia
os dedos. Eu ' sentia no cmulo da felicidade s de receber  essas
lambidi nhas! Seja dita a  verdade:  quem  era  do  de  quem?  Ena
questo amorosa? Quando gosta de algum, o co nao rabo. Pode  ser
um desconhecido. Gostou, abanou. est a fim, deita-se de pat  para
cima e lana um olhar ;, 24 25 Chcgam0 ao X  da  questo.  Criamos
filosofias, escrevemos H qucm faa  ioga,  meditao.  Tudo  para
aprender a e o fi rdo da c\ istncia. co j  nasce  aceiiando.  A
vida dcve pensar o co, com a sabedoria de um mestre  pns(a  todo
di ao chegar em casa exausto do alho, dc mau humor com  o  chefe,
com a faturado carto -. crdito prestcs a me  degolar,  o  cheque
especial batendo as folhas cm torno de m orelhas como uma  ave  de
rapina. . na varanda  e  meu  cachorro  se  aproxima.  Sem-nenhuma
ocupa na vid.. D aos meus ps e prepara-se para u dose cotidiana
de carinho. Eu me submeto. Raa superior  isso a. bem  pidoncho.
At o corao mais duro no resiste  a  dar  cai  nho,  coar  as
orelhas, fazer uns afagos. Eu, no. Nu me deite  de  barriga  para
ficar me oferecendo Vontade  no faltou, mas a coragem? Ns, seres
humanos, usamos  artifcios.  Gastamo  dinheiro  em  perfumes,  em
cabeleireiros, em dermatologist Vamos  a  happy  hours,  jantares,
festas, barzinhos da moda, tramos em chats da  internet,  s  para
achar quem nos coce orelhas. Se algum faz festa para  tod  mund
que conhece tebolando como um cozinho,  vem o  veredicto:  -  1h'
Esta com carncia afetiva Toca a procurar terapeuta. Horas e horas
dedicadas a a lisar  a  pura  vontade  de  buscar  amor?  Revistas
dedicam quil, metros de papel a prticas de seduo.  Como  olhar
de ladt como sorrir, como se oferecer sem  dar  na  vista.  Mais:
como ir coragem de expressar os sentimentos Cachorro, no.  Abana.
rabo e pronto. Muitas vezes, corri cime,  j tive vontade  morder
alguem Ao contrario, sorri sim enquanto o sangue fervia. Ces  no
possuem esse tipo de constrangimer. to Atiram-se em cima do  rival
Mordem  a i de quem aca ricia.  At  conseguirem  seu  quinho  de
afeto. Mas tambm n guardam raiva. Depois de rosnarem  um  para  o
outro, dois saem pulandb e brincando juntos.    Que  espcie  sabe
lidar me- lhor com as prprias emoes? A questo da pele tambm 
importante. Criamos inds-  trias do vesturio porque no estamos
satisfeit6s com a prprii pele,  e  inventamos  estratagemas  para
cobri-l.' Boa parte d humanidade se dedica a fabricar tecidos,  a
inventar e a vender roupas. Qualquer pessoa  ambiciona  se  vestir
bem. Fortunas s despendidas em novos guarda-roupas. A moda vira, e
toca gastar todo outra vez Cachorro,  no Nasce vestido Imagine  s
quant delrio, quanta mo-de-obra seria  evitada  seo  s.  human
tivesse a mesma tranqilidade a respeito da prprL.  aparncia.  -
26 27 JURO QUE  VERDADE. Tenho uma amiga especiaIi em i livrar de
assaltantes. Sua arma: a  imaginao.  Maria  Adelaide  escritora.
Madura, de aparncia  frgil,    o  tipq    de  vtima  idea  Foi
assaltada vrias vezes. Acabou desenvolvendo uma estrat gia  Certa
ez  andava  pela  rua  do  Curtume,  vindo  de  um   ,ei    contro
profissional. Notou que  um rapaz vinha em  sua  dir  o,  a  mo
enfiada dentro do casaco. Prestes a sacar a arr  Olhou  em  torno.
Ningum! No teve dvidas. Saltitou direo a ele, com um  sorriso
de orelha a orelha! - Voc! Finalmente nos en  Como  vai  sua  Faz
tanto tempo que no nos vemos! O rapaz hesitou, em  dvida.  Maria
Adelaide com rpida. - E  Cidinha, tem visto a  Cidinha?  Como  
que ela est -Bem... Abt o rapaz., - Agora eu preciso ir. Mas v se
no some, hein?! Te1efon Fugi em  direo  ao  carro,  deixando  o
ladro parado, con ar de dvida. Na vez  seguinte,  saa  com  uma
amiga da Pinac teca do Estado, na avenida Tiradentes.  L  adiante
viu - trombadinha se aproximando. No teve dvidas. Virou-se par a
amiga e comeou a brigar, as gritos! -  Voc  nunca  podia.-  ter
feito isso comigo! Ah, mas voo no presta. O que voc fez no  tem
perdo. Voc vai me pa - 28 'A amiga arregalou os  olhos,  chocada
com a gritaria, cada j O trombadinha aproximou-se, j  enfiando  a
mo no boi Adelaide gritou ainda mais. Parecia prestes  a  partir
para as .s d fato. No me responda! Fica quieta, voc no  tem  o
direito iar! O ladro ainda tentou estabelecer contato: -  Dona...
dona... - Fica quieto voc tambem' - gritou para  o  assaltante  ,
Voc no sabe o que eia me fez. Mas o que foi que ela aprontou? '-
Ela acabou cem a minha  vida!  O  possivel  assaltante  pensou  um
segundo e ,aconselhou Mata ela. -  o que eu devia  fazer'  Acabar
com voc, ouviu? - - . T Adelaide para a amiga.  rapaz foi embora
- possivelmente para no ser  envolvi  em  crimes  maiores  Quando
estava longe, a amiga recupe ou  fala. . - - Que eu fiz? - Eu  vi
que o ladro vinha em nossa direo. A rua ,'a  e  aprontei  um  e
Assim, ele desistiu. Va embra?  '  -  Partiu  sorridente,  com  a
amiga-cambaleante. A  ultima  vez'  foi  em  uma  floricultura  da
avenida dos Ban tes. Acabava de comprar um buqu. O  rapaz  entrou
de em punho. - Passa a carteira' E voc, da o dinheiro'  -  gritou
para a idra. . A aixa  ficou  paralisada.  Adelaide  respondeu,
fria. Estou s com cartes de crdito, sem dinheiro.  No  a  voc
levar minha carteira, no vai  ter  lucro  nenhum.  29  Truque  no
Assaltante / - No  quero  nem  saber!  Passa  a  grana.  Adelaide
voltu-se furiosa e interpelou a caixa. -  No  ouviu  o  que  ele
disse? Se ele est roubando,  pc que tem necessidade e precisa do
dinheiro. Passa a grana! O assaltante  fez  que  sim,  feliz  pela
compreenso. -  isso mesmo!  Se  eu  assalto    porque  preciso!
Levoutodo o dinheiro da floricultura. Adelaide  continu  inclume,
com a bolsa fechada. Seu segredo: - Preciso  de  um  segundo  para
pensar. Se sou pega de sui presa, entrego tudo. Mas  quando  tenho
chance... invento um, histria. A imaginao ainda   melhor  arma
para enfrentar as dif culdades da vida moderna! -  30  que  Torcia
por Mim si QUE VEJO UM CANRIO, lembro do meu pai. Cresci cado por
gaiolas, repletas de espcimes coloridos. -Ajudava a , a encher os
bebedouros de gua. Acompanhava as Eas chocando os ovos,  pequenos
e pintados. Era fantstico filhotinhos piando. Minha me preparava
uma papa de o, que 'meu pai dava com uma colherinha. s vezes eram
s os cuidados que eu sentia cime. E se gostasse  mais  ds  rios
que de mim? : pai no era dado a expanses carinhosas. Talvez  por
. 'fosse criado  em  um  meio  em  que  homem  no  expressava  os
sentimentos. Talvez porque nunca  recebeu  muito  carinho  prprio
pai. Saiu de casa aos treze anos- e foi morar com irmo.  Teve  um
problema nos olhos e quase ficou cego, L adlescente. Mais  tarde,
quando quis continuar  os estu )S, j estava casado e com' filhos.
Tentou,  mas  no  pde  se  radiante.  LEra  ferr   Telegrafista.
Profisso simples, mal remu . A  pobreza,  na  minha  infncia  no
interior, era mais dig que a de hoje em dia. Afinal, ele conseguiu
batalhar por t vida para os filhos. A duras penas,  mas  conse  1.
Sua maior crena era nos fazer  estudar.  Meus  dois  irmos  m  a
aprender msica aos seis anos de  idade.  Eu  prefe  udar  ingls,
desde os dez; la  escola pblica.  Na poca o 31 Meu Pai, o Homem
colgio do E-stado  era  prestigiado.  Lutava-se  para  entrar,  p
qualidade do ensino. Os professores eram pessoas resp& na  cidade.
Tratadas de maneira especial, pois,   afinal,  eram  pi  fessdres!
Tudo isso pode parecer estranho hoje em dia, quan  se  ouve  falar
e'scolas depredadas e de alunos que ameaam mestres. Mas houve  um
tempo,  e no h  tantos  anos  assim,  e  que  o  ensino  merecia
tratamento especial. Todos os  da  famlia  eram  orientados  pra
nossa educao; At a fuga canrios causaria menos  dor a meu  pai
do que ver, um L. reptir o ano. Ganhei minha rim.eira mquina  de
escrever aos treze. anunciava aos quatro ventos meu desejo de  ser
escriro 1 dia - no era Natal nem aniversrio -  ele  veio  com  a
mq na. Modelo simples, porttil. Comprada em prestaes a der  de
vista. Coloquei a primeira folha de papel sulfite e ex rimentei  a
primeira tecla. Nunca vou esquecer  a sensao, cheiro de tinta  e
a. letra surgindo no papel! Ao longo da vida, tive  a  chance  de
sentir seu apoio, vri vezes. Mesmo  quando  resolvi  partir  pelo
mundo, de moch nas costas, no ouvi uma palavra  de  recriminao.
Quand, voltei, ele continuava torcendo por mim. Ficou  doente  por
quase vinte  anos.  Algum  tempo  antes  grande  partida,  teve  a
percepo de que  no  duraria  muito.  F  ao  cartrio  e  fez  o
documento, pedindo para ser  cremado. outro para doar seus rgos.
Entretanto,  quando  acontecei  pareceu  to  .de  repente,    to
despropositado! Fica sempre a s sao de que poderia  ter  ficado
conosco mais tempo, que faltou falar sobre tantas  coisas!  Quando
fomos examinar seus papis, encontramos uni  carta,  endereada  a
todos ns. Escrita para ser aberta depois d  p  Dizia  como  tinha
sido bom ser nosso pai. A palavri  carinho que, em vida, foi  to
difcil pronunciar. Para cada  ul  tinha  uma  mensagem  especial.
Lembrava que a vida no temi jneste mundo. Fosse para onde  fosse,
prometia conti isando em ns. At hoje, quando lembro dessa carta,
lhos marejados de lgrimas. ei pai era um homem simples, mas teve
grandeza. E rnportante ele torcia por mim.  Para  mim,  esse    o
signi r maior de um pai. Algum  capaz  de  torcer,  sempre,,  sem
riia condio, nenhuma imposio. Porque a nica con entre  pai  e
filho deve ser sempre o amor. 4 - /:.. 32 33  O  Automvel  QUANDO
PAPAI COMPROU nosso primeiro carro, mau decidiu: - Vou tirar carta
de motorista! Eu era criana. No era comum que mulheres  dirigiss
Mame tinha alma de pioneira.  Por  exemplo,  trabalhava  enquanto
suas amigas se conformavam em  ser  donas-de  Morvamos    em  uma
cidade do interior. A auto-escola s til  um  jipe.  Comearam  as
aulas. Comigo no banco de trs, as m presas agarradas na_capota. O
jipe  dava  solavancos  e  rodopL    pelas  ruas.   O    instrutor
aterrorizado. - O breque, o breque!  Aperte  o  breque!  Mame  se
confundia. Enfiava o p no acelerador. Ela gri1  va.  O  instrutor
gritava. Os pedestres corriam. Entre as faanL arrancou a porta de
um Karmann Ghia. Na ltima  aula ani do exame arnusou a entrada do
mercado  municipal.  Repetiu  vezes.  Na  terceira,  o  examinador
tremia: - Mais devagar! A a senhora enfia o  carro  em  u  rvore.
Surpreendentement,  ganhou  a  carta.  talvez  por    terror    c
examinadores. Seu  idlio  automobilstico  no  durou  mui  Papai
prdeu o pouco que tinha. Viemos para So Paulo    o  uma  mo  na
frente e outra atrs. Carro? Nem pensar. Fio mais de dez anos  sm
dirigir. A vida melhorou. Minha cunF da ofereceu o volante.  -  S
para ter o gostinho. : de um caminho parado. is uma temporada  de
exlio. Papai se recuperou estacionamento.  Todas  as  manhs,  l
estava mame, , de chapu de homem na cabea, dando ordens aos . 
direita! Vira... vai que d, vai que d! ' hayia uma condio. No
fazer manobras ela mesma. possvel pagar os prejuzos: o  incr  
que papai no .de dirigir. Desistiu de ter automvel. Mame olhava
os Io Sonhava. Mudaram-se para Santos.  Tempos  depois,  eu.  Para
surpresa de toda a famlia, mame veio a  j-um  namordo,  aos  64
anos. Pefguntei, cauteloso, a do principe encantado  -  Sssenta  e
jrs. 1, aliviado. Se fosse trinta, a sim, eu ficaria bem se  viu
casal to apaixonado. Era um senhor aposen L, indole  calma  Mame
me contou Sabe, ele est pensando em comprar um carro. Me, quem 
doida por automvel    voc!  Convenceu  o  tenho  o  diret?  .
Juntaram as  economias.  Vieram  para  So  Paulo.  raram  um  bom
automvel usado no sbado de manh. serra. Na curva, havia leo na
pista. Derraparam de Pararam. Um policial aproximou-se. - beixem o
carro a, j vamos  ver.  Venham  para  c,  por  Ld  curva.  T  I
afastaram caminhando, outro carro veio voando na Deru tambm; Voou
emcima do automvd. O que adava pata levar em uma sacola. .  tinha
seguro. Perda total. Revoltada, mame no se upado.  34  35  Teve.
Dali a meses comprou novo veculo em sociedade cx o namorado. Eu e
meus irmos demos uma fora. Que fef Subiam a serra so para  comer
um file So se tornou  pouco ressabiada. - Ele dirige muito bem  -
contou, referindo-se ao iFio. -  vezes tenho vontade de  pegar  a
direo, masj gosto da serra. Com a proximidade do Dia  das  Mes,
sinto um aperi corao. Ela partiu h  dois  anos,  doente,  e  s
vezes me de  u  imensa  saudade.  Sinto  tambm  uma  sensao  de
alegria.  1'... me conseguiu seu carro. Felizmente, eu  a  ajudei
a. realizar s sonho! PRATOS SO TO IMPORTANTES quanto  um  abrao
ir. Nunca es4uecerei do pudim de queijo de minha av.  in  grande
cozinheira essa av.  Seu  pudim  de  leite  era  mas  com  queijo
parmeso, com um delicioso contraste   entre  sa1gado.  At  hoje,
quando me oferecem pudim, eu aceito, .rana de recuperar  o  mesmo
sabor. Nenhum neto esque ay, que nas  pocas  festivas  enchia  a
mesa com  cabrito eiio, frangos recheados com  farofa,  doces  de
todo tipo. neo, os filhos e noras - meus pais e meus tis -  te  a
cozinheira. Inexplicavelmente certa vez minha av con  da  farinha
com veneno em p  e  quase  matou  a  fa  a  com  uma  fornada  de
rosquinhas. Salvaram-se as por serem  muito  pequenas.  S  comiam
papinha.  Desde  os  adultos-  viviam  ressabiados  cada  vez  que
ganhavam uma de biscoitos de anis Eu, nunca Basta comer um bom  pu
ra sentir o calor dos beijos. e abraos de  minha  av.  inha  me
fazia po. Se ficava nervosa, ia para a cozinha massa.  Eram  ps
gordirihos como'ps. Bons para co uentinhos, com manteiga e  caf.
 uma receita difcil  de r Ainda bem. Seria  incmodo  comear  a
fungar dian -ada pozinho francs que me aparecesse pela  frente.
A euma amiga adora gatos. Compartilha a rao dos felinos.   e.que
tem um agradvel sabor de peixe. Amo meus ces. no so  capaz  de
roer  um  osso.  Quem  sabe  com  U  Consiga  vencer  essa  ltima
resistncia. No ficamos mais de uma  hora  com  o  carro!  Tentei
confort-la. - Mame, quem sabe seu destino no  ter  au  -  .Que
cQnversa  essa de destino? Eu no me confoi E vou ter!  Culinria
Afetiva 36 37 - Inesquecvel a primeira vez em que vi a  empregada
da v.. nha fazer bala de coco. A massa branca rolando de um  brao
p o outro. Juro. No h coisa mais linda. Uma   empregada  da  nha
infncia fazia um ovo frito perfeito. A clara branca e a -  rosada
no meio. D fome s de lembrar. Tambm no vou quecer  da  primeira
vez em que cozinhei para os   amigos.  O  tivo:  frango  ao  molho
roquefort. Diretamente do livro de red tas. Por engano, comprei um
galo. Parecia um  frango  giganj  Achei  bom.  Observando  melhor,
conclu que  era um galo. f pleno domingo de manh, sa caando um
frango. Cons segundos antes de os convidados  chegarem.  Cortei  e
tempere pressas. Acendi o fogo. Segundos depois,   acabou  o  gs.
Ah,  botijes! So incontrolveis! No tinha reserva. Samos tod
batendo nos vizinhos, pedindo gs emprestado. Nada!  Lemi:  de  um
fogozinho de acampamento que eu tinha. L ficot  frango  horas  e
horas.  Os  convidados  rugindo  de  fome.  Ao  d  gar  ao  ponto,
atiraram-se na panela como lobos.  At hoje  no  se  era  bom  ou
ruim. Foi, sim, tim comeo primoroso!  Conv  dos  famintos  sempre
elogiam o cardpio, haja o que l Entre  todos  os  pratas,  jamais
esquecerei de uma torta c comi-em uma  viagem.  Era  um  grupo  de
jovens hospedado e um antigo  internato  japons.  Todos  os  dias
tomvamos  1: de fur, em grupo. Um dia os rapazes  iam  primeiro,
no outro garotas. Certa vez elas demorarani tanto que as esperamos
do Ia de fora, com toalhas molhadas. Foi uma  perseguio,  com  1
correndo, gritando, segurando  as  prprias  toalhas,  e  os  rapa
gritando e assustando. No jantar do dia seguinte,  uma  torta  de,
deliciosa. Conui  vrios pedaos, guloso. Ao  final,  a  rev  -  A
torta  de capim! Riram, vingadas! Essa torta de capim ficou  para
sempre, com esses dias riosos no campo. Em culinria, o afeto e os
bons mornen so sempre um  tempero  sem  igual.  Comida  boa    a
quefica corao. O Pinheiro hITOS ANOS TIVE um Natal especialmente
feliz. Eu e um de amigos nos reunimos para fazer uma ceia em minha
i. Cada um ficou encarregado de um detalhe. Uma  se-  antes    dei
pela falta: - a rvore? - bando de guLosos, de to entusiasmado em
discutir car - achar receitas, comprar bebida, nem  se  preocupara
com etalhe to prosaico e ao mesmo  tempo  to  natahno  Hou-  em
dissesse que rvore no precisava ter.  Insisti:    -  -Naotl  sem
rvore no d. i  meio  romntico,  apegado  a  certas  deliciosas
tradies tido eu era criana, meus  pais  tinham  uma  rvore  de
penas es (acreditem), p'recursora  das  de  plstico.  As    bolas
colori  de quebrar ao menor  toque,  ficavam  guardadas  o  tdo,
envoltas em papel de seda. Em cima colocava-se um iro brilhante, e
em torno dos galhos,  festes  prateados    rtos  com  discutveis
pedaos de algodo branco. Uma vi L fazia um  prespio  famoso  no
bairro. As figurinhas de nica, pintad Um espelho fazia as vezes de
rio. E grama,  a de verdade, colocada sobre uma  tnue  camada  de
terra, tido o prespio cheio de vida.  Eu,  por  mim,  continuaria
ando at em Papai Noel. Seria timo bater o p, anun  " desejado e
ficar fazendo caras e bocas at ga ;.Entretanto, a verdade me  foi
revelada l pelos sete anos, lo insisti em ganhar  um  cavalb  de
corrida. Tanto chorei 38 39 quando o cavalo no veio que minha me
no teve aItern a no ser revelar a triste realidade. O Papai Noel
que cabi oramento familiar no abarcava cavalos. Mas da    rvore
nunca quis abrir mo. Um  amigo  saiu  em  busca  de  um  pinheiro
verdejante. 1 morou horas.  Voltou  com  uma  rvore  raqutica  e
torta. - Mas que pinheiro pavoroso! - reclamei. - Bati  em  vrios
lugares,  ningum  mais  tinha.  Achei  Pelo  menos  o  homem  deu
desconto. Era uma tristeza enfeitar aquele pinheiro tortinho.  i
pramosumas bolas,  inventamos  uns  las  de  fitas,  botamos  ur
luzinhas. Minha me veio, e  na  vspera,  quando,    todos  estav
cozinhando, ela dedicou-se a  conferir  quantas  cervejas  cada  1
bebia. - Se voc continuar bebendo vai deixar  o  pernil  queir  -
anunciava.  -  O  pudim  de  uma  amiga  desandou.  Inyentei  uma.
estranhssima, que todo mundo  experimentou  por  educa  de  nariz
torcido. Eu mesmo, comi para disfarar. Mas o  pei  e  a    farofa
estavam excelente$. Bebemos,  comemos  e  trocaili  presentes,  e.
rimos n uito! Para minha surpresa, as pessoas.1 ficaram  o  'tempo
todo correndo de um lado para  o outro. Y porque  na  maioria  das
vezes a ceia de Natal.  parecida com u estao de metr, com  uma
poro de gente entrando e sa do. H quem chegue  atrasado  porque
precisou dar u "passadinha" na casa de no sei quem. E  quem  saia
voand sem comer direito, rir ou desfrutar, para jr a  outra  casa,
on algum pode ficar "chateado". No dia seguinte um grupo ainda se
encontrou  para  desL  tar  as  sobras.  Dias  depois  o  pinheir
continuava l, com as fitas j ri cadas. Pensei em jogar no lixo.
Hesitei. Afinal estava vivo, n estava? ique plantar uma rvore era
umbom sinal para o Ano 1D Peguei  a  enxada.  Abri  uma  cova  m
frente da botei o pinheiro cortando o fundo  da  ata.  As  razes
'tn, achei que no fosse para a frente. Para ninha  sur  continuou
cresendo bem  devagarinho,  ano  aps  ano.  k  vez,  uma  visita
-comentou: -Jvleu av dizia que, quando o pinheiro ultrapassa o te
,' dono da' casa m ,u .s Quase peguei o  machado  pra  cortar.  ,
suspirando: - Deixo nas mos do destino!  Lpinheiro  j  est  bem
mais alto que o telhad e eu conti i. Minha  me  se  foi.  Muitos
daqueles amigos tomaram s rumos, eo nosso Natal em comum  ma vaga
lem-' a Est o pinheiro cresceu de um jeito torto, o tronco fazendo
uma curva pendendo para um lado assim, encontrou um  equilibrio  -
como talvez todos uh situaes de  dificuldade.  Ficou:  enorme  e
majestso. .4-lo' sinto sempre um calor no peito. No s pela  lem
, mas tambm pelo sentimento de continuIdade. Em is, como Natal  e
Ano-Novo,  essa a grande sensa Lalegria de enfeitar  uma  rvore.
Os amigos que se foram ie, esto chegando. Os laos.  A  troca.  A
felicidade de es  , lado de quem a -gente gosta. E a vida, que  se
renova. 40 - 41 1 Os Ex-Ricos VOU VISITAR UMA AMIGA. Desempregada,
ela acaba de n dar de casa. Estranho o endereo, nos  Jardins.  H
uma sem a  dita  senhora  morava  com  umas  primas  solteironas,
dormin em um sof-cama. Ter descoberto novos e generosos par tes?
Suspiro. Deve ser difcil ser uma dama e ter de lutar  p  bife  de
cada dia. Aperto a  campainha.    Ela  me  recebe  com  u  sorriso
radioso. Os mveis, recuperados da garagem das prirn  espalhani-se
por uma sala soberba. Percebo  rolos  de  tecido  decorao  a  um
canto.  Coo a cabea. Ela me explica, feliz - Vendi o terreno! Em
tempo: o tal terreno localizava-se em um dos con mnios mais caros
de So Paulo.  o Parque Silvino Pereira, ' Granja Viana, onde  um
lote de cinco mil metros  custa em t no de quatrocentos mil reais.
A dama recebera o imvel herana. Espanto-me. - Mas o dinheiro deu
para comprar essa manso? - Comprar, no. Aluguei!  Alguns  amigos
espalham-se pela  sala,  bebericando  copos  usque.  Uma  bandeja
aninha caviar e torradinhas. Comern ram a iminente partida da dama
para Nova York Plantado    ri  minha  educao  de  classe  mdia;
reflito: - Mas desse jeito o dinheiro v acabar! Ela me encara como
se tivesse dito que ela estava gord Fah em fim de dinheiro pareceu
o cmulo da.deselegnc. do exterior carregada de compras.  Dali  a
alguns meses ium quarto para um conhecido. Outros mais, e brigou '
pensionista porque ele comeu  as  duas  ltimas  salsichas  f  No
tardou, vendeu parte dos mveis e retornou inho  das  tais  primas
solteironas. Com dvidas. e vindas da  economia  acabaram  criando
uma classe . e at de ex-novos-ricos Nesta cidade as ondas  eco  k
evidenciam  as  mars  do  pas.  Samos  dos  ex-bares  de   dos
ex-industriais aos ex-altssimos  executivos  de  multi  s  aos...
enfim... Boa parte tem uma coisa em comum: .ie viver  larga.  So
pessoas que vendem casas para comr  uma  partida  de  vinhos,  ou,
simplesmente, jantar fora por is meses. Do festas e no di pelejam
para no   faxineira. Se recebem visita em poca de vacas magras,
Quer comer uma saladinha? Estou de  regime.  i  vem  um  prato  de
alface. Se torram uma propriedade, de salmo noruegus!  A  antiga
nobreza tambm sofre! .. numa festa, um grupo agitava-se em  torno
de uma rz de  coque, muito fina. - E uma princesa - algum contou.
De ato. Seus pais seriam os-herdeiros do trono de um rei Jano  se
no tivesse  acontecido  a  Unificao,  Garibaldi  e  onornia  de
mercado. A princesa continuava princesa  nos suaves. Seu  anel  de
braso emitia raios a cada movimento s De to elegante, todo mundo
se  sentia  constrangido  ner  perto  dela.  Quase  comentei:    a
gargantilha parecia  ser ria, e no uma jia de famlia de  origem
remota. Mas um i como eu sabe reconhecer preciosidades? as  depois
encontro um amigo despachado, conhecido do o. Conta.  A  princesa?
Mora num sobradinho geminado. Quer ver? 42 1 43 Curiosidade  pouca
 bobagem. Fui. Na garagem real, u flisca. No terrao de cima,  um
casal grisalho, tomando sol / sandlia de dedo. Meu amigo mostrou,
discreto. - Aqueles so o rei e a rainha.  Poderiam  estar  mandar
decapitar pessoas. Agora so obrigados a fazer a feira. J ve  ram
at os talheres de prata, mas a rainha e  a filha princesa n  saem
do cabeleireiro. Vida de ex-rico no  fcil.   capaz  de  fritar
ovo na par economizar leo. Mas no  consegue  sobreviver  sem  ut
taa de champanhe. Velhos Amigos J  CONVITE  DE  casamento  de  um
amigo. Espanto-me. uinto enlace do rapaz O  convite  faz  meno-a
uma ceri religiosa. Na primeira vez, a noiva deslizou pla nave de
- inalda. Ainda est viva. O que  ele  ter  feito  para  obter  ?
Arquivo o mistrio para resolver depois. Pego o zinbo' da lista de
presentes. Suspiro. Ser o- quinto  pre  A  continuar  assim,  ele
devia abrir um crediario para s tdos. ija chique. A noiva deve ser
descendente do rei Midas. que escolheu vale o peso em ouro. Penso-
em fugir e ar um livro de culinria vegetariana.  Seria  riginal.
Deci por um cinzeirinho que n est na lista, mas  lindo. que  ele
parou de fumar. Decido esquecer. Qualquer ntrio, farei um oh!  de
surpresa: Oh, voc parou de  fumar?  Bem...  deixe  o  cinzeirinho
visitas! meu terno do armrio. Boto a gravata. Toro  para  omida
seja boa. Gosto de me empanturrar  de  bem-casa  ,-se  der,  ainda
levar alguns para casa, escondido. H espe  LAcerimnja    em  um
buf. Mal entro, ouo um grito o. Voc!  -Casamentos  -so  ideais
para encontrar velhos amigos. Pes -  dez  ou  vinte  quilos  atrs
foram ntimas, ressurgem com riso atarrarado no rosto.    leve  a
sensao d reencon e que nunca nos separamos! 44 45 e outra. - Meu
filho vai prestar vestibular,  acredita?  Sabe  aquele  livro  que
comecei h dez anos? Estou qu - terminando! E sua filha, como vai?
- Um pouco nervosa. Casei com a melhor amiga dela  No  ar  fica  a
pergunta. Por que nunca  mais  nos  vimos?  N  existiu  uma  briga
definitiva. Apenas, um dia, no telefonei marcar o programa de fim
de semana. Duas semanas de eles ligaram, mas eu no podia.  Quando
liguei, tinham  i viajar. Os meses foram  passando.  Os  encontros
rareando. E aniversrios depois, no me chamaram. No nos vimos  n
na! do ano. De vez em quando, uma notcia.Aquele    separe  aquela
desencalhou. Contemplo os rostos. Se  continuasse  mesma  turffia,
minha vida  seria  diferente?  D  saudade  dos  h  momentos  que
poderamos ter tido. Em  seguida, todos a canetas,  papeizinhos  e
cartes. - D o seu telefone. A gente precisa se veT. -  Pega  meu
carto. Olha, vou anotar o numero do celu o e-mail. Vem  c,  voc
j no era casado no religioso? Ah, essa  cerimnia  foi  s  para
contentar os pais dela.  outra igreja, dissidente. o cartrio?  -
No casamos no civil, porque meus papis estavam  en  ';.  Mas  os
velhos pensam que foi hoje de tarde. Ento eu vim em um  casamento
que no foi casamen nda dei presente? Tem pai que  cego! )  noivo
funga, ofendido. Despeo-me dos velhos amigos. prometem se ver, se
ver, se ver... mas,  claro, no vai i1o. At o prximo casamento.
Quem sabe com o mes  vo! Que tal almoar a semana que vem? -  1h,
a semar que vem no sei se vai dar. Quem sabe ' - Na  outra  eu  
que no posso. E  noite? - - isso. Talvez   noite.  A  gente  se
liga para combinarL Afundo o carto no bolso.  Viro-me.  Sorrio  e
pego um no carto. Continuamos chilreando  como  beija-flores.  S
nos lamos aos acordes da marcha nupcial. L vem  a  noiva    de  v
grinalda, de braos  com  o  pai  orgulhosssimo.  Todos  se  olh2
constrangidos. Afinal, como  ele  est  casando  no  religioso?  1
divrcio, j saiu? Abrao os noivos, -desejo felicidades.  Consigo
me em turrar de picadinho de frango afogado  em  um  molho  extic
Devoro a sobremesa duas vezes. No  fim,  agarro  o  noivo.  46  47
Desculpa Esfarrapada: SEMPRE  FUI  UM  DORMINHOCO.  Adoro  acordar
tarde.  o  de  coisa  malvista  por  possveis  empregadores.  Em
,pocade v. magras eu insftua o pessoal de casa  a  dizer,  todas
as vezes- algum ligasse: "Ele est no banho" Nada  mais  prtico.
Quem est no banho, no atende ( fone. O problema  que s vezes a
pessoa ligava vrias ve hora aps hora. A resposta, in' No  banho.
- Se que ele no se afogou. eni do  chuveiroi,  vinha  a  pergunta
irnica. Ou batiam o telefone. - Se el no quer me  atender,  por
que no diz de uma Ganhei a fama de ser o  homem  iiiai  limp  da
cidade. Sabonetinho, como diziam! Chegaram a me  citar  um  cr  do
Nlson Rodrigues sobre o tema. Ou seja: acabou a pa. Mas,    nessa
era de celulares,  de  comunicao  rpida,  co  se  safar?  Fao
terapia todas as  sextas-feiras.  Quando  estou  e.  rando  alguma
ligao importante, deixo o celular  ligado. s ve no reconheo o
nmero no visor. Em dvida, atendo. J tc te mil vezes  xpliar:
- Estouno meio de uma  consulta  e...  -  Que  adianta?    pessoa
continua falando, falando! Agora o estratagema  do  tnel.  -  1h!
Olha, estou no meio do trnsito... ih! Estou en do em um tnel, se
aligao cair..; ih! No estou ouvindo m nada, al, al. 1h!,  ih!
, enquanto o interlocutor se esgoela do outro lado: ii gente  usa
a estratgia, de to boa. J est ficando velha.  s  da  revoluo
das comunica9es o interurbano fundo -  desculpa.  Bastava  mandar
dizer.  e  est  em  um  interurbano.  r  com  outra  cidade   era
complicado.  Todo  mundo  com  ia.-  Nesta  era  de  DDD  e    DDI
facilitados,  uma descuf ...apadssima!  Mas  a  do  chefe  ainda
fttncio Sinto muito, ele est em reunio com o  diretor.  certo  e
confere status. Reunio privada com o  diret  qualquer  um.  Pedem
ligar vinte vezes no  dia.  Quanto  -a  parecer  a  reunio,  mais
importante ser o cargo. A r qu venha um rugido  do  outro  lado:
;Jnvente outra. Quem est falando sou eu, o diretor. , onde   que
ele est? - _ que est entrando em moda Liguei o dia todo  e  voc
no atendeu .Maseu estava em casa. Houve um problema mis linhas  .
de todo  o  bairro.  Ficamos  incomunicveis.  estratgia  costuma
provocar  um gesto de solidariedade. ' ventanias. Tudo mexe com as
linhas. Bateria lo que pifa tambm  outra. A  pessoa  est  doida
para se comea: Oh! A bateria est pifando... olha, se  a  ligao
cair, de- ligo. bate o telefone na cara do outro, a  salvo!  cesso
de trabalho tambm funciona.  O  problema  ,quan  a  d  bvia  se
contrape a outra mais bvia ainda. Oquand o casal  se  encontra,
depois de um cano. -Desculpa ter deixado voc  esperando  ontem  
noite, ida. Surgiu um projeto superurgente, fiquei at, tarde  tra
o. Nem me agento em p diz ele, aproveitando para as olheiras e os
sinais de ressaca. L / 48  49  -  Ah,  meu  am9r,  eu  at  fiquei
preocupada! Houve problema nas linhas do bairro.  Para  cmulo,  a
bateria do c  lar  pifou.  Ento...  se  voc  tentou  ligar...  -
responde  ela, iji centemente. - Os dois se olham, imperturbveis.
E. agora? A sorte foi que nQderam de cara um com o outro na fa Os
tempos mudam. A tecnologia dos pretextos  evolui.  desculpa  ganha
roupa. nova. Mas dificilmente muda a  apar  cia.  Desculpa  que  
desculpa, sempre tem jeito de esfari  Vocao  AS  ATIVIDADES  QUE
mais deliciam os adultos  pergun : pini O que voc vai ser quando
crescer? e meus  amigo  de  infncia,  a  resposta-padro  era  me
advogado.  Algum,  mais  aventureiro,  respondia:  -Vou    dirigir
caminho! resposta era a mais esquisita E me apaixonado pela idia
de ser escritor, embora no s bem 'do que se tratava.  'O-que  faz
um escritor? - perguntava minha  me.  Escreve!  -  eu  respondia,
cheio de razo.  longo  da  adolescncia,  a  crise  explodia  nos
almoos de Vou prestar bioqumica - avisava meu  irmo  mais  Jne
no sabia exatamente do que se tratava, mas pare peitvel. Chegava
minha, vez: - ser escritor. . Do que vai viver? sa era a  questo.
undo todas as infori artistas em geral passavam - O certo    voc
ter uma profisso e escrever nas horas aconselhava papai.  '51  50
Eu teimava,  dizendo  que  o  dinheiro  no  era  irnporta  Mas  a
satisfao. Quero ver a satisfao quando no tiver com que p -  o
aluguel! O almoo se tornava um caos. Mame pergurttava: Onde voc
estda para  ser  escritor?  Eu  me  calava.  Mdicos,  advogados,
engenheiros, esng em faculdades. Agor... escritores? Como  algum
se tornava Tentava seguir o conselha de Monteiro Lobato: ler b te.
Para escrever bem,  preciso ler muito. Eu me afundava livros.  Um
amig de escola me aconselhou: - S com  bastante  experinia  de
vida. Como voc vai sobre a vida do outros se no passar por tudo?
Sou do tipo tmido. Serja obrigado a passar  noites  beL  do,  at
rolar pela sarjeta? Namorar uma daquelas moas nu m de  saias  bem
curtas e botinhas de cano  long  nos  meus  tempos  passeava  pela
avenida So Joo? Sem dv. elas deviam ter experincia de vida!  -
Talvez  fosse  melhor  fazer  artesanato  com  couro.  crescer  os
cabelos, comprei couro,  cola,  tesouras.  A  bolsa  fl  pavorosa.
Desisti. - Est muito meloso. Reli. Nada mais pvoroso. Comprei um
livro  de  culinria.  Terminava  a  fculdade  jornalismo,    mas
precsava de algo para expressar minha cr vidade.  Poderia  montar
um  restaurante,  se  aprendesse    algui  receitas  sofisticadas.
Dediquei-me aos peixes com laranj, 1 gos com laranja,  arroz  com
laranja... as visitas, que s comi de vez em quando, adoravam.  Eu
no  suportava mais  olhari  -  nja.  Voltei  para  as,  omeletes,
macarro... e ao sonho de ritor. u rimeiro livro saiu  a  frceps.
Foi um infantil, Quando dozinhO Nasceu, que conta a histri de  um
menino ,n-ipanha a gravidez da me. Demorou mais ainda para  tado.
Montar a primeira pea foi, bem mais difcil,  por  dinheiro.  Meu
Terceiro Beijo acabou fazendo certo ta  descobrindo  que  a  velha
mxima  correta. Para subir ada  preciso um degrau de cada  vez.
O mundo mudou. exl um mercado para autores de livros,  roteiristas
de  e televiso. s vezes vou dar palestras em escolas e  me  atam
qual seria a carreira do ftituro. Digo  que  no  sei.  -N  minha
juventude, se algum falasse em trabalhar com ia  ser  tachado  de
maluco - explico. mo sera o mundo de amanh? O  grande  negocio  e
esco ue se gosta. Quando a gente gostado que faz, pode ser voroso.
Mas insiste. Acaba aprendendo. Quando a gente mais chance  de  dar
certo. Foi issu que aprendi na . il.ssim que me  tornei  escritor.
L pelos vinte anos escrevi minhas primeiras peas. Ni, trei a  um
intelectual. 52' 53  Sinal  Vermelho  QUANDO  PERGUNTEI  SE  TINHA
dinheiro trocado, mi amiga abriu a  bolsa  e  tirou  a  carteira.
Verificou. Insufi Imediatamente, tirou  uma  segunda  carteira  do
bolso do    co,  essa  repleta  de  notas.  Espantei-me:  -  Duas
carteiras? - Uma  para os assaltantes - explicou.  Farta  de  ter
sido roubada vrias vezes ao  parar  no  setn  ro,  ela  opt  pelo
estratagema. Houve poca em que os assaltantes eram rpidos.  Apri
mavam-se, arrancavam um  relgio  e  uma  corrente  de  oul  saam
correndo como ratos assustados. O assaltante do  sem ro,  hoje,  
um profissional seguro, conscienie de ter conqi do um  espao  na
sociedade. Em certo sentido, tem muito a com  um  dentista.  Ambos
sabem lidar com  o nervosismo aF A nica diferena  que, enquanto
o dentista promete q vai doer,' o ladro garante  o  oposto.  Est
distante de quaL proposta feminista, pois  prefere    as  mulheres
desacompanhat Aproxima-se, explica que  um  assalto  e  que  quer
todo o nheiro da carteira. Generosamente, dispensa os documentc as
vtimas at agradecem.  -  Tive  a  maior  solte  -  comentou  uma
conhecida. -] deixou tudo, menos o dinheiro. Foi muito legal. Como
se o ladro fosse um amigo compreensivo! Seu mtodo,  desenvolvido
em centenas de semforos,i da presso psicologica pura  e  simples
Na maior parte das v nem arma mostra. j vi a atuao de um desses
assaltantes. arado num semforo prximo  praa  Roosevelt.  Atrs
em seu Fiat, a sbia amiga das duas carteiras. O pro j acompanhado
de um ajudante, ajroxmou-se de seu rj, pelo  meu retrovisor,  que
conversava com ela cortes Ser  um  assalto?",  refleti.  Observei
par-a ver se havia rma. De jeito nenhum. Um bando de rapazes  "mal
)S" acompanhava  a cena de longe. J me vi descendo e  enfrentando
todos a golpes de capoeira. O nico enia  que no  sei  capoeira.
Apenas pensei em aprender, s dcadas atrs. identemente, decidi-me
pela verso menos perigosa. tar pedindo esmola." Vi  quando  minha
amiga ofere umas notas. Achei a esmola grande,  mas  disfarcei.  O
sinal pa  Mais  tarde,  no  restaurante,  onde  havamos  ido  nos
encontrar, ela revelou: fora um assalto! Gentil- (e com alguma dor
d conscincia), fiz questo de pagar at. Ou seja, o assaltado fui
eu, porque o menu custou nais do que a quantia roubada. onheci uma
garota  que  no  ltimo  ms  foi  assaltada  cinco  i   semaforos
diferentes Acha normal Particularmente, que o mais grave e  quando
uma coisa dessas comea a ser ".  intil revoltar-se.  Uma  jovem
que trabalha na rea estava no semforo do Trianon, na esquina  da
aveni lista, s 4 da tarde. O ladro aproximou-se, pediu o re   o
dinheiro. Ela rodopiou o pescoo em busca de ajuda.  o  tempo  dos
cavaleiros andantes! Parecia ter-se tornado - -.  Nesse  instante,
farol verde! Os carros se moveram. Ela ii. O meliante agarrou  seu
rabo-de-cavalo. Pior que Ra 1 com suas tranas,  ela  ficou  presa
pelos cabelos,  com um acelerador,  outro  no  breque  e  o  pulso
entregue  ao  ladro.  OUs  s  depois  de  devidamente  depenada.
flaiquer motorista sabe quais so os pontos mais perigo o por que
ningum faz nada? Em regies como a pra- 54 55 a  Roosevek  e  -o
Triann sucedem-se os assaltos como sem terras de  ningum.  Estou
comeando a desenvolver a sndrome do  p&n  cada  sinal  vermelho.
Fecho  os  vidros,  mesmo  agor3  no    Fico    parado,    olhando
cautelosamente em todas as dit quanto ointerior,   do  veculo  se
transforma numa sauna. eu, ufli tipo capaz de fazer piada de quase
todas as cois vida. Mas a -questo  sria. Seria- cmica  se  no
fosse tn Perder peso e entrar em forma? Para andar na moda j  no
basta usar esta ou. aquela i  preciso ter o corpo certo,  com  as
medidas exatas de urr terofihista para eles, com  opadro  de  uma
ginasta  olmpica - elas. Urna tragdia para os barrigudinhos como
eu. Tenha amigo que passa trs horas por dia na academia. Sai do t
lho  e  corre  para  os  abdominais,  para    os  alongamentos,  j
levantamento de peso. Est com pei1 de pombo. Outr lhou tanto que
os bceps parecem dois pernis. A cabecin enterrada nos ombros como
uma coruja.  Ambos sente orgulhosos  como  avies.  Uma  conhecida
passa os dias n do. O corpo, enxuto, no combina com os vincos  do
com o nariz em forma de guarda-chuva. s vezes  d a im so de que
fez um implante de cabea. Tenho inveja dos tempos em  que  algum
podia enve tranqilamente. Fazer exerccios no  mau.  O  duro  
rou obsesso. H uma amiga que- passa as noites pe' numa bicicleta
ergomtrica enquanto v as novelas.  Outrac  prou  uma  esteira  a
prazo, que agora enfeita seu  dormitrio,  uma  poro  de  roupas
dependuradas, Virou cabide. O fil'  outro    amigo  comeou  a  se
queixar de gordura. Entrou em at convencer o  pai  a  adquirir  a
bicicleta mais cara do pd Uma maravilha, colocada no  terrao  do
apartamento. Mal   gou,  atirou-se  sobre  ela  e  pedalou  quinze
minutos, feliz. N mais a usou. Est l, no terrao, tomando chuva.
jr - que qualquer rapaz bombado, qualquer pntera  age  cbmo  se
fosse um ser oriundo das estrelas. Vo s e camiseta, com jeans  e
 colantes. Se eu apareo -- ' folgado para  disfarar    abdome,
observam-me, LO. Eu me sinto como se fosse uma bolsa hanel na uma
sex shop.  Confesso:  resolvi  fazer  ginstica,  recen  Tentei  o
personal trainer. Ou seja, um professor de E particular at que eu
pegasse o ritmo. Mal comea-  me  deitou  numa  e  de  cadeira  de
dentista forrada e me deli uma barra com pesos nas extremidades, a
ser vezes. Ergui uma, foi  fcil.  Duas,  mais  ou  menos.  ra,  o
crao batia no nariz. stou velho, j no posso mais! -  reclamei
-  ontinue  erguendo,  ou  a  barra  cai  no  seu  queixo  -   ele
laticamente. abdomina-is foi pior. Eu contava, e logo chegava  aos
e mordi o joelho, de tanto nervQsismo. Depois o me  pendurou  nurn
aparelho de longamerito.  Fiquei  .js  abertas,  barriga  para  a
frente e mos agarrando uma madeira, logo atrs.  SEsse  exerccio
tira barriga - explicou. Voc  ito  pode  me  algemar  aqui,  at
amanh? - im II um sorriso de desprezo, o crpula terminou a aula.
Se  amanh  voc  conseguir  se  mexer,  faa  alguns  exercI-   -
despediu-se. -t primeira aula, bastava olhar no espelho para me  -
atleta. Assim, continuei com o sofrimento. Aulas  -ele  comeou  a
colocar pesos nos ps,  que  eu  deveria  -  ltmadamente.  Dava  a
impresso de que os dedos iam cho Meus  amigos,  so  elogios  ora
voc vai sentir mais vitalidade. 56 57- Eu sentia sono s de ouvir
a palavra vitalidade. Fui me esperanoso. Dois quilos extras. -  
a massa muscular - disse o crpula. Tanto esforo  para  engordar?
Preferia ter devorado qi... de chantili. Mesmo assim, persisti  no
sacrifcio. Outro dia peguei uma revista de  moda  internaci&  At
agora essas revistas eram prdigas em exibir mane at  quarentes,
mas sempre com peitorais e bceps express  Surpresa!    Em  todas,
modelos longilneos, magros, cabelos .c pridos e ar romnt O homem
musculoso est saindo de moda! - por cou uma amiga estilista. -  O
bonito agora  o tipo  dndL  h  magro.  Pensei  nos  meus  amigos
nadando, jogando tnis, ma do. O que vo fazer  agora?  Trocar  de
corpo? E eu? Cori espelho. Examinei: meus braos estavam comeando
a ficar  aquele jeitinho de quem faz ginstica! 1h!  isso a. At
quando ei em forma dou com  os  bui  n'gua.  SorriSos  Comerciais
;,QUANDO CONVifiADO para uma festa,  perguntava  qual  )memorao.
Hoje verifico que produto  ser  lanado.  *  vez  mais  raras  as
reunies sociais sem interesse defini- perderam  o  prazer  de  se
reunir para bater papo mente. Isso em  todos  os  nveis  sociais.
Conheo vrias J que sempre se encontravam  para  tomar  caf  com
oner bolo, e destrinchar a vida alheia. Na semana passa ia,   tia
foi convidada para passar a tarde na casa de uma 4. Que  bom,  faz
tanto tempo que no batemos papo! - ou. Bem...  Se  der,  a  gente
conversa um p - rea vizinha. - Mas a reunio  para voc a a repro
Lt sua vida vendendo cosmticos. 'Gosto de minha  vida,  e  j  me
aposentei! Engar seu. Venha  reunio! Vai perceber como festas de
sociedade  no  passado  eram  ofuscantes.    Aps    as    pessoas
esquadrinhavam as colunas  para  analisar  o  dessa,  o  .penteado
daquela. Damas  eram  veneradas  cmo  s  de  cinema.  Tornaram-se
garotas-propaganda. Coque fn gente badalada  para  lanar  carro,
xampu, aparelho c ulite. As pessoas se arrumam, se perfumam, e vo
fazer bocas de copo na  mo,  diante  dos  fotgrafos.  Tanto  que
urinhas carimbadas, como ti Chiquinho Scarpa, esto 58 59 cobrando
cach para  comparecer.  Como  a  festa  perdeu  a  diosidade,  os
convidados se comportam  altura. Ficam c tando salgadinhos, e  no
final todos se estapeiam para r sem o  brinde.  Pir    quando  o
convite implica o uso de camiseta e  o  evento  elegante  vira  um
festival de barrigas e acentuados pelo modelito. - Surgiu at  uma
nova profisso: promoter.  o especialist transformar a  festa  em
sucesso. Agita os convidados, c buf e permanece na porta coin  um
sorriso atarraxado. H  sos de promoters que  sofrem  deslocamento
do maxilar 4ei reverenciar os convidados. Alguns so  bem  srios,
com esc rios montados etc. Excees. Ser  promoter    coqueluche.
fisso implicaria conhecimento das regras de etiqueta, por   pio.
H uma rofissiona1 na cidade que  o prprio pai de pirata.  Basta
chegar im famoso e-ela se pendura  pa  fotografias.  Adora  vestir
jeans justssimos e col/ants. TaiveT a nica promoter  mundial  no
gnero farofeira. Outro faz  nero cambalacheiro.  H  dois  meses
armou um grupo vip ir ao Moinho Santo Antnio. Todos deixaram seus
chegar  de  micronjbus,  com  ar-condicionado.  Os  vi  d    ram,
chiqurrimos,  e receberam uma cartela cada  um.  Na  de  sair,  a
conta - c por cerveja. Uma socialte gere - Mas eu  sou  vip!  Sou
convidada do... Qnde  que-e Desapareceu. Tal como a promoter  que
exigiu a prese de um executivo assanhado na festa do Mercado  Mix.
- Venha com trs amigos. Vou deixar  seu  nome  na  pi  como  vip.
Quando ele chegou, nem nome nem promoter. Morreuc a entrada dele e
dos amigos. Trata-se de ima estratgia: se  pagantes  dizendo  que
so vips. Pobres que fim! Mesmo inocentes  festas  de  aniversrio
passaram a ser e' tos promocionais, porque em certas como de moda,
aparecer d lucro. Resultado: os prcmoters conm ,ara comparecer  e
evitar o salo vazio. Pagam pouco, vertido. Que o digam os modelos
jovens chamados em ocasies sociais s para ficar  circulando.  Os
promoters  t,-a    boate  fica  animadssima,  o  dono  se   sente
prestigiado. .;o cad a festa? Passo a noite toda  comemorando  e,
no rujnte, descubro que estava promovndo desodorante. a tem? ;idi
me vingar quando fizer aniversrio. Quero bolo com has bexigas  no
teto, lngua-de-sogra e chapeuzinho colo ara 'os  cQnvidados.  Vou
chamar amigos velhos, at  os a. No  ser  nenhum  grande  evento
badalado. Pode reer coisa tonta Mas vou dar boas risadas, e  isso
e que Ti as festas de antigamente! / 60 61 Adeus ao Fogo. SENTO 
MESA COM o estljiago danando  rumba,  de  t  fome.  H  quarenta
minutos, eu, minha cunhada e as (  brinhas  esperamos  a  feijoada
descongelar. A carne-se toucinho  e o paio imersos no caldo  negro
so, finalmente, a sentados. Encho o  prato,  degusto  a  primeira
garfada. Pu bor de asfalto. As duas sobrinhas quase desmaiam  d  n
enquanto  minha cunhada d o veredicto: - Queimou. - Um sentimento
de tragdia paira no ar. Como  sbad expediente da  domstica  j
acabou. As trs sabidonas ma bem fritar  um  ovo.  Proponho  fugir
para um restaj - cordam, entusiasmadas. Apenas  uma  ressalva,  da
me: - S que estou sem talo de cheques... Submeto-me. Samos  em
direo ao mais prximo. porta, o namorado da sobrinha mais  velha
incorpora-se ao tejo. Chegou tarde, mas em  jejum!  Pouco  depois,
com as as  enfiadas  em  tigelas  de  feijo-preto,  conversamos.
Estou s preso: no sabem cozinhar nem para emergncia? - Uma ve eu
fiz uma sopa num acampamentoS Maresias  -  conta  uma.  -  Mas  de
pacotinho!  uma constatao: as mulheres andam com orgulho de  '
longe  das  panelas.  As  conquistas  femininas  implicam  que  os
grilhes que as prendiam ao forno e fogo. Fico  impre nado com  o
nmero de mes executivas  que  criam  seus  rei  tos    base  de
salsicha e hambrguer. gerao acha vantagem  confundir  berinjela
com abo s que cozinham melhor so especializadas num nico jjnbeo
uma garota que adora fazer frango no azeite. peitos e  coxas  numa
frma repleta de leo e deixa no t secar. Se algum convidado tiver
colesterol alto, mor ntar. Outra se sente o mximo  quando  coloca
um ma rn  consistnci de chiclete na minha frente. Dou uma e  meus
dentes ficam presos no prato. Gosto assim, bem molinho - explica a
gourmet.   oa que um nmero crescente de  homens  descu  -  itos
culinrios.  Engano  imaginar  que    vocao.   Tra    e    pura
sobrevivncia. Afinal, a maior  parte  dos  mance  a  gerao  foi
criada por mes  esplendorosas,  ca  passar    uma  tarde  inteira
enrolando brigadeiros para nha de aniversrio.  Quando  se  casam,
enfrentam  os  si  avano  da  luta  entre  os  sexos.  Um   amigo
recm-casado s sabe fazer estrogonofe. Nos finais de  semana,  d
ogonofe. Cada vez que vejo os pedacinhs de arne dono molho tenho
vontade de chamar minha me. Outro para ela  fazer um  bolo.  Saiu
um pedao de cimento. i, chamou-me  de  machista!  -  S,ua  mulher
trabalha? -Ainda no Pensamos em ter um filho. Morro de 4e  passar
as noites esquentando mamadeira. Ela   incom  e  at  para  fazer
caf! nas, mais cruis, vivem fazendo regime e submetem o  a  ele.
Um rapaz comeou a afjnar. Quando estava qua encando,  revelou:  -
jantar, s salada de alface e cenoura ralada. Ela ema eu  sumi.  O
pior  que me faz ralar as cenouras, para ebrar  as  unhas.  vezes
acordo no meio da noite so com  um fil nignon!  62  63  Sei  que
muitas mulheres ficam "bravsimas" & ess de crtica. o pacote!  -
No temos nenhuma obrigao de saber cozinhi -'  insiste  qualquer
garota ps-moderna. Em termos de avano social, seria  fundamental
transL o arroz em mingau e o bife em  sola  d  sapato?  Hoje  erni
figura da domstica de forno e fogo, escravizada no  em tornou-se
cada vez mais. rara. Digam o que disserem a nistas de ltima hora,
dietas  base  de  pizza  com  gosto  de  no  so  uma  forma  de
felicidade. No ltimo Natal, quis agir com sutileza.  Minha  prii,
descabelava porque perdera a empregada de muitos  anos.:  reci-lhe
um livro de receitas Meses depois  me  cbnvu'    jantar.  O  menu:
comida chinesa, ntregue em casa. Surpi di-me:  -  E  o  livro?  -
Estou lendo! - respondeu alegremente. - No    um  romance  -para
ler!  para fazer! - r  Ela  me  encarou,  magoada.  Mesmo  assim,
pretendo c nuar com a estratgia. Quando  alguma  amiga  execut  -
aniversrio, presenteio com  Dona  Benta,  A  Maravilhosa  nha  de
Oflia e outras preciosidades  do  gnero.  Pode  ser  at  no  d
certo.-Mas adoro ver a expresso de susto quando a  :O  Mestre  da
Faxina TE, MINH FA)UNEIRA desapareceu. Deixou chi a avental  e  um
mao de cigarros pela metade. Trs se lepois resolvi:  -  u  mesmo
vou limpar o apartamento! uei um saco de lixo grande,  botei  dois
coadores de dos, a casca de uma mexerica e algumas torradas secas.
D, um pedao de torrada caiu no cho. Esmigalhei- - . sem  querer.
Observei  horrorizado  os  pedacinhos  arem  pelo  piso.  No  tem
importncia, depois vou lavar o cho. t -o  1ixo  Voltei.  Abri  a
geladeira. Das cenouras mu ;me observavam. Retornei ao lix Foram
dez idas e  Sempre esquecia alguma coisinha! Finalmente,  encarei
nica da cozinha Originalmente, e branca A alvura ocul -sob manchas
niatrons,  vermelhas  e  cinzentas.  Passei    a  i.  As   manchas
continuavam l. Tocou o telefone. stou s voltas com  a  vassot  -
expliquei, sorridente. Yai voar? - perguntou meu  interlocutor.  -
uei e voltei  cozinha. Tinha espalhado as migalhas  ipor  todo  o
trajeto. Achei melhor  me  concentrar  e  -ra  sala  mais  tarde.
Cautelosamente, espalhei o lquido r  mukiuso  no  cho.  Puxei  a
sujeira com o rodinho. As is desapareciam magicamente! - Venci  as
faxjnejras  - comemorei. nto descobri estar-  do  lado  oposto  
porta. Ao voltar area limpa e molhada, na ponta  dos  ps,  minhas
botas arn marcas pretas, bem redndinhas. Dava a impresso  64  65
de que uma cabra havia passado por l. Suspirei. Tirei os tos,  as
meias e arregacei as calas. Joguei limpador de novo.  o  rodinho,
dessa vez ao contrrio. Trouxe  uma horrvel cinza at a porta  da
sala. Quando ia atingir meu tapete 1 corri at a  pia,  peguei  um
pano  e  ajoelhei-me  para  limi  borra.  O  pano  estava  imundo,
emporalhei  tudo mais Pior: meus  joelhos  tambm  se  sujaram  e
minhas prprias passaram a criar manchas. No tive dvida: tirei a
roupa 1 - O melhor  ficar. nu - conclu, embora,  claro, n tenha
visto uma faxineira trabalhando pelada.  Retornei    pia,  tentei
lavar o pano. A pia  entupiu.  Coj  banheito,  acrescentando  mais
-marcas no cho. Molhei e o trapo. Mais  limpador.  Notei  que  as
casquinhas da  tcn apesar de todo  o  meu  empenho,  pareciam  ter
colado na mica. Agachei-rhe e, com a ponta das unhas, fui tirando-
por uma. At quase enlouquecer. Quis chorar. Pus  a cabelos,  e  o
lquido de limpeza comeou a escorrer pelo rosto. Espirrei. Joguei
gua por tudo, espalhei saplio e o rodinho. Meus ps arderam.  Ao
pu(ar os detritos,  t -- ram no tapete persa.  Deitei-me  sobre  o
tapete para caar os tinhos de sujelra. Nesse instante, o  rodinho
escorregou e em direo ao ralo.  Na  batida,  uma  poa    d'gua
explodiu. fria, agarrei o pan e passei em cada milmetro do piso:
maiei no tapete, exausto. Olhei a cozinha. Surpresa! O piso estava
limpo! Suspirei, quis  tomar  um  'Duas  gotas  negras  caram  da
xcara. Desesperado, quase  lan'  cho:  Limpei  com  meu  prprio
leno. Respirei    proflindani  senti  minha  franja  grudada  ns
clios. Uma mancha de se instalara na minha barriga! Corri para  a
ducha. Adormeci sando como seria fascinante limpar a  sala, no dia
seguinte De manh bem cedo,  a  faxineira  reapareceu,  com  tria
complicadssima. Quase beijei seus ps. Sempre desdc os  trabalhos
domsticos. Quando ouvia algum falar em ser   de-casa,  torcia  o
nariz. J nie arrependi. Francamente! Que nerais  do  Cotidiano  M
FILHO NO COLO, sacola na mo e passo vagaroso, a [ o interfone  do
prdio. Entrada permitida, sobe uma scada  direita. Est no  meio
quando o porteiro se apro :ido,  bfaos agitados:  -  V  pela  da
squerda. -testos, lamentaes, nada adianta. A moa desce peno os
degraus para retomar o caminho. Que  leva  exata  mesmo  lugar,  o
lobby do edifcio. O porteiro cruza 's,  vitorioso.  Fez  valer  a
autoridade. Diz um ditado que dar um quepe a algum para que  essa
pessoa se sinta ge ica vou esquecer o dia  em  que  estacionei  em
frente  a &Iio residencial na alameda Lrena, nos Jardins.  O  por
itou, com voz de comando: , no pode estacionr a. Tire o  carro.
- -Por qti? A rtia  pblica  Mas  o  sndico  no  gosta.  ti  a
Declarao dos Direitos Humanos ferver dentro da  L  No  que  ela
entre em detalhes sobre sndicos. pomposo mexe com meus  brios  de
cidado. Ergui Pois  aqui que ele vai ficar. Se eu voltar e tiver
aconte uma coisa, tipo pneu murcho,  chamo  a  polcia.  resso,  o
veculo estava intato. Eu no. Passei o tem- o,  na visita  a  uma
amiga, preocupado com a possvel ta. / 66 67 O  maior  terror  dos
candidatos a vestibular   che  minuto  atrasado.  H  sempre  uma
inspetora fechando aj Se o estudante tentar entrar pela fresta,  
capaz de dec dedos  da mo, tal a deciso dessas  guardi  -  Voc
ainda nem fechou direito. - Atrasou, no entra! Intil  argumentar
que o minuto  vale  um  ano,  O  t  dessas  pessoas    exercer  a
autoridade. Como fazem as rec nkstas de empresa. -  A  identidade,
por favor. - Estou sem ela. Tenho o ttulo de  eleitor,  serve?  -
No, no tem foto. A minha foto da identidade tem uns vinte anos e
unij quilos a menos. Para que  serve,  a  no  ser  para  refletir
espinhos da passagem do tempo?  Falar'  de  certas  secretrias  
redundant. Existem ferozes do que os chefes Telefono e  entra  em
cena a inquisidora: - Qual  o assunto? - Diga apen que sou eu.  -
Ele sabe quem ? - O interesse  dele. Se  no  quiser  avisar,  o
problemai  Ouo  um  gemido  raivoso  do  outro  lado.  Quando  se
autoridade trincada, deixam aflorar os sentimentos mais  gens.  Os
seres  mais  terrveis  no  exerccio  dos'pequenos  e      esto,
provavelmente, na rea artstica. Testes para  tor  c  tro  so  a
prova. Um bando de jovens passa horas e horas rando numa  sala.  O
diretor e alguns asseclas chamam  em um. Mandam o candidato  falar
de si prprio, danar tar, contar piada. Olham de  cima,  como  se
estivessem 4 de um verme, enquanto a pessoa rebola e  desafina.  -
coicluem: - Daqui a alguns dias a gente telefona. -11 M  ca  mais
chamam, nem atendem se o candidato liga. - D estilo de quem recebe
pretendentes a- modelo nas especializadas. A  mocinha  de  cablos
bem cortados, ' cordas vocais glidas, avisa a  adolescente  esqu
e:ambiciona  as passarelas: Espera a que eu j falo com voc. -se
trs ou quatro horas antes que  a  anorxica  seja  la  novamente,
embora esteja no sof em frente. , voc ainda est a? Esqueci  de
dizer, nosso diretor ber mais ningum hoje.  Desculpe.  derramando
fel. i pelo poder  to grande que certas pessoas o  exer  que  se
entenda bem por qu. Foi-o caso de 'duas-se mtemente, numa rua  do
Ita O marido de uma arro, fechando a vaga do  de  t  A  dona  do
carro preso No conseguiu, comeou a brigar. A que esperava o 1 um
tempo. Comeou o bate-boca, que continuou hegada do motorista e  
liberao do carro. A tantas, a oc sabe com  quem  est  falando?
atamente, a segunda retrucou: E voc, sabe com quem est  falando?
aram-se, apavoradas uma com a  outra.  Correram  para  e  partiram
rapidrnente. i gosta  de  mandar  sempre  acaba  ncontrando  quem
mandar ainda mais. Trombam e soltam fascas.  a pro te  no  mundo
ainda existe uma certa justia S. tempos da  naftalina  Passei  a
vida toda dizendo que adoraria viver em um 1 l S  para  bancar  o
chique, naturalmente. Obser "  as  fotos  de  estaes  de  esqui,
embora morra de altura e seja  descoordenado  demais  para  descer
gelei embaralhar as pernas. Tudo bobagem. Passei os lti - - 68 69
mos tempos rugindo contra o frio Felizes, em So Paulc ram  apenas
as proprietrias de peles que, aps anos de puderam retir-las dos
bas. Outro dia pensei que umas  ra  estivesse  sendo  mordida  no
pescoo por um cachorro gro. Aproximei-me,. herico. Tratava-se de
uma raposa. i mificada,  de  to  velha.  Francamente,  nada  mais
tenebro5  que os dentinhos brancos e a boca arreganhada do  bic  O
frio provou que a cidade no est aj para verno.  A  comear  pela
obras arquitetnicas. Uma conh investiu fortunas  construindo  uma
casa de concreto pend no morro,  e assinada por  um  arquiteto  de
renome.  eu  q  voltado  para  a  paisagem,  possui  portas-balco
belfssimas, em frente  cama. Pelas frestas entra um vento frio  a
noite  O cho, lindssimo, de cimento branco,  assemelha-se  ho  T
campo nevado. Vestida com uma camisola de flanela, e uma toquinha
para proteger  as  orelhas,  a  elegante    con,  com  um  sorriso
conformado - Da a impresso de que estou morando num  freezer  vou
acabar  me  acostumando.  -  Tenho  uma  informao  desagradvel.
Ningum se tuma ao frio. Seno os esquims andariam pelados  -  ex
gentilmente. Ela disfara. Dorme  abraada  com  sua  cachorra  da
pastor alemo,   qual,  com  a  funo  de  aquecedor  biol  foi
promovida do canil para os lenis. Da minha  alergia,  nem  falo!
Noite dessas compareci desfile de moda. O odor  da  naftalina  dos
casacos de l,: sintticas e outros artefatos era evidente. Nem  o
perfuniie cs de algumas "modetes" evitou  meus  espirros.  Pior,
aper sorriso estarrecido dos modelos desfilando    biqunis  e  ni
Andavam pela passarela com a desenvoltura de  sorvetes.  preo  do
glamour. Tambm os  guarda-roupas  no  estavam  parados  para  os
ventinhos torturantes.  Foram anos e an '  Quantas  vezes  passei
inclume diante de de camisas d flanela! E mesmo agora, poucos ain
[ em frio duradouro, capaz de compensar o inves em casacos e botas
forradas.  Prefere-se dar um jeiti  usta  de  enbrmes  transtornos
psicolgicos, reconheo. decidi vestir uma  confortvel  cal  de
veludo. )tQOU na barriga. Respirei fundo, consegui. Soltei o ar, o
de cima incrustou-se no umbigo. Quase chorei. Uma ertada   sempre
a testemunha cruel da passagem dos nsolo-me por no ser o  nico.
A cidade vive um festi palets apertados no abdome, casacos largos
demais e , de traas  em geral. Um amigo careca botou bon. i Tive
medo de a  geada  queimar  o  res  dos  cabelos  -  Liquer  jantar
transforma-se num desastre. No trajeto a travessa  e  o  prato,  a
comida esfria completamente. So  irigados  a  devorar  estrogonofe
glido e macarro colante.  pizza  pode  resultar  em  fratura  de
queixo. me surpreendo com certas mulheres, capazes de sair de s de
fora, saia curta e sapatos de salto: Deviam ser estuda- 'a. Nasa e
utilizadas em alguma experincia de vida em e aliengena. s vezes
sinto tanto frio que sonho  entrar banheira cheia de conhaque  com
um canudinho na mo. sso a saudade das camisas de manga curta, dos
sapatos, ejinha gelada! Mal posso esperar pelo vero! Ele    vir,
eu rnda bem. A poderei reclamar do calor. 70 71 Mentiras  Felizes
SBADO. RESTAURANTE. Entro com uma amiga. Arni postos a pedir  uma
salada. Batemos os olhos na mesa d Cumbuas  de  feijoada.  No  
preciso dizer uma palavra.. das   raras  situa  em  que  se  pode
provai a existncia patia. Mal o garom se  aproxima,  uivamos  ao
mesmo t Feijoada! Chegam as duas cumbucas, mais a  guarnio.  Que
torresmos! Devoro os meus e os dela. Em compe11sao  ataca  minha
costelinha. Paio. carne-seca. Orelha de Couve com  bacon. Farinha.
Muito feijo Tudo a cerveja. Na ltima g tenho a impresso de  qui
desmaiar,  de  to  cheio.  Ainda  encontro  foras  para  a   pei
essencial: - O que tem de sobremesa? Doce de  abbora  com  queijo
para mim. Torta-de ch te para ela. Raspo o prato. Por pouco, no o
lambo. Eu poderamos sair rolando do  restaurante.  Pedimos  o  ca
Quando    o  garom  serve,  ela  exige:  -  Traga  o    adoante!
Surpreendo-me: Voc acha que vai emagrecer por  conta  do  cafezin
Ela pinga as gotinhas de hipocrisia e diz com a voz d uma  gulosa:
- Sempre  melhor. Levanta a xcara, certa de que continua fazendo
eg atoso como o cotidiano  povoado de enganos.  Men  is  mesmos.
Damos o truque ns outros. O mais im inte  que... funcional amiga
morre por liquidaes. Outro dia apareceu com T'ieia. Trs jeans e
um par cfe spatos um nmero abai Apertava mas, com  boa  vontade,
servia. ,roveitei. O preo  est baixssimo. Economizei. (its voc
tem o armarto cheio de jeans E no vai su Sapat0.  GaStQU    toa.
i-se. Quem gosta de gastar sempre acha que econo iras em relao 
idade sempre funcionam. Dia desses hora me -revelou: 1 passei  dos
50.- - - seguida, fixou -os olhos em mim, aguardando o re Abati os
dez anos de praxe e comentei, com ex ' - c no aparenta  a  idade
que tem Eu no daria mais ePta.  -  U,  satisfeitssima.  Ac  Todo
mundo acredita versa E a mesma coisa que encontrar alguem e no se
quem . O sujeito diz: - 4o est lembrando de  mim?  Eu  sou  o...
liatamente estico os lbios at as orelhas. oc? Mas  o  que  voc
fe2? Parece dez anos mais jovem! eu no o estava reconhecen4o. vez
de sentir-se insult ele infla  de  vaidade.  Outra  -  funciona  
dizer, surpreso: foi que voc fez para estar t diferente? Cortou o
_; ... Ficou bom? -. Versrios e festas tmbm so um prato cheio
para as . Encontro um conhecido e comento: 72 73 - Ah,  soube  que
voc fez aniversrio. - Por que voc no foi?  -  Bei    que  nem
fiquei sabendo da festa. Ah, eu no avisei ningum. Foi quem quis.
Mentira deslavada. Todo mundo liga convdando os go  I  que  ficou
com a mesa posta e a porta aberta malandragem. A pior de  todas  
quando sou empurrado i casa de algum.  Chego e descubro que  est
rolando a'j festa, para a  qual  no  fui  convidado.  Tento  sair
correnc anfitrio chega, de braos abertos: -  Que  bom  que  voc
veio! Bom por qu? Se achasse que era bom, teria me cha Agradeo e
trato de pegar uma bebida. O outro lado da  n    chegar  de  mos
abanando. - No deu tempo de comprar seu presente. Depoi \  Depois
coisa nenhuma Posso beber, comer e me dor  na  conscincia.  Finjo
acreditar que comprarei o pres  O  dono  da  casa  finge  que  vai
ganhar, e a noite segue. Mentiras so mentiras. Mas algumas tornam
a vida mais fortvel. Quem no adora uma pequena e  deli  falsi  1
Banheiros & Cia. MISTRIOS DA ARQUITETURA moderna   a  impor  ada
aos banheiros. H algumas dcaUas, um casaro ;,  no  mximo  trs
banheiros. Observo os anncios dos mtos modernos.  Propagandeiam o
nmero de sutes. mais, mais luxuosos e mais caros. O nmero de ba
"faz  a  glria  dos  corretores.  A  sala  pode  ser  pequena.  A
;Tminscula. O  quarto  de  empregada,  equivalente  a  um  eu  me
pergunto quando as empregadas vo apren ormir de p! Banheiros, h
em profuso. Um aparta- luxo mdio possui trs sutes, um lavabo e
um ba e empregada. Em contrapartida, tem  trs  dormitrios,  pia,
cozinha, quarto de empregada. Cinco banheiros para modos!   Casais
modernos e abastados fazem  questo  de  &nheiros  na  sute.  Uma
senhora me revelou: raio pela qual nunca me  separei    que  meu
marido b dele. que    matrimnio!  Lapetrechos  tambm  esto  se
tornando mais sofisticados. TS criam louas assinadas.  Sanitrios
com grife nunca Uma amiga comprou uma banheira com pezinhos, r 7s
antigos modelos vitorianos.  Linda.  Assm  que  insta  inaugurar.
Encheu. Botou essncias. Entrou. Tentou SC. Escorregou. A banheira
era funda, ela, baixinha. Agar bordas  para  no  morrer  afogada.
Quis erguer-se. Pa '  um  custo.  Quando  conseguiu,-a  perna  no
ialtrapas 74 75 tidas. banho. /  -  sava  a  borda.  Agrrou-se  
'parede.  Os  dedos  deslizaram  azulejos.,  Quase-dependurada  no
registro, conseguiu' p para fora. Resvalou pelo tapete. Salvo-se
por pouco.  C me contou a aventura, Qbservei: - Voc  teve  sorte.
Do jeito que anda gorda, pc entalado. Agora est pensando em  usar
a pea para criar u a impresso de que  bastava  usar  trs  vezes
para nun risar em operao plstica. Rejuvenescimento e espu :udo.
Mas o grande hit da tendncia vem do Japo.. ofur entrou na  nova
novela das 7. Prova de que a  ficando mais forte que nunca.  Quis
xperimentar. um leve banho antes e entra-se numa tina escaldante.
nha'conjugado  o verbo ferver. Agora sei como se sente que vai ser
canja.  Tentei  levantar  e  sair.  Avisaram:  'elaxe.  Aproveite!
Descanse e elimine as tenses. 1 Fervi mais um pouco. S a  cabea
de f5ra. Meu corpo Com a leiTib de histrias de  mission  turados
na frica. Tenho um pri  que    missionrio.  iente  tem  enviado
cartas falando  em  fazer  contato  com  canibal.  Talvez  devesse
convid-lo para um banho para testar sua vocao. O,  fato    que
saltei fora em exatos, ttos e meio. Reconheo que fiquei  aliviado
ao sair. rser humano relaxaria ao salvar-se  da  gua  escaldante.
)re fui do tipo antiquado, para quem um banho  um rvidas  parte,
reconheo que sabonete delicados, s,  flores  boiando  na  gua  e
toalhas felpudas tm seu No dia  to banalizado,  um  banho  calmo
mas )5O,  quase uma experincia exi Entrar no chuveiro ou afundar
na banheira  um a' vez mais  glamouroso.  S  no  Shopping  Ptio
Higienpo tem duas lojas em que' o forte so os ,produtos para tor
banho  um ato de luxria. Sabonetes com todo tipo  de  j  sa.  Uns
relaxam, outros melhoram a vida amorosa,  energizam.  'Como  se  o
simples ato de limpar no fos suficiente.  Sal grosso  aromatizado
para tirar o mau-o] perfumar. Existem at umas  bi  exticas.  Jog
banheira e elas efervescem, soltando ptalas de  flores  sabonetes
tambm trazem  flores incrustadas. Ganhei u medida. que usava, foi
surgindo uma margarida. Mais, algum comentou: - O 4ue voc tem na
orelha? Eram ptalas. Tambm havia  algumas  em  i  c  Quando  vi,
estava arrancando ptalas de todo o carpo. C nete me transformara'
em um sacha! Comentei  o  fato  amiga  que  me    presenteou.  Ela
irritou-se; -.  um sabonete  supernatural.  No  s'erve  parat  -
Poderia me explicar para  que  serve  um  sabone  -  Esse    para
levantar o astral. E, se no levantou  c  problema  no    com  o
sabonete.  com voc mesmo! Haja! Sabonetes tambm estO  ganhando
grifes! Os !: trializados seguem a onda. Qi dia peguei uma emk que
prometia vantagens adicionais. Vitaminas potentes 76 77 Turista de
Imobiliria, TENHO ALMA CIGANA. Adoro mudar de casa.  Reformai  se
fala. O som dos martelos quebrando azulejos  msie meus  ouvidos.
Amaria ser corretor de imveis. Assim, de trocar  o endereo  trs
vezes em quatro anos, resolvi minha nova casa.  Doidice?  Meu  lar
era um sonho. Rou, sabis  e  rolinhas  enfeitavain  as  rvores.
Tantos pssaros.: barulheira  at me irritava. Comia amoras do  p
Estava a minutos da Paulista, do centro e das  marginais.    miii
fazia ressalvas: - A casa tem escada. Quando estiver velho e com r
tismo, voc vai ter dificuldade para subir. - Me, ainda estou  na
casa dos 40. Ela calava-se e assumia uma  expresso  sbia.  A  ii
todas as mes quando acabam os argumentos, mas ainda tem  que  tm
razo. Um dia acordei a mil. Chamei meu amigo Jos An dono de uma
imobiliria, e mandei avaliar. No outro c frente estava  cheia,de
faixas, e eu com um  sorriso  atari    incrvel  como  tem  gente
disposta a ver uma casa! Veio uma pintora. Mal  entrou,  lanou-se
aos elogios - Meu lar, achei meu lar!  Aqui  ser  meu  estdio...
Parecia disposta a se mudar na semana seguinte. C(  imaginar  como
torraria o dinheiro da venda, Pois sim! N mais vi  a  tal  artista
Outra achava defeito em tudo. DesJ    total.  aquela  parede  est
rachada - apontou com ar de espe ' s o reboco.  -  ara  de  quem
duvidava. Eu me senti  culpado,  embora  a  verdade.  Quase  pedi:
esculpe-me por ter esta casa! sacio, telefonei para a imobiliria:
-No go fazer negcio  com  ela  Parece  loucura,  mas...  abe  da
ltima? A madame mora'em um apartamento e no tem onde cair morta.
Gosta de' fingir que  ,radora  para  passear  na  casa  alheia.  
conhecida de ou- bilirias! - contou a corretora Marilene. e que 
comum. Turista de imobiliria! E eu sorrin ado-me  de  bonzinho...
At ofereci caf! Ah, que raiva! parei  um  tour,  comeando  pela
sala, quarto O  proble  o  quintal.    Meu  cachorro    um  husky
siberiano. Impos -lo. Escal muros e grades como-gato. Morder  no
mas  grando.  Estrategkamente,  deixava  para  o  fim.  -  Bilu,
bilu... Olhe que gracinha! Pode vir, ele no  morde.  -No  sei...
Tem uns dentes - reagia o interessado;   isso, olhe que  rvore
lind!  Viu?  Um  passarinho!  voou!  andidato  encarava  o   co,
apavorado. Devoter perdido  endas  por  causa  do  salafrrio!  Um
quarento apaixonou- casa. Trouxe a mulher, os filhos, a me.  Fez
uma oferta  . anos, com  uma  quitinete  inclusa.  Quando  neguei,
teu-Se. P estar fazendo um favor. Sua casa tem tijolo de ouro? HSe
no pode, no compre. k, podia. Muitos compradores adoram imaginar
que o or est  mngua. Almejam raspar o  tacho.  se  arranquei  a
faixa. Dali a dois dias apareceu um casal. asa rapidamente.  Achei
que no se tinha impressionado. 78 79 Meia hora  depois,  fez  uma
oferta. Logo fechamos. Co famlia. Tcin um filho pequeno  que  vai
adorair o jardin tro que pode ensaiar a banda na garagem.  Ela  j
est  plai do sua festa de aniversrio. Fiquei feliz,  porque  sei
que i felizes. Agora vou mudar. Encontrei um  apartamento.  J  dei
quebrar os azulejos... Ah, o doce som  dos azulejos do!  Tudo  vai
comear novamente! Em Busc de. Status TMR NA SALA  DE  um  amigo,
observo uma  luminaria  um  chifre.  Ele  a  exibe,  orgulhoso.  -
Phillipe Starck. S existem  trs  no  BrasiL  xo  um  sorriso  de
admirao. Como dizer que parece jo de uma  fantasia  da  Vai-Vai?
Entusiasmado, ele acon f' loja havia uma cadeira de couro de  vaca
incrvel, 't. Voc precisa cohiprar. Mas no preciso de  mais  uma
cadeira. ma oportunidade nica, e voc vai jogar  fora?  '  Devia
jogar a cadeira na cabea dele.  impressio orno  as  pessoas  do
valor a grifes. H bastante tempo vi  ieira    Louis  Vuitton  com
desenho quadriculado. Linda.. rificar. Meus documentos no cabiam.
O vendedor ex- que os documentos europeus so  de  tamanho  menor.
sos  ficam  sobrando;  adeci.  Um  amigo  que  m  acmpanhava  se
escandalizu. -No vai levar? Onde vou botar minha identidade? - >
Mas quando voc abrir a carteira todo mundo vai  n  'ehique.  Ldo
tipo que s compra quando gosta. Espanto-me to vejo as pessoas  se
digladiando para serelegantes. Visito  Jsal.  Ele  me  oferece  um
drinque.. 80 81 - sque 12 anos, de uma  reserva  especial.  Voc
experimentou igual. - Obrigado, s  quero  gua.  -  Voc  tem  de
experimentar!  o mximo! Enche meu copo. Observo a samambaia mais
pn Quantas vezes ter sido regada pelo usque? A busca por faz com
que modas sejam inventadas. Sempre odiei  tir  H  algum    tempo,
ningum podia dizer que no gostava. - Prefiro creme de  papaia  -
arrisquei, ceita vez,  t Olharam-me como se fosse um ET. Descobri
qu o fora a moda de um ano atrs. Querem botar grife at den  meu
estmago! Agora que o tiramisu se tornou mais  po    at    fino
desdenhar. Escritores tambm podem entrar em i -  Voc  j  leu  o
ltimo da saga de Ramss? - No gostei do primeiro, parei.  -  Ah,
mas todo mundo est lendo. Eu tambm ach pouco exagerado... mas s
falam nisso! E filmes que nSo se pode deixar de ver? J perdi a  d
.Cada vez que desembarca uma nova Bruxa de Bkzir,  h  comoo.  -
Como, voc no viu? - Assisto mais tarde, no vdeo.  -  Mas  a  
diferente. Todo mundo jvai ter visto. Ser que,  por  todo  mundo
desfrutar, o filme perde resse, a comida o sabor?  E  a  mania  de
conhecer vinhos? Se dos homens de negcios se dedicasse a  estudar
os gregos  mesmo afinco com que decora  rtulos  teramos  um  fih
Guerra semelhante  acontece  entre  conhecedor  charuto.  Discutem
aromas. Nuances. A maioria seria izi de distinguir  um cubano.  de
um cigarro de palha do stio. peito  os  apreciadores  das  coisas
boas da vida. Mas  terrvc algum comendo, bebendo e  fumando  s
para parecer no ,  nem precisa ser. maneira mais cruel,  algumas
personalidades se tornam ias da noite para o dia.  So  convidadas
para tod*s as fes iai que entraram para  o  grand  monde  Bobagem.
Passa (tempo e seu telefone pra de tocar. So descartadas como  a
vero passado. yentaram at uma expresso para  dizer  que  alguma
coi ique e imprescindvel.  Estava  em  uma  badalada  loja  de  s
masculinas. A gerente conversava com im rapaz. Co  -Seu  sapato  
tudo. elogiado sorriu como se tivesse ganho a Mega-Sena. Eu sei. 
mesmo. Tudo. istema solar no  tudo, a via  lctea  no    tudo.
Como .pode ser? tndo assim, parece  que  estou  me  referindo  aos
ricos, ou enos  classe mdia abastada. Coisa nenhuma.  soube  que
rande grife, que patrocina desfiles  chiqurrimos,    vive  da  de
camisetas e jeans: Seu pblico:  office-boys  e  congne  astam  o
pouco que ganham para ter roupa com etiqueta.  mais jovens,  mais
estritos:  preciso usar  os tnis que  usam,  botar  o  jeans,  a
cala. Caso contrrio,  sero  desde  como  o  patinho  feio.  ico
pensando:  nessa  nsia  por  ser  especiais,  as  pessoas  tor  
idnticas. Ser "tudo" acaba sendo um bom caminho para ar em  nada.
82 83 y A Etiqueta Carioca MUITOS SO OS ERROS que  um  paulistano
comete no Janeiro. Cariocas vivem de uma maneira peculiar.  Nenhui
lista jamais passar por carioca, i que exagere nos c  no    torso
sem camiseta, nos culos escuros, e bote u  dentro  da  boca  para
arrastar os "errei'. Parecer um r metido a carioca, no mximo.  A
primeira dka (dica  uma palavra muito  paulista,  p  Um  carica
preferiria "sacada", eu acho)  na rea das r sociais Cariocas so
falantes e simpaticos Voc conhe-ft  tas,  gaws,'  hipoptamos  e
baleias comprimidas em biqu tamanho de um  leno  de  nariz.  Ao
final da onversa, vem a frase: - Quando e que voc  vem  em  casa
No cmeta a bobagem de sair atrs de uma caneta, zinho para anotar
o endereo, ou qualquer atitude igu .  constrangedora.  O  carioca
no pretende dizer onde m apenas  uma forma  cordial  de  comentar
que, apesar d pai voc  um ser humano. O  horrio  de  uma  festa
sempre  falso. Chegue n duas horas depois. Vista-se e veja um bom
programa de 1 so. Ao final, tome mais um banho e troque de  ropa
vez.    Ser  o  primeiro  a  chegar.  A  cidade    movida  a  ar
condicionado. O seu corpo p se habitua,r a deixar um escritrio  a
10 graus e enfr calor de 40 em exatos trs segundos. . lastimvel
que Fia 5 os cariocas. Seria timo para destrinchar as de  ida  em
planetas selvagens. Ah! Leve tapa-ouvi  boa  parte  dos  hotis  e
apartamentos, o velho e traba - resfolega a cada  golfada  de  ar.
Parece que o LtO est aquecendo as turbinas para deolar. No txi,
ulos. N ver o taxmetro, mas que fazer?  Ao  sair  do  Fsquinho
para o asfalto flamejante, seus culos vo r Paulistanos podem ser
atropelados simplesm&nte por culos nublaram. '    a  questo  do
traje. Um amigo meu encontrou fa 5ritora da paulicia correndo no
calado de Ipanema e cdllant preto. Parecia um finja. A desditosa
imagi o traje a emagreceria. Isso no  vale  para  um  lugar  onde
mnimo de roupa. Um paulista se veste para ir    praia.  )rrendas
meias com tnis, bermuda, camiseta. O carioca Tira a  camisa,  as
calas, usa n mximo uma ha pegam nibus de biquni com o dinheiro
dobradinho . (E naturalmente molham quem est do lado, ao 'FTalvez
voc fique sem jeito, ao expor o tom de pele bran rdeado, fruto da
exposio a luzes fluorescentes. No h  iva. Praia com ?riei   o
supra-sumo da cafonice. Tam ode ser  da  inocncia.  Tente  sorrir
para a barracado lado: D pra voc tomar conta  enqunto  dou  uma
nadadinha? o que voc encontra  na  volta  sero  expresses  ais,
enquanto voc grita atrs do seu tnis de  palmilha  1  para    p
chato. .ateno! Muitas praias no Rio so especializadas. Existe e
surfistas na Barra; a dos 'praticantes de asa-deita, em onrado;  a
de quem quer ver e ser visto, em  frente  ao  y.  E  as  gays,  em
Ipanema e Copacabana. H um acordo peIo qual ningum interfere  na
6hda dos outros. Esco- taia que preferir. Mas depois no  reclame,
se for convi  ,t-brincar de casinha. 84 85 Seguindo  essas  fceis
regras de etiqueta, voc podeu, frutar uma das mais belas  cidades
do mundo. Ser um  "maneiro".  Ah,  eu  no  diss  ainda?  Esquea
palavras bonito,  formoso, excelso. Tudo que   bom  no  Rio  "r*
ro". Se algum lhe fizer esse elogio..: puxa, aos olhos do c  voc
no  um paulistao to detestvel assim!  tros  de  Honestidade
DIA EU ESTAVA pensando  m  como  seria  o  mundo  se  oas  fossem
realmente honestas. Inclusive no mais pro otidiano. Eu me imagino
entrando em uma dessas chur as luxo.  Sento-me  mesa  e  peo  um
fil bem passado i. Ele me alerta: e-No aconselho.  O  fil  hoje
est uma sola de sapato. Peo o qu? - Pea hcena e va para outro
lugar Olhe bem o carda Jo preo de um bife o senhor compra i de  1
quilo o Quer jogar  seu  dinheiro  fora?  para  Outro  e  escolho:
salmo. O garom: Se o senhor qi eu trago. Mas salmo, salmo, no
irubim, alimentado de forma a ficar com a carne  rosada.  uer?  '-
Nesse caso fico com scargs Lesmas, quer dizer? Por que  no  vai
catar no jar,dim? )u ento eptro numa b de grife.  Experimento  um
jue est apertaclinho na barriga. O  vendedor  aproxima-se:  Ficou
bom? Ah, no ficou, no, est apertado e no te  maior.  Acho  que
d... ando pensando em fazer regime. Pois compre depois  de  obter
algum  resultado.  Se  sei,  no...  essa  barriga  parece   coisa
consolidada. Eu quero o jeans. Quero e pronto! 86  87  -  No  vou
deixar ue cometa essa loucura. Alis, francamente, o que o  senhor
viu nesse jeans, que nem  nas suas adiposidades? S5  pode  ser  a
etiqueta. Meu arnij da   acredita  em  grife?  Corro    -casa  de
chocolates e peo um diettico. A xi no  balco:  -  Confia  nessa
histria de diettico? Ou s quer  ua  conscincia?  -  E  se  'eu
quiser confiar, estou prdibido? - Pois saiba  que  engorda.  Mnos
que o chocolate mas engorda. E o senhor no me parece em -condio
t concesses a doces. No vou contribuir para o s ai.  no,  jamais
poria chocolate nas suas mos. V  fei um jil. - - - -  .  ,.  -
Resowo troar de carro. Passeio  pela  concessionaria,    -  Este
vermelho, que tal? - O motor funde mais dia, menos dia - alerta  o
vi - Parece to bonitinho...  - Desculpe, mas  voc  acha  que  a
lataria anda 5OZ alertei o dono da loja, este carro est  pssimo.
Fique comi Mas  velho e  horroroso!  -  Pode  sr,  mas  anda.  E
decidido, leve aquele. discuta!    'O  embate  com  a  hontstidMe
absoluta tambm pc numa galeria de arte. - - - Gostei  daquele,  -
aponto o quadro  marchand - Est precisando de pano  de  cho?  -
No...,  que... beni, posso no entender de art? achei bonito.  -
Sinceramente, o senhor no entende mesmo. Isi  u horror. No vale
-a tinta que gastou. Est exposto f - o donp da galeria  insistiu.
Leve  valorizao na uele?  muito sombrio..,  eu  queria  alguma
coisa ale jo insista.  Sombrio  ou  no,  vou  embrulhar.  Faa  o
imelhor pra voc. - - - a-loja de mveis? Mostro as  cadeiras  que
me ir *coradpr: - ' algum ortopedista?  precisando  de  um?  Psso
indicar... oc  quem vai pecisar. Essas cadeiras vo-  desmontar
- ir vez em que algum se sntar. Fratura na certa. aras assim  e
desmontam? Eis devia- chamar o Procon. e quiser, eu chamo  para  o
senhor! r seria alguma vaidosa querendo fazer  plstica.  O  cirur
'mina: - - [ hum... - nariz vai ficar- bom,  dd  e  a  senhora  se
contenta em, trocar uma- picareta por  -  Luso,  fica!  Agora,  se
ambiciona uma melhora significa nelhor  morrer  e  reencarnar  de
novo. Pode ser que tenha ciente sai chorando.  Eia,  que  vivo  me
irritando com res, chego a uma concluso quoro comprar  o  jearils
que te  a  b4rriga,  o  chocolate  que  no  emagrece  e"o  quadro
Deliciar-me  com  as  pequenas  fantasias.  Feitas  as  con  s  de
honestidade podem transformar-se em pesade Js. Os pequenos enganos
abrem as comprtas dos pe -snnhos e  adoam o dia-a-dia. ae. -  88
89 no cheque. tratado O Drama da Gorjeta NUNCA SEI QUANTO  dar  de
gorjeta Nem se devo dar  zes,  sinto-me  constrangido  porque  dei
pouco. Na mai ocasies me revolto Com manobristas de  restaurante,
por 1 pio.  At algum tempo atrs, ningum cobrava pelo Quando  eu
entrava no carro ou saa, o manobrista ficav rando a porta. S no
colocasse uma cdula na sua mai obrigado  a  partir  com  a  porta
aberta, arrastand o sujeil asfalto. Soltar o carro  sem  gorjeta,
ele  no  soltava!    A  restaurantes  resolveram   cobrar    pelo
estacionamento.  O  manobrista  continua  de  p,  com  a    porta
escancarada, dando. Vou pagar duas vezes? Podem me chamar  de  mas
nunca!  Entro e parto com altivez, enquanto ele ii dardos  com  os
olhos! Nunca me recusei a pagar o  servio  em  restaurant  desses
estava com dois amigos no 'Esplanada Grill. Veio ta, calculamos  a
parte de cada um. O garom insinuou - Os senhores  bem  que  podem
caprichar mais um los com uma sensao ruim! Tambm vi, no super 
Santa Luzia, uma senhora dando gorjeta ao aouguei comprar um  bom
corte de carne. Quer dizer que eu, ' of vou  levar    o  pior?,  a
hotel,, sempre  uma saia-justa. O  sujeito  carrega  as  potra  o
quarto, liga a televiso, explica  o  funcionamento  ndicionado  e
sorri, como se estivesse diante do  Tom ..  os  bolsos.  Raramente
encontro alguma coisa. 1, o dinheiro mido ficou com  o  motorista
de txi, que tem troco! Abro a boca e  digo:  1h...  sinto  muito,
mas... ' se eu tivesse me  transformado  em  uma  aranha-  ira.  O
mocinho se afasta e sor arreganhando os :omo um serial killer 'No
tem importncia! cus! Nada  mais terrvel que a raiva contida de
quem ha gorjeta e acha que mrece. O mesmo  vale  para  quem  leta
pequena. Havia uma padaria nos Jardins sem  nava  caf  da  manh.
Certa vez um senhor comeu seu i manteiga e deu o troco ao rapaz do
balco: -Jsso  para voc tomar um caf. r'- foi rpida: 0  senhor
desculpe, mas para um caf est faltando. gonhadssimo, o  homem,
completou o valor. Eu, por rran  as  moedas  da  mo  do  ingrato!
anelinhas, nem se fala. So capazes de ataques  de  f  4ou  pouco
dinheiro. O jeito   pedir desculpas: O1ha, sinto  muito,  no  vi
que estava sem dinheiro quan de casa,  mas  outro  dia  dou  mais,
prometo... falta assinar  uma  promissria!  dita  a  verdade.  H
lugares onde as pessoas  so  treina  agradecer.  No  mesmo  Santa
Luzia, no Santa Maria, permercados Po de Acar  que  contam  com
esse servi- Pago os 10% do servio e ainda  devo  dar  por  fora?1
tinha sido atendido com tanta presteza assim! Meu ami cardo  ficou
em dvida: - Venho sempre aqui. E se quando voltar no fo  -  Voc
chama  o  gerente  e  reclama!  -  aconselhei.  90  r  91  o,  os
empacotadores so capazes de receber um expresso de, qum  ganhou
um bilhete de loteria, O Ai no cobra servio na  conta  e  lembra
que' a pessoa se ben dando  ou no gorjeta. Basta oferecer um mais
para ouvir um sonoro muito obrigado ! Mas sao Digo a verdade: isso
no  coTsa s de So Paulo, n  vezes,  em  restaurantes  de  Nova
Yrk,  tive  de  correr.  garonetes  para  conseguir  o    troco.
Simplesmente se f desentendidas    para  ver  se  eu,  um  turista
selvagem, passa constrangimento de exigir o meu!   irritante.,  A
maioria das pessoas que conheo rec salrio e  olha  l!  Fazer  o
servio com qualidade  obriga -  conheo  nenhum  professor  que
ganha gorjeta dos alu  aula  bem dada! Decidi: posso  levar  fama
de po gorjeta,  comigo  so  quando  eu  achar  que  merecem!  Ms
Intenes O, sAI ANO,  sempre a mesma coisa Comeo a deli as boas
intenes para 1996. No adianta refletir que e uma data simblica
e que a vida no vira de cabea para   uma  noite  para  outra.  A
passagem do ano mexe com  a  meus  amigos  em  torno  repletos  de
resolues. Lem no  passado  e  tento  me  acalmar.  Um  deles  me
garantiu, do 31, que at o final do an (este que  termina)  faria
limeira milho de dlares vendendo aes.  Quando  o  ouvi,  onios
neurnios verdes de inveja e pensei: "Por  que  ninca  ia  vender
aes para tambm ganhar  mu  milhozinho?".    "ii  amigo  est,
realmente, prximo dessa quantia. Em Legativo no banco. No passou
pafa a frente uma ao e economiza at  nas  bitucas  de  cigarro.
Outra amiga, atriz  te, falava comigo animada,  em  fevereiro:  Li
meu mapa astral. Este ser o meu ano. Vou ter gran reo na  tev.
Tenho a intuio de que vou virar estrela ela. apareceu na  -tev.
Como vtima de um assalto, ndo histrica e dando  declaraes  aos
gritos. Ganhou, le, seus cinco segundos de  fama.  Tem  crises  de
nervos  que ouve  falar emmapa astral. H pessoas  mais  mo  -  O
sonho de uma amiga  to simples quanto irrealiz iagrecer.  j  a
encontrei, neste final de ano, com um copo a na mo   e  um  prato
repleto de lombo de. com de ameixa. Espantei-me: 92 93 - Na semana
passada voc estava de regime estri -  s desta vez. O  ano  est
acabando mesmo. Fic prximo. Aguarde! Aguardo, sim! Aguardo o  dia
em que, em vez de ar vai  sair  rolando.  (Regimes  quebrados  nas
festas so umi lo  parte. As pessoas nunca se enganam tanto  como
ca.) O aspect mais trgico dessas  resolues    a  desp  pessoa
resolve deixar de fumar a  partir  de  janeiro  em  em  dez  maos
cotidianos at o rveiion, para dar o ade  nitivo. Fica  beira de
um ataque e volta a fumar no dia promet nunca mais usar  o  cheque
especial, a partir c -Novo. Corre aos  shoppings  e  torra  o  que
pode, com u tstico sentimento de  autoconfiana.  Afinal,  aquela
fase est terminando e nunca mais ela gastar tanto. Quase.    por
calote. E, logo depois do  rveiion,  lembra-se  de  que  cera  de
comprar s mais uma  coisinha.  Cert  ano  despenquei  numa  loja
prestes a fechar, 1 com o gerente e consegui levar um  desprtador
c porque  estava  decidido  a  acrdar  s  6  da  manh  para  co
Ibirapuera.  Era importante iniciar o ano com o p  direi  melhor,
com o relgio certo, comeando a correr e manh do dia l J me  vi
atltico e bronzeado, veloz cofl puro-sangue,  vencendo a  prxima
So Silvestre. Sa do  de  madrugada,  preocupado,  com  a  camisa
branca marc vinho. Senti que no estava na melhor  forma  para  cu
resoluo. Recorri  a um estratagema. Adiantei  o  relgi  horas:
"Quando ele tocar, pensarei que so 10. Na  verdad  6.  Levanto  e
saio correndo sem tomar caf, para no at Despertei com o  barulho
horrendo. Vi qu& eram lembrei  que  talvez  fossem  6.  Fiquei  em
dvida. Desliguei] gio com um argumento: "Se j so 10,  significa
que no c a promessa. Sou um crpula comigo mesmo.  Assim    nunc.
atietico Suspirei, virei para o lado e ronquei docemente  1    in
resolues de Ano-Novo so mais frus Jo que panetone  sem  passas.
Desta vez, tirei a mscara. o virar o ano  garantindo  que  serei
to afvel quanto dk. Confesso:   meu  corao  pulsa  repleto  de
deliciosas - es para 1996. E que as boas intenes de Ano-Novo  m
para provar uma coisa: que ningum  de ferro. Fe : Se todo  mundo
cumprisse as promessas torturantes oca,  o planeta seria to chato
quanto um rveilion com 4iettico. - 94 95 Por gua Abaixo...  H.
ALGUNS MESES eu corria na esteira quando coisa  surpreendente.  Um
amigo observou o marcador mo cardaco e comentou. - - O seu  ritmo
est diminuindo, em vez de aumenta ser o contrrio!  Respondi,  j
me sentindo um  superesportista:  Sou  um  aliengena.  -  .S  se
guardar a nave na barriga! Cautelosamente, abaixei os  olhos  para
minha cint a. Pela milsima vez, fiz o voto:  -.  Vou  emagrecer!
Bem, o fim de ano se aproximava. Transformei  na minha  principal
promessa, alm das usuais: ser  apaixonar  e  escrever  um  grande
livro. Entretanto, h  mi  contradio    entre  as  promessas  de
Ano-Novo e o adv4, prprio. Falando claramente: quem faz regime na
ceia tal, por exemplo? Fui para a casa de meu  jrm  em  Campinas.
Quai encontramos, notei que o prprio estava com uns qur mais d da
ltima vez. Mau sinal. Eu'estava decic comportar frugalmente.  Foi
s deixar a valise no . hspedes para minha cunhada  anunciar.  -
Afogazw est pronta! Deliciosa fogazza, feita em casa.  Meu  irmo
acendia a lenha. Abandonamos seu filho embaixo  da  rvore  de  os
para  a  mesa.  Eram  sete  horas.  S  salmos    meia-noite,  te
devorarmos afogazza, um vidro de conserva de pirnen atro pratos de
gaspacho cada um (para quem  no  conhe    sopa  fria  de  tomate,
espanhola), trs de risoto de escarola itenta fatias de pernil de
cordeiro ssado, completados  atos  de  frutas  secas,  uma  torta
de.ma, um  bolo de pistache 1de damasco. O pobre  garoto  tentou
interromper vezes para mostrar os presentes e  falar  sobre  Papai
Noel. ca1vamos enfiando pedaos de po em sua  boca. hei  no  dia
seguinte, com o corao sereno. Fi uma exceo... porque a partir
do Ano-Novp tudo  estrada,  parei  para  comprar  trs  quilos  de
lirigia, trs dois queijos. Evitei o doce de leite, que  engorda
muito. o fato  que no podia deixar as  compras  estragarem.  ,os
dias seguintes chafurdando em lingia frita, fai  hinhos  rpidos
de salame etc. Quando a noite de ano mou,  prometi: . Agora comeo
o regime! '  .  "  :  existe  um  menu  das  boas-entradas.  Itens
essenciais no .io, sem o qual o ano pode tornar im desastre. Lenti
r exemplo. Fica deliciosa quando preparada com peda ame de  porco.
Doces so essenciais, para que o ano  seja    Uvas.  Champanhe,  e
quanto mais taas,  melhor!'  Ou  Uestava  quebrando  promessa  na
prpria virada do ano. ;urou um msero segundo! &um fator  psicol
importante nos dias que se seguem Novo. Muitas das  compras  esto
l,  intatas:Panetones.  Doces.  Bebidas.  Tambm  h  qu5m    nos
presenteie com - anetones, bolos, doces... bebidas! Comear   ano
des ido, nem pensar! as ltimas das semanas a aprovitar!  Sempre
_ a comear o regime  no  dia  seguinte.  Porque,  afinal,  96  97
Imprio do Silicone proinessa de Ano-Novo  sagrada! Alm  dQmais,
minh de tambm conta. Havia prometido a mim m to para ir  a  praia
Realmente, jia algo de irreconciliav fazer bonito no  vero  e  se
divertir nas festas! Suspiro. O carnaval  est  a.  Carnaval  sem
cervejaj Cerveja  sem  batata  frita,  no  da  Batata  frita  sem
linguia no prato para acompanhar... E para  que  comear  a  para
quebrar daqui a pouco?  Adiei  minha  promessa  de  Ano-Novo  para
depois dc vai. Dizem que o pas s funciona depois da pa colas  de
samba. Farei o mesmo com todas as minhas sas.  Incluindo  o    tal
grande livro, que nem comeei a Depois de tal  orgia  gastronmica
so aguento dar i Enquanto isso, minha barriga... Se antes abrigava
mi alienigena, agora  e  capaz  de  guardar  um  aeroporto  int  )
ESPANTADO  COM  o  numero  de  pessoas  que  vem  fazen  tica    e
lipoaspirao.  Conheo  uma  senhora  que  deve  ter  oneira  das
opera6es. PelQs meus clculos, tem uns se- anos   A  aparencia  e
absolutarhente indefinivel -Quando sua famlia veio do,  Japo?  -
perguntei  gentil-  dia  desses  -  iiento   consttangedor.    Su
quatrocentpna - respondeu.. No h um orien minha  famlia!  -  as
olhos so to pxadTos que eu juraria... Faz parte da  em  que  se
esticava tudo. Os olhos chegavam s orelhas. -certa vez, ficou sem
fechar os olhos seis  meses.  De  la,  no  conseguia  DQrmia  com
mscara. Atualmehte tica avanou E mais sutil Mas no passado, tudo
isso era scretamente. Senhoras de mais--idade se recusam a  con  s
plsticas. Nunca precisei garante minha conhecida, embora has,  de
to puxadas, j estejam se encontrando atrs  )ea.  -  98  grande
fenmen dos ltimos  tempos  no  est-  na  medi  na  sociedade.
Tornou-se chique falar em botar silicone,  Ipo.  As  mais  famosas
anunciam aos. quatro-venos:  Vou  fazer  o  peito,  o  brao,  os
joelhos, as oxas... LOU-se maravilhoso ser  transformado  em  uma
experin erneti Meu vizinho ja entrou na lipo umas seis vezes  -99
Arranca as adiposidades. Mal convalesce, vai na chu Enche o  bucho
com quindins. Dali a pouco a cala t de novo. - Est  na  hora  de
fazer uma recauchutagem - Aconselho: Lipo no  para emagrecer. S
deve ser feita c 4- regime! Ele concorda, sorrindo. E  se  interna
no dia seguii Claro que no resisti. Fui fazer uma consuI Tire  sa
e mostrei a barriga, Parecia um barril. Mas a pl  milagres?  Queto
ficar mais ou menos como o Reynaido  G.  expliquei.  O  mdico  me
observou.  Por  um   instante,    pensei    r    prescrever    uma
camisa-de-fora. Apalpou-me. - Bem que eu gostaria  de  tirar  sua
barriga - e - Nesse caso saberia 9 que fazer com a mip.ha,  que  
ber Abriu a camisa. O umbigo derramou-se para foj 'r  um  crdito.
Qualquer hora  boto  os  seios  de  novo!  amigo  trouxe  a  solu
definitiva para minha barriga. tese. Inventaram  placas  para  ser
colocadas no peito e no  A do trax simula msculos de  atleta.  A
outra faz a gente n barriga detanquinho, como  qualquer  surfista.
-Mas escute... e minhas medidas?. 'A tal  barriga  de  o  vai  ser
proje.tada para a frente. Vai ficar parecendo quina de lavar. cio.
Ningum havia pensado nisso. isti. Ser que daqui  a  alguns  anos
vamos esquecer omo ;narizes, as orelhas, o jeito do rosto,  antes
de todo  mundo  tingir  determindo  padro  de  beleza?  Orelhas
grandes n charme? Nariz torto? Tudo bem, querer ficar mais  -  Mas
ainda no consig  entender  por  que  as  pessas  fazendo  tanta
plstica. O que era  segredo,  tornou-se  de  ostentao.  horror!
Explicou que temos o mesmo tipo de abdome, corr ra espalhada. Lipo
no adiantava. S uma operao. 1 ficaria esticadissima  Eu  teria
de-ficar dobrado em dois alguns  meses, ate a barriga recuperar  a
flexibilidade Tem garantia contra torresmos? - perguntei. Olhou-me
dolorosamente: No, no havia. mas picanhas bem gordurosas para eu
voltar a ser o qu Fui visitar uma amiga, conhecida pelos  decotes.
murcha. - Tirei o silicone - revelou. - 'Por qu?  mais ou  menos
como mudar de corte de hora a gente pe, outra hora tira. A semana
que vem, rsto. 100 101 Cada Um por Si QUANDO APRENDI  A  DIRIGIR,
ouvi o conselho. - Fique na pista da direita, at ter segurana no
v Bem que tentei. Preferia dirigir devagar, sem  trnsito.  Mas  a
pista da direita era, e continua se tortura. J perdi a  conta  do
nmero de vezes que fie do atrs de um ou van. Passageiros sobem e
eu espero. s vezes, mi5teriosam  o  nibus  liga  o  alerta  Fica
imovel Botoa seta a  esquerda,  pedindo  p  Algum  deixa  entrar?
Respondo:  jamais!  Aceleram!  Se:  brao  para  fora   implorando
cmpaixo, corro o  riscQ  me  levem  o  cotovelo!  E  carros  que
subitamente esta< na pista da direita para  algum  descer?  Outro
dia, ei avenida  gua Espraiada, tive  de  ficar  esperando  un  d
nutos! A mulher ainda bateu um ppinho e depois des cou. Ao  sair,
me encarou! Simplesmente, eu me se Tem mais: motos costumam cortar
pela direita.  : tomar mais cuidado com quem est    direita  do
que  . da. Motoqueiros e  motoristas  agem  como  se  fosse  uma.
ultrapassagem rpida. Cortam subitamente minha fr quando  tento ir
calmamente  pela  direita,  sempre  costa  e  me  fora  a  ganhar
velocidade. Sem  falar  nos  c  de  sucata,  lentssimos,  ou  nas
bicicletas que surgem i damente na  contramo. Tudo  direita! No
entendo!.. devagar na pista de baixa velocidade, passa por mais  .
contratempos do que os  apressadinhos!  jestres  jamais  respeitam
mos le direo. Gostam de o espao todo. Outro dia,  no  sboppin
eu tinha pressa a um encontro. Trs pessoas andavam calmamente  ba
frent,  sem  deixar  passagem  em  nenhum  dos  lados.    tentaVa
ultrapassar, mexiam-se como ondas, cortando  -  'i  Um  amigo  foi
piissear na praa Buenos Aires. .j iam    frente,  bem  'devagar,
conversando. Ten esgueirar pelo muro, S dando cotoveladas. Acabou
des 'para a rua e  andou  no  mio  dos  carros  para  ultrapassar
lestres.  Tudo bem, elas tm o direito de  passar.  Mas    ar  a
calada inteira? ):metr    terrvel.  Muitas  vezes,  quem  est
entrando no deixar os outros sair. O correto  esperar todo mundo
barcar. Nas estaes ruiais tumukuadas,  uma  guerra.    Um  o  e
atira sobre o outro Engalfinham-se E um sufoco Ja  nteceu  de  no
conseguir descer na estao! elevador, nem se  fala.  Entro.  Dois
passageiros vm logo. i bem na porta. S6 que  vo  para  o  ltimo
andar. chqga minha vez de descer, tenho de gritar: Um  momento.  '
entre braos e pernas, at ser para fora. rtesia, quem vai para os
andares mais altos deveria ir para lo. Mas, no. Como se  ficando,
na frente chegassem mais em falar em avio! Na ponte area para  o
Rio de Janeiro, i sempre, os lugares so  marcados:  Que  adianta?
Basta o e embarque para os  passageiros  correrem  cbmo  uma    ma
.Selvagem. J vi gente com criana esperando para evitar -  os.  O
desembarque   ainda  pior.  Ultimamente,  fao  ques  eviajar  na
janela. No s por conta da paisagem. Mas para paspalho.  102  103
no ser obrigado a me levantar e ficar parado no cot. avio! Basta
a aernave parar. TQdo mundo se ergue,,. malas e fka se espremendo
 espera de que as porta abertas! No seria mais fcil dar espao,
cumprir as leis do Enfim, viver em sociedade?  Por  mim,  continuo
nal direita. Posso ficar atrs de nibus. Mas sofro menos Medo  da
Velhice \ &COS DIAS EU ESTAVA no  aeroporto,  prestes  a  pegar  a
area. Carregava a makta um tanto pesada, com livros, remdio para
o colesterol e tudo aquilo que d medo achar e perder. Andei at b
avio. Meu ombro doa. De me veio a sensao. que farei quando for
idoso e no der conta de levar )?  desconfortvel.    medida  que
fico maduro, tomo cons  de que a cidade  feita para quem est no
auge da sai.'t n fora total. No gosto de chover  no  molhado,  e
cair  udosismo romntico, dizendo que antes era ben melhor. -  uns
trinta anos eu quebrei o brao. direito e andei d um  bom  tempo.
Nunca havia imaginado que as pessoas  sem  ser  to  simpticas  e
solidrias. Sempre havia algum  a a subir no nibus  ou  carregar
meus livros esco Ofereciam-me o lugar para s  Uma  colega  copiava
;aes da universidade no meu caderno.  Agora  parece  que  )O  de
solidariedade    automtica,  desinteressada,  anda  em   )    So
freqentes as reportagens sobre as  perua  que  no  para  idosos.
Quando saiu a lei do passe livre, minha me as tias  se  divertiam
visitando-se mutuamente. Sentiam .,iais, bem-cuidadas. Hoje me io
corao quando passo te a um ponto de nibus e vejo  um  grupo  de
velhas, VeZeS no vento e no frlo,   esperando  um  -tempo  absurdo
nsporte como se fosse uma esmol. Pior: nem que 1  4  105  queiram
pagar conseguem. Muitos motoristas fogem dia cabelos  brancos.  Se
entro em uma loja e vejo uma senhora idosa exa( do  um  artigo  em
promoo, invariavelmente a v com ar impaciente.  Prefere  atender
gente com vontade prar mais depressa.  Pessoas idosas  so  muitas
vezes Gostam de conversar um pouco mais, de ter  uma  ci  amigvel
com o vendedor, com  o  garom.  Soube  de  i.  nhora,  de  origem
norte-americana,  que ficou sozinh4 f  do.  Mudou  para  um  hotel
mdio, no centro da cida sentir-se mais  segura  e  protegida.  Eu
costumava jantar  taurante  desse  hotel  Invariavelmente    ouvia
queixas de era impaciente, que reclamava muito.  Ningum  entender
que  se  tratava  de  ma  mulher  sem  parentes  pas   estranho,
provavelmente assustada. Necessitando,  s, mente, de um  pouco  de
'calor humano. Acabou se n nunca soube para onde. Conversando  com
um amigo dedicado a causas 4escobri que existem muitos voluntrios
para dos  infncia. Um nmero expressivamente menor sos. Como  se
pelo fato de  j terem idade,  no  tivesseni  importncia  assim.
Mesm nas famlias. As pessoas  tempo  todo  muito  ocupadas.  So
poucs as com d para passar uma tarde ou uma noite  batendo  papo,
pre d um jantarzinho melhor, trocando  afeto.  O  velho  .  do  a
entender que a vida do neto corre depressa, e  no  tem  pacincia
para seu ritmo mais lento,  para r daes, para seu modo de ver  o
mundo. Talvez dif vez conservador, mas nem por  isso  a  troca  de
experincia menos vlida. Penso que nossos ancestrais sabiam lidar
melhrTi velhice. Viviam em cidades menores, os vizinhos se  cc  e
um ajudava o outro. Sempre havia algum fazer un ir ajuda em  caso
de doena. Na cidade grande,  sem- a correria onde freqentemente
se esquecem 9 valores Los.  duro  olhar  para  esse  mundo  e  se
perguntar: _ o que ser de mim, quand for velho? .rez,  se  todos
Se fizessem a mesma pergunta, as coisas l  melhorar  a  partir  de
agora. 106 107 A Vida no Mato REALIZEI UM SONHO' Tenho uma casa de
campo de rvores enormes, restos de uma floresta! Uma dei que  diz
quem  me  visita.  Bem...  s  vezes!   Mal    comprei,    '    ao
recm-contratado  Caseiro. - Erga aquele pedao da cerca  e  jogue
aquele r madeira velha. Depois, desocupe as caixas da  mudana.  -
Sim, senhor. Voltei no fim de semana. A cerca igual, as caixas f
a madeira apodrecendo.  Suspirei.  Trs  semanas  depo  camada  de
poeira se depositava sobre as caixas. Cogun ciam  na madeira, e  a
cerca caiu de. vez. Formigas passe sof. Rugi. Surpreendeu-se. Mas
 senhor no disse que tinha pressa.. Partiu br.avssimo! Veio  um
novo. Rapaz jovem, par Um dia cheguei, ele no estava. Liguei para
uma c - Ah, falei com ele. Saiu para cortar o  cabelo.  Reapareceu
trs dias depois, surpreso com meu ner., -  que  aproveitei  para
comprar cigarros. Deve  haver  algum  tratado  de  psicologia  que
ensine ' der a mente dos caseiros. Mais alguns dias, ele me telefo
- Ganhei um galo e uma  galinha!.  Sorri.  Imaginei  minha  futura
granja. Eu, cercado p01 de ovos brancos e pintinhos  piando.  Tudo
comeaf casal! Seria o Rei do Frango! Fui ver  as  duas  precio  .
trancadas na lavanderia. Meu cachorro husky uivava lado da  porta.
A mquina de lavar tinha virado polei  assim  os  ces  caadores!
Ficam  pirados  com  o  cheiro  rS.  madrugada  acordei   com    o
interminvel canto do galo. Rei doFrango! Bote os dois na  panela!
uivei. pcionado meu ex-futuro scio, o  caseiro,  depenou  galo  1
Dois dias depois,- apareceu com um  vira-lata  filhote.  ijeixaram
aqui em frente,  em  uma  caixinha.  Fiquei  queria  ter  a  mesma
capacidade de seduo de um ca-. Bastou ele lamber  r  mos  e  me
apaixonei. Botei e assumi a paternidade!  No  dia-seguinte,  sentj
coceiras. 'atos! Chamei o veterinrio,  que  examinou  o  cozinho
Tinha tudo que se pode imaginar. Vou botar um remdio, e ele  vai
ficar livre d pulgas e atos! Seu veterinario, o senhor no pode me
tratar tambem? itado, dedetizei a casa de campo e  o  apartamento.
Agora estou 'livre? Carrapatos ficam na grama - explicou o dono da
d a, depoIs de receber o pagamento. ssei Semanas  indo  ao  campo;
mas andando de botas, meias 4 compridas. Belo jeito de  aproveitar
o vero! Mas, en a paz! ? Acordei com os  ganidos  lancinantes  do
husky. Havia um porco-espinho. Nunca tinha visto esses espinhos  .
Que farpas! Nem se via o focinho do cachorro, pis uma almofada de
alfinetes! Prendi a boca do bicho, a  lanterna  e  o  caseiro  foi
retirando espinho por espinho U1? alicate,  enquanto  o  heri  da
noite tentava escapar  e rder! 108 109 - Ah, como  bom  estar  no
mato! D para acreditar? - A luz j acabou por conta das  -chuvas,
o transforni rua estourou e arrasou com vrios aparelhos, o t  com
chiado, o cabo ia parablica arrebentou, a bomba: fundiu, o  motor
da piscina deu problema, e a gua pari se  criou  dengue..  enfim,
tudo rotina! A cada item, o dor da hora me consola: -  Pelo  menos
agora sr tudo novo. Nunca problema! Finalmente, tudo arrumad& De
preocupao, so a do husky de nadar na piscina e deixar  floco  de
plo  b  Sento-me  para  ouvir  as  cigarras  ao  entardecer.  Con
ensurdecedora  msica caipira.  o caseiro do  vizinho.  Aproveita
para botar o ltimo volume quando os patres esto fora! Respiro E
digo: O Pont X &GEM VIROU MODA na cidade. Todo  candidato  a  ser
eado se imagina como um imperador romano em fita  ywood.  Deitado,
com belas escravas nbias tocando suas  ordens  para  invadir  um
pedao do mundo. Ai de mim! - funciona desse jeito! Boa parte  dos
massagistas me dar uma boa surra! - um fantstico, de  Osasco.  Eu
morava n Granja Viana, e. origem  nipnica,  ia  em  casa.  Do-in.
Dedes fortes,  aper  do  o  meu  corpo,  segundo  afirmava,  para
"reequilibrar"  as as. Na terceira semana pediu algodo, lcool  e
uma toalha. Ligou uma mquina cheia de bulbos de vidro. Pren Irios
deles em minhas costas  e  pernas,  -  So  ventosas  -  explicou.
:ionadas eletricamente, as ditas-cujas aspiraram o ar, for- bolhas
na. minha pele. Ele as  retirou  e  picou  o  crculo  4o.  Quando
iagritar, botou as ventosas de novol Estou  retirando  seu  sangue
velho. Fiz isso em um cava undido e foi muito  bom.  ")U  com  um
-sorriso eqino. Seria a soluo dos meus Limas de citico? Quando
terminou, eu parecia uma jibia, rde marcas  redondas.  Adorei.  A
cada quinze dias,  me apli as  ventosas  At  ijo  dedo  mindinho!
Minha vida social U, pois, reconheo, tornei-me uma  figura  muito
esquisita!  alternativa  teria  sido  virar  punk!  Parei   quando
insistiu t- 7 horas da manh. Nada me faz acordar  to  cedo,  110
111 nem mesmo a perspectiva de ficar to gil quanto tu do Jockey.
- Outro decidiu me tornar uma pessoa melhor dand no meu  peito.  -
Isso vai abrir o seu corao. A dor que st se por ser uma  pessoa
mujto fechada. Profissionais decididos a tratar a vida emoc raros.
Houve um que na segunda sesso s conversc, - O que est sentindo?
- Cansao. O  trnsito  est  horrvel.  Ainda  po  chuva...  Voc
precisa se transformar. Preciso? Voc... bem..., ser que eu,..  o
que L - Tem de se tornar uma nova pessoa. Acabou i No  deu  tempo
de tocar o seu fl'sico, mas foi importan2 seu astral.  Acerte  com
minha  secretria  e  marque  nova  Sa  carregado    de    culpa.
Transformar, transforp dvida.  Mas  e  a  espinha  cansada?  E  o
citic? Fugi. Houve um tinio, no Sumar. No  podia  --""-  tava
doendo pois, nesse caso, usava os cotovelos. - Deixa  eu  desfazer
esse n.. - Aiiiiiiiiiiii! - Depois voc  vai  se  sentir  melhor.
Quem no se sente?  o alvio do fim da surra. Ou  ca  moxabusto.
. uma tcnica indiana. Aproxima  t,  de  incenso  aceso  da  rea
dolorida. Vai esquentando  at  que...  Est  queimando,  queimou,
queimou Retira o incenso com ar sbio e aplica  mais  ai  resta  o
cheirinho dos meus plos  chamuscados!  J  ousei  at  a  tal  de
"massagem express". H uma  !  frente  ao  Edifcio  Itlia,  aos
domingos.  amassa feita no torso, em uma cadeira  especial.  Fico
de cam - L. Quase  durmo.  Quando  me  levanto,  m  grupinho  ra,
curioso. Por falta do -que fazer, resolveram  assistir  .  !  Que
raiva! mais recente usa tcnicas de shi  Comprime  pontos  ou  dor
com-os dedos. - Veja,  como um boto. Eu aperto aqui e... Ui! Ui!
Ui! - Fica quieto, s estou ajudando. Agora s faltam  os  ps.  r
afirma, na planta dos ps esto concentrados to pontos necessrios
para as curas. E l. vai o dedo! Urro. Relaxa,  Relaxa!  Como  vou
relaxar com um alicate no meu p? eria ver se algum tratava assim
um imperador romano! que vida! Reclamo da  boca  pra  fora.  Entra
ano, sai ano, iii sempre  nas garras de um  novo  massagista!  112
113 Invaso  na  Chamin  'i  UM  DOS  MEUS  MAIORES  DESEJOS  era
acender.a lareira uma na chcara. Sou apaixonado pelo fogo.  Pelas
c lando. Pelas cores. 4 maior parte  do  ano  tenho  de  me  c  em
observar  um resto de cinzas. Meses atrs estava de sof, lendo um
policial. Um ds meus vcios  gostar d  rio,  O  livro  pode  ser
horrendo, mas vou at o fim, cobrindo na primeira  pgina o  final
da histria. Nes justamente quando o serial kilLer estava  prestes
a assas nova vtima em um mar de sangue, ouvi  ruidos  na  -  Ser
impresso? - disse para mim mesmo, perfeitamente que  no  era.  O
barulho aumentou. Pareciam ps raspando no  d  Papai  Noel  tem  o
hbito desconfortvel de entrar nas c telhado e no pelas  portas.
Mania que, certamente, s  explica.  Estava  longe  do  Natal.  Que
poderia ser? Um se entrando pela chamin, com  um  faco  erguido?
Por - a tanto trabalho se a casa  estava  inteiramente  aberta?  1
sassinos de romances  e  filmes  americanos  tm  essas  ori  des.
Arrepiei. Um serial kilier de Nova York staria p pular dentro  de
minha sala? A troco do qu? Os rudos taram ainda  mais.  Corri  a
chamar o caseiro. Quando ve: pliquei o mais calmamente possvel: -
- H algum na chamin. Entre na lareira e veja Por que ele e  no
eu? Pelo simples motivo  de  que  e  e  eu  sou  eu!  Horrorizado,
arriscou: se for o Conde Drcula acordando, agora que escureE eti.
Que mau gosto! Se eu fosse um vampiro, encon- acornodao  melhor.
Um tmUlo bem quentinho. Ou o de um banco com cdulas confortveis
para deitar em Ma o caseiro,  resolveu acender a lareira.  Seja  o
que for,  a  gente  espanta  com  fogo  e  fumaa.  e'u  sonho  de
contemplar as chamas finalmente  realizado?  exatamente.  Era  uma
noite de vero. Mal a. lenha come queimar meu  crebro  j  estav
derretendo.  Segundos  um  bando  de  morcegos  saiu  voando  pela
chamin. ram as asas que nem loucos pela  sala.  Eu  e  o  caseiro
corre enquanto os morcegos tentavam fugir das lmpadas.. Era  'L A
chamin se transformara no lar dos voadores! Viu  s?  No  era  o
Drcula. S seus filhos! - comentei. lo dia seguinte fiscalizei  o
caseiro ele despejava .itantes. Minha amiga Lal  reclamou:    um
absurdo. Os morcegos so fundamentais para o o ecolgico. Por isso
no. Boto todos em  uma  gaiola  e  mando  para  casa  -  ofereci.
silenciou, estrategicamente. iente, nas tiltimas semanas, esfriou!
Voei para a ch RNo caminho, coni um saco de lenha.  E-  Acenda  a
lareira,  Mano!  -  ordenei  ao  caseiro.  eitei-me,  pronto  para
desfrutar o calor. A sala ficou cheia Utnaa.  E  lenha  verde!  -
explicou ele. - No queima, s ...faz fumaa! - completei tossindo,
enquanto corria a varanda. e pobre Mano  ficou  abanando  a  sala.
-Juas noites depois, encontramos lenha seca. Convidei  uns  ps.  -
114 115 /  cola? - disse o  policial.  -  Vamos  tomar  um  vinho
diante da lareira. Sentamos. O fiel Mano  botou  fogo.  As  chamas
ram, majestosas. Imediatamente, ouvi... piu, piu!  -  Morcegos  de
novo? Mas morcego pia? Um bando de andorinhas voou para dentro  da
saia tomado posse da chamin, que devia estar  obstruf  Uma  ielas
queimou algumas penas r fogo e caiu.  M  Vera  gritou.  -  Salvem,
salvem! Apaguem o fogo! Pegou a andorinha na  mo.  Gorjeou,  para
fazer ai pobre ave parecia mais aterrorizada. Atravessar  as  chan
da ter de ouvir uma mulher daquele tamanho piando: demais. -  Como
voc pde acender a lareira com as ar dentro? brigou Vera.  -  Mas
eu... eu... - quis argumentar. .Pegou o marido pelo brao e partiu
com a andorin be que est sendo tratada melhor que um  beija-flor.
veterinrio. Acabar em um cabeleireiro  para  arrumar  queimadas.
Quem sabe vai botar peruca!  Quanto    lareira-desistj.  Continuo
olhando as romances policiais e ouo rudos aterrorizantes.  Minha
n foi invadida outra vez, O que  pode  sair  voando,  se  der  de
novo? Um pterodctilo? Melhor no saber. Qu vida natural. Pequnos
AbUSOS TECEU EM UM SBADO,  uma da manh. Eu havia sa in  alguns
amigos. A carona me deixou em frente o meu , onde h uma banca  de
revistas. Estava aberta. Aprovei- entrar.  uma banca grande,  com
caixa e at mquina cheque. Espntei-me ao ver, espalhados sobre o
, vrios montinhos te dinheiro, alguns de moedas. Tro  eno:  notas
de um, dois reais. O caixa contava o total. um engraxate. Moleque.
Na idade em que j deveria - m casa, e no  solto  pelas  ruas  do
centro da cidade. Trou ria do dia,  em  dinheiro  picadinho,  para
trocar por notas aior valor. Iesse instante, um policial entrou na
banca. Alto, fardado. i para o garoto. Estendeu o p, mostrando  o
sapato. O c quis explicar. Estou sem material para engraxar.  -  -
ordenou o policial. - nfesso que fiquei hocado. Ningum  obrigado
a tra r uma hora da manhi Ainda mais de  graa.  Obviamen  p  nem
sequer cogitava pagar. Tambm,  confesso, Lsem ao. O  garoto,  j
acostumado  dura vida na rua, Ou-se. Tirou um pano  da  caixa  de
engraxate. Lustrou os sapatos. Mas, ao abrir, a  caixa,  subiu  um
cheiro de 116 117- Percebi uma acusao a  caminho.  Lembrei-me  c
tempos de criana, quando havia um sapateiro perto s vezes a sola
d meu sapato soltava, e ele colava nov No sou ingnuo  a ponto de
achar que o garoto fosse: tamente inocente. Mas, segundo  acredito
at qualqu em contrario  ninguem  e  culpado  Talvez  carregar  cc
normal para um engraxate  Comentei  -  A  cola  pode  servir  para
consertar uma  sola  sc  exemplo  O  policial  me  encarou  e  no
respondeu Olhou o ameaador Decidi permanecer na  banca  A  vitima
garoto Por que motivo um policial acha que tem o usufruir trabalho
gratuit&  Ainda mais de madrugada? J  acontecer  vrias  vezes.  
comum um policial entrar ert e consumir sem botar a mo  no  bo1so
No acho cori mais interessante e que estou  do lado dos policiais
do que necessrios, com a vilncia de hoje em dia;]  vida  facil,
no O salario e baixo Pequeno,  para  o  ri  todo  policial  corre
diariamente Uma  vez  conversei  c  policial  e  ele  desabafou  -
Imagine o que  sair para trabalhar todo dias se vou  voltar  vivo
para casa. - Alem de ganhar pouco,  muitos  ate  tm  de  esonder
fisso, para no sofrer hostilidades na vizinhana Mas  mente  por
isso que sua atitude deveria ser coi tra.  O  policial  deve  ser,
visto como ufn amigo. Por  to  Mas  fundamentalmente  pelos  mais
pobres, mais carente s tm a eles para recorrer. Pequenos abusos,
como es  p para lustrar o sapato de madrugada, levam  deson  Ao
medo.  perda de confi necessria  para  fazer.  cias.  A  polcia
precisa do apoio da populao. Como cl lo    com  atitudes  nesse
estilo? rtamente, o pequeno engraxate estava apavorado.  A  pre  a
cola  na  caixa  de  trabalho  talvez  merecesse  uma   con    j-i
encaminhamento. Talvez eu estivesse errado em sair   ritamente  em
sua defesa. Mas que havia l era apenas . Terror. rapaz  da  banca
terminou de contar o dinheiro e deu duas dez reais ao garoto.  Seu
faturarnento no dia, provavel -Ele  partiu.  O  policial  saiu  em
seguida. Voltei  para  meu  i  s  uma  grande  tristeza.  Enquanto
cntinuarem -uenos  abusos,  muita  coisa  grande  vai  ficar  sem
soluo. 118 119 Striptease no  J  comearam  as  liquidaes  de
inverno. Antes me cio oficial do frio,  recebi  vrios  avisos  de
vendas pro saies e outros pftetos chiques para denominar as  lhas
liquidaes  Para variar, no resisti Como pc tunidade de  comprar
uma malha de l pela metade Mesmo grossa a de abrigar  um  esquim
ern pestade de neve? A esperana e' a ltima    que  rnorre  verno
tropical. Explico: quem gosta de andar-  de  1  fora    surfista,
personai trainer, corredor de mara pobre  mrtal  eu,  obrigado  a
pedir perdo ao nologista  cada vez que come uma torta de  choco!-
com o frio. Sim, eu me lembro de quando era jo Certa  vez  fui  ao
Teatro Municipal  com  a  turma  da  garotas  de  minissaia  (bons
tempos, hein?) ecamise com desprezo  as  dms  da  sociedade  que
chegasr. das dentro de c de pele. -  Que  exibicionismo!  -  dizia
uma. - Onde j se viu, pele em pas tropical? - concor Nada a  ver
com a luta para salvar as espcies amet - peles ainda no  estavam
no ndex  do  politicamente  cor  o  puro  desprezo  de  quem  no
precisava pendurar nac ossos  para desfilar como um pavo. Mas  o
tempo pa para mim, e passar para voc, que  est  rindo  da  minh
agora. A estao mais elegante  o  inverno.  Quanton  melhor!  Um
bom casaco, a malha  folgada,  os  tons    120  te  e  elegncia.
Convenhamos: o vero revela. O in  jsfara!  [  loja  com  duas  s
cordei  no  dia  seguinte,  janela  esperanoso.  Sim,  havia   um
ventinho... Botei a. Camisa. Malha cinza bem grossa. Casaco.  Meia
de j. Na rua, algurpas  pessoas andavam  em  mangas  de  a.  ,-So
loucas -  pensei.  -  Ento  no  sabem  chegou  i-  luta.  Banco.
Dentista. Ao me ver abrigado como um do Everest, o  doutor  Srgio
aumentou o ar  condiio  at  transformar  o  consultrio  en  uma
geleira.  Notei  a  ite    tremendo  de   frio,    enquanto    ele
escarafunchava mi- boca. Ao sair, ouvi suspiros de alvio enquanto
o r era ') rapidamente. J no corredor, fui bafejado po uma  -  ar
quente. - horrve1 ter de arrancar o casaco. A  malha  novinha  m
Que remdio? Tirei. Dali a pouco, foi a vez  da  camisa.  a  tarde
suando e carregando a tralha. Olhando na rua,  i  que  no  era  o
nico. Senhores arrancavam os palets. es,  as  blsas.  Encontrei
uma amiga. No carro, um guar pa completo. De manh boto  tudo  que
posso. Fao uma espcie de tase durante o dia Tiro casaco,  blusa,
echarpe, meias sapatos por sandlias...  -  confidepciou.  arrega
uma capa de .chuva no banco de trs.  que o dia  a  no  inverno,
continua no vero e s veze pode termi uma garoazinha. Se hoje faz
frio, amanh  ser  calor.  smo  se  vestindo  no  estilo  cabide,
iniciando o dia cheio Upas e terminando seminu.  Na  televiso,  o
meteorologis lica: - E o fenomeno El N 121-    Adorveis  Felinos
CASO NICO. Dizem que os gatos jamais abandonam Mas  eu  tive  uma
gata branca qu partiu sem dar satisfa Encontrei-a em frente  casa
de um amigo, denoite, do com ar  sofredor No tive  duvidas  Botei
no carro e para casa. Nunca vou esquecer como era gostoso  passar.
a em seus pios, horas e horas, meditando  sobre  a  vida.  s  me
lambia  com  sua  linginha  cor-de-rosa,  o  que  eu  con  va  um
privilgio. Ficou por l trs meses. Um dia desapa i Sofri Imagino
que voltou a seu antigo lar, utilizando 'soluto senso de  direo.
Ou, pior, foi miar em outra fre- sia  com  a  mesma  aparncia  de
abandonada.: Desde  ento a me dedicar  aos  ces.  Nem  por  isso
deixo de admirar os Os. Tm personalidade. S fazem o que  querem.
Mas quem os gatos faz qualquer coisa por eles Um amigo  separou-se
iWher. Sofria corno doido. Por  causa  da  gata,  que  ficara  seu
antigo lar. Finalmente, ligou exultante: - Agora est tudo  cert.
Acabou-se o drama. - Que'bom! Voltou com ela? No.., mas trouxe  a
gata pra viver comigo. m outra oportunidade fui a uma gravao  de
um progra e televiso que exigia um gato azul. O  gato  devia  ser
per , correr e pular para cima de uma rvore. Quanto oti    fr  Ao
chegar, vi gato gordo pintado de azul - com  a  rinagem  especial
para plos de animais. Mais adiante,  em  a  gaiola,  outro  gato,
tambem pintado Era o dubl Puse Que ni H tanto tempo infernizando
o clima, ser bem adulto! Arrumo desolado minha pilha de malhas  no
arrn das sem uso. Compradas ano  aps  and,  liquida  ap(  dao.
Espirro. - Ser alergia?  Dou  mais  um.  Dois,  trs.  Dzias  de
espirros! Cus verno, no sei no. Mas a gripe.., ah... j  chegou
com / 122 123 ram o primeiro gato no cho. Todos os atores  saram
do, espantando. Ele continuou imvel.  Botaram  o  s  Mais  imvel
ainda. Eram gatos  gordos  e  peludos,  q  riam  ficar    deitados
enquanto todos se sgoelavam Voltaram ao primeiro.  A  veterinria
encarregada an patas com umas cordinhas e puxou, para ver  se  ele
bichano deixou-se  arrastar    no  cho.  Decidiram  gravarj  tes.
Asssim, os atores ficaram correndo de um lado p .tro, gritando.  -
Olha o gato!, olha o gato! Enquanto  isso,  o  astro  observava  a
gritaria plci certamente imaginand que os humanos so  uns  bich
esquisitos. Chegou o momento fin?1. Bastava colocar, em cima    da
rvore. Todos olhariam para o galho e L Quem conseguiu? Tomado  de
fria, o gato arranhou que tentavam tir-lo de seu cantinho  c  Cc
chover e o gato desbotou. Exaustos,  todos transferiram  o  para
outro dia. Halguns anos eu ia passando pelo haim. Em uju  esquina
havia bem uns cem gtos no jardim. Parei p rar. A dona, encantada,
- Quer um filhotinho para comear sua coleo Esse   o  problema.
Quem comea com um ten vinte. Ou trinta, ou mais.  Os  filhotinhos
so to boi graciosos! D d de oferecer, a  no  ser  que  j  se
tenha c  centena. So tambm bons gourmets. Gostam do que    bo:
nheci uma garota que tinha o hbito de comer latii o para  gato.
Dizia ter um sabor delicioso de peixe tentei experimentar.  Ainda!
Pois um guloso como e chegar  a tudo. Muita gente discute  o  amor
felino. - Gato no serve para guardar a  casa.  fato.  Nunca  ouvi
dizer que um bichano tenha atacado ou miado para prevenir o  dono.
Mas possuem uma kide exemplar. So uma  companhia  silenciosa  mas
cli ingum se sente realmente sozinho quando tem um gato. n disse
que ur'j gato no tenta contribuir para o ora  familiar? Observe.
Basta caar uma  ratazana  das  bem  para  atir-la  na  porta  da
cozinha, de presente. Corno e. - Trouxe o jantar 5r  mais  que  eu
ame os ces, sou obrigado a reconhecer. se diz  que  algum    um
cachorro, bem...  tome  cuida-  ato  ou  gata    elogio.    pura
sabedoria popular. Isso deve :ar alguma coisa. 124 1125 Arroz-Doce
CERTOS SABORES FICAM guardados em um canto on  brana  se  mistura
com a emoo. Eu nunca vou me do arroz-doce com  canela  da  minha
me. Simplesmei cozido no leite,  polvilhado c.m canela em p. No
era festa. Mame  tinha  um  bazarzinho  no  interior,  e  para  a
cozinha. Empregada, nem pensar, naqueles  ceis  Moravamos  em  uma
casa atras da io)a, e a porta nha dava justamente para  o  balco.
Botava a panela nc ficava  com um olho na receita, outro na  loja.
 vezes  uma freguesa, desatava a conversar.  Que  lugar,  melhor
ber as novidades do bairro, quem vai casar ou quem :  do  que    o
balco de um bazar de  cidade  peque  O  leits  drramava.  Muitas
vezes, depois do jantar, vinha o arr  passado  do  ponto,  com  um
gostinho de acar queimar pai se divertia. - Esqueceu no fogo? Eu
gostava assim mesmo. Repetia. O pudim da minha av  aterna  tambm
est entre recordaes prdiletas.  uma receita antiga, espanhola
de leite com queijo parmeso assado no banho-maria. Vc mestra   na
cczinha. Orgulhava-se.  Quando  vinha  no  mame  avisava.  -  No
esquea de pedir o pudim. E no?  Era  a  primeira  coisa  que  eu
falava. - Vov, faz pudim? - z pelo reconhecimento, voava  para  a
cozinha. Muitas anos depois, o pudim seria o tema  de  um  ato  de
rosidade de minha me. Eu j era  adulto.  Morava  fora  de  Vov,
velhinha. Fui visitar a famlla. Cumpri o ritual.  Pedi . Vov foi
para  a  cozinha.  Passou  hras.  Mais  tarde,  sou,  desanimada.
Desandou. Olhou para as mos, triste, sentindo que  j  no  et  a
mesma. Dali a algum tempo, mame apareceu  orgulhosa  com  um  rn,
ainda quentinho. Mas no tinha desandado? - estranhei. A culpa era
minha, que tirei antes do forno. Botei para mais um pouco e  ficou
bom! - explicou ela.  "ov  estranhou.  Mas  sorriu.  Mais  tarde,
quando estvamos sozinhos, mame confessou. Fiz  outro  escondido,
para ela no ficar triste.  T  comeando  a  ficar  doente,  vov
precisava daquela pe a vitria. junca mais  pedi  o  pudim.  Muito
tempo depois, consegui ar a receita, idntica, em um antigo  livro
de cozinha. Tam -no tive coragem de fazer, pois s de pensar nele
lembro dia, do desencanto de vov, de seu sorriso e  do  gesto  de
ie. Sinto uma estranha emoo. ovos fritos, com a gema mole?  Quem
no gosta? Quem sente saudade, depois que o  colesterol  comea  a
subir? rido, como ovos fritos, sempre me lembro da infncia.  Para
os amigos  assim. Pratos simples remetem  a  sensaes  do  -dia,
quando a famlia toda sentava-se  em  torno  da  mesa.  ntar  era,
simplesmente, o momento de estarem juntos.  Uma a  se  lembra  com
emoo das festinhas de aniversrio. Cada a me escolhia uma  cor.
Uma vez rosa, outra azul, verde... --docinhos,  vestido,  tudo  do
mesmo tom!  Balas de coco cascata. Quem no tem as balas de.  coco
guardadas na  me-  126  127  mria?  J  vi  senhores  comportados
atirarem-se sobre de docinhos de brigadeiros. Quem sabe  revivendo
a tempos de infncia!  fato. A lasanha ao forno, o frango assado,
o pra do jeiupho que so a me sab e inesqueciv Coni gem dos  anos,
a vida muda. A gente se distancia. 0 soas se vo para  sempre.  Ou
ento, ela j se foi. O umarceita, de 'um  doce  preferido,  mexe
com a g das  Mes.    uma  excelente  data  para  eu  fazer  umaf
arroz-doce. E trazer de volta  a sensao  dos  abraos).  tos  de
carinho, e de tudo que eu nunca perdi,. porq nua  vivo  dentro  de
mim. asa Prpria O DO PRPRIO teto  um sonho.  D  segurana  mo
que  seu. O caso  que a residncia equivale ao casco da Ou seja,
 uma extenso do corp. A comeam as ra,s.    impressionante  o
nmero de pessoas que con i delirantes. Certa vez um  corretor  me
ofereceu uma que ir  um  navio.  Em  vez  de  jar  escotilhas.  A
estrutura de reto, curva,  semelhante  ao  casco.:  Era  um  barco
encalhado  crreno e  na  imobiliria.  Um  amiga  re  construir  o
.Granja Viana. N alto de um  mori  A  vista,  deslum  e.  Todo  o
dinheiro foi  gasto  em  concretos.  Parecia  um  .  pela  metade.
Aconselhei: Use o que voc ainda tem para. comprar o  material  es
ai para terminar a obr. ncomendou boxes de B,lindex e o. motor da
piscina. De : no havia piscina. Nem o buraco. Acabou  ela  mesma
wdo quilmetros de cho d cimento da sala. Descobriu concreto   .a
transformava em um forno no vero. Uma ira no inverno. Comentei: -
Pelo menos, daqui a sculos, a casa vi estar de p. Os logos vo
achar que era um  templo.  E  voc,  a  deusa.  i  para  um  casal
apaixonado,  por  menos  'do  que  as  de  concreto   gastas    no
empreendimento. Os amigos cor  fl  a  aconselhar:  Compre'  alguma
coisa feita, que s exija uma pintura. - 128  129  -fl  -J  131  -
AgoI;l e 1 sempre! ,ni  seguida.  Coi1  i  empacotar  os  trastes.
onhe ii pessoa qtie fl s I pUrt com casa. 1. de meus amigos  que
realmente p dizei- que rico. -e pag aluguel. Pcigiiiitei  surpreso
o mouivo. l maiidras melhores de investir o  dinheiro  -  ito  ode
ser. Mas certamente nenhum mais gostosa do que iquecer com a  casa
prpria. quebrar umas parcdes. trocar e imaginar que o  sonho  est
prestes a ser realiiado! Em segredo, arrumou um terreno no meio da
M tica No momento, discute o corte das rvores com o Outro  amigo,
advogado,  apaixonou-se  por  uma  rui  Pacaembu.  Mal    compro4,
descobriu: a casa tinha -como escla de tiro  ao  alvo.  Todas  as
paredes sofrer veno. Os alicerces. O telhado. A  piscina.  S  a
cozin] tima. Ele fez questo de quebrar porque queria um  -curva.
A  obra  foi  estimada  em  meses.  FaL  dois  ari  sam  que  est
angustiado? De jeito nenhum. Est re projeto de vida,  apesar  dos
cabelos um tanto mais bra Eu poderia dar um  martelq  de  presente
para cfdos. Adoram derrubar paredes. Uma atriz passou a  nomizando
para ter seu cantinho Conseguiu um antigo  com  terrao,  na  Vila
Buarque Pagou com esfor mou os p&Ireiros  e.  resolveu  dar  umas
mexidinhas. ram terminar em um mes Um ano depois, ela conta,  s  -
der o sorriso de fehcidade: - Abri tudo, ficou um  salo  Agora  o
jeito e arn na para cobrir o terrao e fazer o quarto,  seno  vou
m-ir embaixo da pIa, - - Certas pessoas  tm  at  conscincia  do
delrio. Uir "tora que conheo recebeu um cliente. - Queria um tei
campo para fazer um paredo  com,  uma  porta  de  -  -  um  nico
quarto. Tipo galpo. Ela aconselhou: - Olha, esse  o tipo de casa
que se um dia v vender, no consegue. - - A resposta, com os olhos
brilhando; = -. - Claro. Eu vou construir um mic.   Meus  miolos
tambm no funcionam bem  quando  to    moradia.  Fao  o  gnero
nmade. Vivo numa dois anos. O excesso de  paz  me  enerva.  Volto
para Reclamo do trnsito.  O dono da transpo?tadora  j  me  abrir
uma conta corrente. Cada vez, eu prometo. 130 eam a se  espalhar.
O cabelo cresce que nem 'po continua curto! ias ningum  cometa  a
gafe que eu j cometi, com minha . peculiar.  -  -  Ah,  voc  usa
peruca? er um inimigo  pelo  resto  da  vicfa!  T  algum  tempo
encontrei.um amigo em um bar. Parecia ,t tornado um.. ex-careca! O
topo da cabea absolutamen eto. Sem franja.  Peruca  no  era.  J
estava prestes a  perg 1 o rtatamento miraculoso. Quando descobri:
era uma kie de tinta! Tinha pintado a calva de  preto!  De  longe,
cia cabelo. De perto, era horroroso. Agora, o pior    a  situa  e
constrangimento em que esses carecas botai um sujei- e  tenta  ser
bem-educado. Eu no podia agir como se  ti-  percebido!  Passei  a
nite  jnteira  fingindo  que  ter  o  topo  bea  asfaltado   era
absolutamente normal! utro amjgo, Carlos, um  arquiiet,  era  um
sujeito char . Fazia o maior sucesso  com  r  mulheres.  Estranhei
quan omeou a economizar para comprar frascos e mais frascos    rr
substncia americana rece'm-lanada. Tinha uma care  Lstrosa,  mas
nunca imaginei que fosse problema. At que em sua  casa.  Mostrou,
orgulhosd. Veja, j cresceram trs fios! em, ele tinha  dois.  Com
os trs davam cinco. Todos os espetados no alto da cabea, que nem
as palmeiras da Faria Lima! Brinquei: - Daqui  a  pouco  voc  vai
poder fazer maria-chiquinha! uem disse que  careca  tem  senso  de
humor? Emburrou, e irrado continua!  3  amigo  confessou.  -  Usei
peruca anos e anos. At o dia em que fui para o As ondas  levarari
a peruca! Foi um deus-nos-acuda  para  *.  salvar,  enquanto  toda
mundo ria. Que situao! 133 * O Trauma dosCarec. NUNCA.ENTENDI  O
HORROR que os carecas tm d  calva.  Talvez  porque  meus  cabelos
cresam como tatei o sofrirneuto de quem,  devido  ios  lances  da
tenta a cabea reluzente.   Conheci  um  senhor  bem-post  que  s
andava de  terno  gravata.  Finssimo!  Mas't  carequssimo.  Para
disfarar, penteava o topete de u da cabea at  o  outro.  Ficava
muito  estranho. A risca  d  ficava  na  altura  da  orelha.  Para
mant-los no lugar, i os fios em um  gel  gosmento.  Se  batia  um
ventinho, todo se erguia, que nem 'um tapete!   Ao  conversar  com
olhos se fixavam na careca. Um brilho de Riria surgi  pupilas.  Eu
tentava  disfarar.  Dali  a  pouao,  estava  de    careca.    Que
constrangimento! - E quando o careca usa peruca? Nada  mais  bii
peruca com franja. A franja costuma ter uma  aparnc,.  Depois  de
uma certa idade, ningum usa franja. S os Ou seja, a peruca no s
como disfarce. Equivale a cartaz anunciando: "Debaixo deste cabelo
falso tem a de mosquito!". . - s vezes, com o hbito, o- dono nem
presta muita na prpria peruca. Bta torta. E o tom dos.  cabelos?
parecido com pelagem de cavalo, O' castanho, rebri" da  se  salvam
as pretas, que disfaram mais. Existem ; modernas. Uma delas  uma
espcie de tela, colada. sobr  Mistura-se  com  o  cabelo.  Parece
normal at que os 132 a r O Casamento lI( )J(. a cari..qLIice I)dl
Ciflia P ha F reci )nheco. S careca deve cjusj.r Um S Uflelilo  dc
( l1ifu mais e capa7. de compreender. Ainda b- -. muda mudou. 1 Li
quem rape a cabea pui- gosto! Mui cas raspam tudo e I m  (ltm(  
para ser 1' i com tinia a r da peruL:a ideal, aquela t perk  a  r
parea de verdade! TRO NA SACRISTIA embalsamado em um terno  preto
O to est perigosamente apertado sobre minha  barriga.  Tre  .  
idia de que possa estourar como uma rolha de rhampa e  quando  eu
estiver sobre o altar. Serei padrinho de casa-. nto de  meu  amigo
Rodrigo. Sou o primeiro a chegar. Preca corro para , toalete. Ando
fazendo  uma  dieta  sem  sal.  rtica.  Ai,  que  medo!  Busco  o
masculino. S ncontro  o  ,inino.  Tranco-me  l  dentro,  j  que
ningum est vendo. ando saio, h uma fila de mulheres  na  porta.
Disfaro.  Qs tros padrinhos chegam Todos esto de  camisa  branca
Me- eu, que vim de azul. Sinto-me  horrvel.  O  noivo  tambm  a.
Abraa a todos, visivelmente emocionado. Meu amigo krilo  comenta.
- Est pingando sangue do seu queixo. Verdade' Havia me cortado ao
fazer a barba Um grupo  de  idrinhas  apressa-se  a  resolver  meu
problema. - Bote o leno! Tire o leno! [ Jogue gua fria! LE duro
transformar-se  no  centro  das  atenes  ei  o   mundo    espera
Finalmente, estanca por si mesmo. Res  aliviado. Uma senhora  nos
chama.  Deveremos  entrar  em  cortejo,  em  ordem  definida.   D
instrues. 134 135 - Padrinhos do noivo devem subir para o  lado-
altar! - Ahn? Minha dama resolve: - A  gente  'segue  o  casal  da
frente. Se ele )ufltQS! O noivo confidencia: - Estou nervoso. Voc
no est? - Quem vai casar  vo - respondo. - E No sei  por  qu,
todos riem. Acho que de-' nerV me do noivo pede um momento.  Est
chorando tant - refazer a mquiagem.  Todos  aguardam.  Samos  em
cortejo. Na  porta  da  igreja  a  tal  se  empurrozinho  no  meu
-cotovelo. Entro. Oh! Toda'a: p, me observa. Penso em sorrir. Mas
tambe'm no  arreganhando os dentes. Tento  fazer  uma  expresso
de. Que horror! Eu e minha dama somos mais corredor! Tento  manter
a dignidade 'enquanto camil do o nariz  nos  arranjos  de  flores.
Subimos ao akar lugar,  claro. Minha amiga,  Rosana,  a  madrinha
da, puxa para o local adequado.. Ainda  bem que  no  d  castial,
incendiando os  vestidos  das  madrinhas.  Ma  O  noivo,  trmulo.
Ouve-se a marcha nupciaL marcha nupcial. Ouve-se a marcha nupcial.
Ouve-se marcha nupcial continua sendo ,ouvida e nada de a' r trar.
Deve estar  dando s ltimos retoques na porta d  Finalmente,  'as
portas' se abrem.  uma das noivas nu  que  j  vi.  Nervosssima!
entrgue ao noivo. C mnia. Sermo.  Minhas  pernas    latejam.  O
padrinho. lado est olhando exatamente atrs de miih Olhar  que  o
teto est prestes a despencar  na  minha  cabea?  Q  -o  pescoo.
Consigo me conter. Tenho uma certa 136 estaria? arecer  um  senhor
srio e bem-comportado. Entra uma r com as alianas.  Chorando!  O
noivo corre pa1 peg nrega-a  me, tambm presente no altar.  uo
os "sins" As alianas  so  tr(r)cadas.  O  padre  canta,  -  belo
momento. Os noivos choram. A cerimnia termi ada um deles vem  nos
cumprimentar. Sinto uma emoo rada. Quandd o noivo me abraa,  me
chamando de o, o meu aperto   forte tambm.  Vejo  o  quai  esto
onados. As lgrimas escorrem., Percebo, ento, como  esse  ii  to
antigo nos toca, e como os votos adquirem maior  valor.  fundo  do
meu corao brota o desejo sincero de que sejam o, muito  felizes!
- -1 137 a Cuidado com o Dono pregada. Aliviado,  suspirei  Alivio
inutil Na mesma noite uma sinfonia de ganidos No um,  mas  varios
cezmh tos!  O  nmero  parecia  aumentar  diariamente.  Achei  qi
psicolgico.  Impresso? Exagero? Estaria endoidando?: -  1h!  Ele
montou um pet shop -  contou  mic  naria  Exatamente.  Trazia  os
filhotes para dormir em ca numero crescente de cachorrinhos, todos
ganindo de s da me. Eu tinha vontade de abrir a janela  e  uivar:
Foi descobri  que a vida no campo  nem  sempre    to  re  quanto
apregoam. Voltei para a cidade. 138  1:  Uma  amiga  possui  cinco
cachorros. Basta um carro passar  zentos  metros  para  dispararem
latindo furiosamente, Com jncia,  fogem.  Atacam  os  calcanhares
alheios. So peque e Machucar, no machucam. A dona sai no -to  e
grita. - Voltem, voltem! Se alguem reclama,  fica  brava  Imagine,
eles no fazem nada.  Alm  de  ser  mrdida,  a  pessoa  quase  
obrigada a pedir . Os vizinhos j puseram as casas  venda  vrias
vezes. maior movimento  de  crretores  da  regio.  Eu  me  pergun
cachorros no se cansam de l Tento, para fazer a expe -i - Au,  au
Em cinco  minutos  estou  rouco  No  el'evador  do  meu  predio  e
frequente dar de encontro i algum cachorro O proprietario  sempre
avisa - No se preocupe, e manso Sera Fico encolhido em um canto E
se justamente agora )lver experimentar o  sabor  de  uma  mordida?
Donos ado dizer que seu bichinho de estimao   angelical,  mesmo
ri provas em con'trario Tive uma amiga carioca com uma a dobermann
Nas poucas vezes em que  me  hospedei  em  Lcasa  acordava  com  a
princesa mefarejando Eu, deitado em colcho no assoalho. O focinho
molhado na minha nuca. ido. No mexia nem os  clios.  Horas  d  a
moa ouvia  gemido e vinha Esta com medo  do  qu?  -  Medo,  no.
Apavorado - eu respondia sem voz. Que bobagem! - 'Atirava um osso.
A bonitona agarrava no ar e saia  masti  O  que  nem  chiclete.  -
PINSCHER A me de um amigo tinha  um  cozinho  d  Tamanho  minimo
Tormento maximo Ficava solto Bastava eu chegar  para  uma  visita,
comeava  a  latir.  soltando  latidinhos    estridentes.  M  meus
dentinhos afiados. A dona sorria. - No e uma gracinha?  Eu  tinha
vontade de morder a tal senhora Quando morava em uma chcara  tive
um vizini cachorro latia a noite toda Adoro ces, tenho trs 1 le'
Mudei de quarto Coloquei algodo no ouvido 1 a surpresa -  Levaram
o barulhento para o stio - c 139 Eu punha  as  mos  no  pescoo,
pensando quantas tavam para pegar o nibus. Mais me di  verificar
que volta e meia so os c vam a culpa. Est  no  auge  o  tema  da
proibio de raas, corno o mastim-napolitano, o pitbull e  o  ro
ator que conheo  foi atacado por um p  Te  plstica.  Ficou  anos
fora da televiso. Mas um casal tinha um rottweiler chamado  Xico.
Um doce. Abana Pulava e lambia.  triste pensar que   o  Xico  no
exisi sou um especialista em raas. Se  autoridades  da  rea  que
algumas so perigosssimas, sou O primeiro a ac( bem que se limite
a criao das feras.  E os portes descaso, a imprud Muitas  vezes
 preciso -cuid dono! Nas mos d algum imprudente,  at  um  pi
paz de enlouquecer ffieio mndo! -f  Absurdos  Natalinos  ftA  ME
SEMPRE DIZLk,antes do Natal, aniversrio ou  Dia  Mes:  Este  ano
quero presente para mim, no para a casa!  )  Natal  era  a  poca
escolhida par a troca de  geladeira.  rar  um  aspirador  de  p.
Talheres, pratos. Qando a tra hegava,  papai  sorria:  -    para
voc! iitas vezes surpreendi em minha me um  olhar  assassi  Para
ela como, se todo  mundo  ia  desfrutar  a  gua  gelada?  )rvete?
Servia, sim, para atrapalhar a vida da velha.  -  Me,  faz  i  de
maracuj? - Como? Voc esqueceu de pr  o  guaran  na  geladeira?
Cad o gelo? Ningum ps gua nas forminhas?  o fim!  Ia  sonhava
com uma viagem. Roup nova. Algo que fosse a. Ano aps ano,  algum
aparecia com uni pacotinho. No sabia o que dar. E vinha  um  jogo
de copos. Xcaras. Bules. Luvas  trrnicas.  -intencionado,  certa
vez of um livro de receitas. E  para  voc  cozinhar  melhor.  Ela
sorria. Aposto q teve vontade de atirar o Dona Benta I cabea. Mas
o que pode fazer algum seno sorrir  e  de  um  presente  errado?
Natal  uma poca excelente  para Itar a hipocrisia Certa vez,  em
urn amigo-secreto, recebi toa1hjnhas rendadas. No tive  tempo  de
comprar coisa melhor. r 140 141 Sorri, com se estivesse diante do
enxoval de . Tambm  um susto ganhar enfeites. - Adooorei  es'tes
cavalinhos de barro. Trouxe VOC. -  Sorri.  Onde  botar  as  duas
maravilhas? No narzi trouxe? E quando  o  amigo    artista?!'  -
Olha! Pintei em sua homenagem! Desembrulha a tela. No  centro,  um
sujeito gor -no. verde, com a  cara  semelhante  a  uma  beterraba
Sorri cutelosamente. -  Quem  e?  O  artista  assumiu  um  ar  de
desapontamento - Voc' -Eu? Sorri, mas gora de susto! Era um  bom
momento p relaes. Mas Natal 'no  poca de fraternidade? Disfar
- Sim agora estou vendo e a minha carat So  r  nheci  no  primeiro
olhar porque nunca boto roupa v - No? Ah mas eu  ja  vi  voc  de
verde, simt ' Sera que ele me confundiu com o  Louro  Jose?  Si  -
Sim... pode sr... uma vez Eu. eu vou deper - Deixa que eu  ajudo.
Nada mais trgico do que acordar meses e  meses  do  minha  verso
artstica! Quase perdi a compostura em  uma  ceia,  uma  conhecida
chegou com um pacotei co Ate estranhei,  porque  a  dita-cuja  era
conhecida con de-fome. Abri e me deparei  com  um  ursinho  de  pe
de-iosa! Ela se assustou quando encontrei um envelopi um carto  e
abri. Li uma  mensagem delicada: "A vo da,  para  fazer  companhia
nas  suas  noites  sem  sono":  L  por...  um  homem!  Ela   ficou
completamente sem jeito. Era bvi. I bido o presente de alguem e,
sem abrir, me entregou 1 oU que poderia haver um carto dentro,  e
no fora, como ito. Diante do meu espanto, riu: 1h, acho  que  dei
um fora! Deixa eu ver o cartozinho! Ah, mas voc at acertou! Que
incrvel ganhar um ursi- de pelcia cor-de-rosa! Incrvel!  'Dessa
vez n Gargalhei. Quase cantamos Jingle Belis em to. Era  isso  ou
atirar a rvore de Natal em cima da malan  '  confessou:  -  Nunca
compro nada. Passo para a frente  os  jresentes  e  do!  Presente
virou obrigao. Por isso, sempre aconte um absurdo.  Afinal,  nem
todo mundo compartilha do  tal to  natalino!  Posso  odiar  o  que
ganhei. Mesmo assim, acho r sorrir. Ao menos, ficocom a alma  mais
leve! 142 143 - Boa noite - rosnou. - Boa noite - gemi  de  volta.
a. Cabeas-de-Vento UM DOS MAIORES SUSTOS de minha  vida  acontece
mente por culpa minha. Trabalhava em um escrit6r pequena  travessa
do bairro dos Jardins. Recebi um ai versamos. Samos'    noitinha.
Chuviscava. Corre carro. Tentei abrir,  no  conseguia.  Um  carro
entrou r disparada. Brecou rangendo os pneus. Quatro  rap  carados
saram s.pressas, deixando  as portas abertas. duvids iamos  ser
assaltados O escritorlo fechado 1 Gelei. Um dos sujeitos  parou  a
dois metros. Os outrc ram um arco atrs dele. poderia acreditar? O
meu era azul, o dele marrom.  .modelos  completamente  diferentes.
Meu amigo baba o vexame. Fugimos s pressas,.  antes  de  levarmos
uma Certamente o sujeito e a turma vo contar a vida toda o  certa
vez afugentaram dois perigosos ladres com a  boca  otija.  barros
so um prato timo  para  distrados.  Dia  desses  um  entrou  na
garagem do prdio, que tem dois pavimentos. orizado, descobriu que
seu carro estava todo enlameado. Algum deve ter usado  escondido!
S pode ser o gara Cheio de raiva,  pegou  uma  mangueira.  Lavou.
Arrumou )'velho para enxugar.  Quando  chegou  na  frente,  -notou
parte - :ura descascada. Ainda  por  cima  devem  ter  raspado  na
parede.  muita eza. Largue o carro - gritou ele. Tremi. Era mesmo
um bando de ladres. Eu e' imveis de medo.  -  Vamos,  largue  o'
carro! - ilisistiu o mal-enca - Mas...   meu  -  consegui  dizer,
quase em abraando o cap. - , . - -  seu coisa nenhuma.    meu.
Ergueu o punho, ameaador. J a responder para  lado.  L  estava
meu carro, estacionado 'a pouco$  Quem  estava  tentando  levar  o
autorn'vel alheio Constrangidssimo,  tentei explicar:  1h!  Acho
que.' me enganei. O meu  aquele l4 .  estava prestes a chamar  o
sndico. De repente  descbriu  tinha  lavado  o  carro  de  outra
pessoa. Pior, de um modelo rente do  seu!  Simplesmente  errara  o
pavimento  da garagem, inhara at onde julgara ser sua  vaga  e  o
resto ficou por conta  'strao.  Tenho  uh'ia  amiga  experta  em
distraes culin .'Convida  para  um  churrasco  e    esquee  de
comprar a carne. ta vez preparou um jantar para dez pessoas. S eu
fui. Fi u arrasada. L pelas tantas, ligou para  um  convidado.  -
Por que voc no veio no meu  jantar?  O  qu?  Voc  no  avisou!
,Tinha esquecido de convidar. Tenho um amigo to distra  que,  em
certo dia de chuva, ficou de dar carona a uma com- leira na  sada
do trabalho. Ofereceu. Voa at o estacionamento, tiro  o  carro  e
pego voc na A amiga sorriu, agradecida. So raros os  cavalheiros
hoje dia. Pois bem: o' "cavalheiro" chapinhou at o estaciona- 144
145 Muambas de Luxo JUAS SEMANAS FIZ as  malas  e  parti  para  os
Estados Uni L Frias! Ainda sou da tipa caipira,  que  quando  vai
pegar i avio anuncia aos quatro ventos Nunca mais farei  isso Mal
ei, comearam as encomendas - Voc 'me compra creme de barbear?  -
pediu um _- Aqui existem tantas marcas...  -  O  que  eu  gosto  e
americano Nas lojas, cobram 7 reais free  shop,  s  4!  Nos  dias
seguintes recebi uma  enxurrada  de  telefonmas:  -  Eu  uso  uni
perfume que  carssimo no Brasil. Uma vez eu  gnhei  um  relgio
com um cachorrinho late ao despertar. Da Disney. Arruma um para  o
meu so riho? um constrangimento. As pessoas se comportam  como  se
ssem rio interior da selva amaznica, vidas por gotas  de  zao.
H pedidos completamente  estapafrdios.  Meses  um  ator  de  voz
afinada pediu a um amigo meu que ia a va York: "No poderia trazer
partituras musicais para um w?".  O  turista  passou  duas  tardes
correndo a cidade e achou Las. Ao entreg-las, ouviu  um  rosnado:
S essas? Se tivesse procurado com vontade teria encon O mais.  -O
show nunca foi  montado.  A  amizade  esfriou.  Muitas  vezes  1ei
recusar, explicando: Vou a trabalho, nem  sei  se  terei  tempo...
mento. Pegou o carro e saiu. A moa aguardava na;p passou por  ela
distraidamente,  deu  tchauzinho  e  foi  coitada  pensou.   fosse
brincadeira. Quarenta minui percebeu  que havia algo  errado.  Foi
obrigada a sair no escuro, at um ponto  de  nibus.,  S  no  dia
segui do estava prestes a levar uns tapas, ele  percebeu  o  en  -
1h... eu aqueci que voc estava me esperan  Se  dirijo,  s  vezes
viro na rua errada, sem pensar. 1 mente  quando  estou  acostumado
com ui caminho  que vou para outro lugar. Levanto, para  dat  um-
td urgente,  paro para tomar  um  caf  e  quando  lembr  horrio
comercial. Meu amigo Cludib, um distra maz, jura que  e  genetico
Certa vez, nos bons tempos tro da cidade, seu av  e sua av foram
assistir a um-a Teatto Municipal.  Ela,  com  casaco  de  peles  e
jias, como era de praxe. Q casal saiu caminhando.  A  rua  Toledo
estava em obras, cheia  de tapumes e buracos 1  dos.  A  av  caiu
dentro de um  deles.  O  marido  nem  Distraido,  foi  para  casa,
sentou-se para ler o jornal 1 pois a  mulher  -apareceu.  Suja  de
barro at os cabelos. de pele destrudo. Ele espantou-se: - - Onde
 que voc estava? Hoje em  dia  daria  divrcio.  Na  poca,  ela
content rugir De  tudo,  uma  lio  se  aprende  Quando  se  fala
traidos, sem duvida a tragedia anda ao lado  da  cor  1  4  147  A
pessoa sempre insiste. Age como se fosse  o  pedido  e  a  entrega
existem vrias armadilhas capazi  bar  com  uma  amizade.  Como  a
questo do preo. um rapaz insistiu  para que eu trouxesse um  gra
Comprei n primira loja. Ainda me lembro do s ns  do  balco.  Ao
chegar, entendi o porqu de tanta. - Aqui no Brasil  muito  mais
barato! - Voc ainda queria que eu pechinchasse? - ai Ele me olhou
torto, como se eu estivesse tirando fora. Algumas situaes  ficam
muito  desagradveis.  LJ  gado,  conhecido  meu,  esqueceu-se  de
procurar um xai voltar,  comprou num shopping e o ntregou   cole
trio corno e fosse trazido do exterior. Cobrou  metac  pagou.  S
para no ficar chato. Foi pior: agora vai viaja e a moa  lhe  deu
uma  lista  enorme,  para  aproveitar  Pavoroso    o  amigo   que
encomenTda pster. N bater o\ dizer que no cabe em mala  nenhuma,
: obrigado a trazer na mo. - - -  qual o problema de carregar? -
ou6 Nem sei como i diante da observao. Gari  horrvel  at  em
viagens curtas de  nibus,  como  de  a  Santos.  Quanto  mais  em
aeroportos, onde se deve che horas antes,  esperar  para  embarcar
etc., etc. Ser que. -i pensa que em vez de fazer compras eu quero
apro gem? Bem,: minha  me  dizia  que  pimenta  nos  olhos  ci  
refresco. A- frase mais terrvel certamente :  -  Voc  traz  que
depois a gente acerta. Por causa dela, cheguei a  dar  calote.  H
alguns produtora teatral me pediu para encontrar um diretort  York
e pegar um texto com ele. Pagaria as despesas, Esperei  no  hotel,
o homem no chegav. Eu  tinha  promisso,  sa  correndo.  Voltei,
encontrei o texto  e  t  a  conta.  Era  um  livro  car  fora  dos
catlogos. Yele para ele, no encontro. Ele liga de  volta,  deixa
recado. bei partindo' sem pagar. Foi a sorte. A produtora pegou  o
o, sorriu, agradeceu, disfarou e nem perguntou quanto Ou seja: eu
tambm no iria receber. Finalmente  aprendi.  Ao  desembarcar  em
Cumbica, fui ao  shop  tratar  das  encomendas.  Fiquei  uma  hora
escolhendo - res, chocolates, latinhas de pat, telefones sem fio.
Cheguei  perfumes.  De  todos,  s  no  havia  o  meu.   Senti-me
'tstiado. Estava l, camelando com as  compras,  e  para  mim  1?
Podem. me chamar de egosta. Abandonei o carrinho. Os amigos fazem
de tudo para transformar o  turista  em  s  contrabando.  Decidi:
encomendas, no mai Sei de gente ficar de nariz torcido.  Assumo:
odeio peregrinar    pelas  lo  ,carregar  malas,  esfalfar-me  nos
aeroports. Para muambei de luxo-, nunca tive vocao. 1 148 149 A
Praa NO FINAL DA ADOLESCNCIA, meu sonho era ser atot  pontas  no
teatro. O salrio era baixo, mas eu cumpria de todos os candidatos
a  astro.ia  religiosamente  ao  re  Gigetro,    onde  famosos   e
aspirantes se cruzavam. (Por Gigetto mantem ate hoje  a  tradio)
Eu pertencia a t couvert.  Espcime  que,  por  falta  de  fundos,
contentavj filar o cuvert  alheio. Puxava uma cadeira e me  mesas
lotadas Tomava no m um refrigerante S azeitonas e pedaos  de  po
com manteiga. Tips com comuns A ponto de, em  certa  epoca,    o
Piolin, outra aspirantes a ator, exigir que pelo menos  alguem  na
mes se um prato. Entrava no  restaurante  e  espreitava  mesa  at
achar algum conhecido com emprego  suficiente mendar um  frango  a
passarinho. As horas  passavam,  c  gas  conversas  sobre  testes,
espetculos a ser  montados  e  stavam  procurando  um  magricela
loirinho  e to mo to de ser capaz de cair  do  palc&  Havia  um
problema de horario Invariavelmente, a da "classe teatral"  ia  ao
restaurante depois dos espetL. morava  no  bairro  da  Lapa,  e  o
nibus parava  meia-nq voltar  a circular ao amanhecer. Eram bons
tempos. P ao menos. Embora  no  certamente  para  meus  pais,  qu
descabelados, olhando a cada quinze minutos pela jair -  No  veio
ainda - murmurava minha me. - J est na hora dele tomar jeito! -
rosnava m 150 Se no pinta' nenhuma festa, s havia uma maneira de
ir em casa. Ficar conversando at o amanhecer. Eu e meus igos a p
como eu, caminhvamos pela ruas, batendo  papo.  casal  de  amigos
vivia em uma quitinete da rua Caio Prado. a comum  receberem  meia
dzia  de  visitantes  s  duas  da  i1i.  Acordavam  e   ficavam
conversando at o sol raiar.  Ou  s  acomodvamos  no  cho,  para
esperar o fim da madrugada. quando no ramos impedidos de  entrar
pelo port do que fiscalizava o excesso de baguna. Mas, na maioria
das  noites,  andvamos.  No  bebamos,    pode    parecer.    S
caminhvamos, falando sobre a vida, Los, arte, prjetos. Ou  sobre
a alhei porque ningum . ferro. Lembro especialmente de uma  noite
em que, junto um amigo, Candido, sentei em um banco  da  praa  da
pblica. Absolutamente vazia. A no ser por uns patos que  arn  no
laguinho. Cndido no era ator, mas adorava a    noi  Viviaem  uma
penso no raio que o parta. A famlia, do rior. Esperava a deciso
de um inventrio. Nunca mais o  s  vezes  tento  imaginar  o  que
aconteceu com ele.  Soube, anos, que a tal forttna saiu. J  uma
vantagem. Passamos  a  te  batendo  papo  naquele  banco.  Ele  se
lamentava. Acabara omper com a namorada, trocado por  um    baiano
que ela cera no carnaval em Salvador. Falamos longamente  so  :  a
vida. s vezes passava algum, nos olhava. Ou at cum  mentava  de
longe, e continuava seu caminho.  O dia ama- eceu, e nem  sentimos
o tempo passar. Ainda fomos tomar a mdia com po e manteiga.  Fui
ao ponto, peguei o ni Quase dormi no banco, mas cheguei  em  casa
leve, aps a boa noite de conversa. " por uma dessas coincidncias
da vida, moro em um  itamento  que  d  frente  para  a  praa  da
Repblica. Patinhos lago, nem pensar. No resistiriam mais de meia
hora,  at n levados, depenados e assados. Quando quero atravessar
a 151 Palavrinha Perigosa 1 UMA  AMIGA,  dona  de  um  antiqurio.
Detalhe: ela mora te de cim da loja. Para  minha-surpresa,  nesse
sbado, da tarde, parece haver uma festa ho ptio. Vrias  pessoas
n cerveja  e  comem  bolinhos  de  bacalhau,  fritos  por  uma  ra
portuguesa, vizinha da loja. Um rapaz  faz  drinques  e  s.  Minha
amiga se. apressa a me receber. - Aceita uma cerveja?  Ou  prefre
um suco? .  claro. Um suco geladinho, delicioso. Como ai bolinhos
de bacalhau. Entro no papo. Dali a algum tem  solvo  me  despedir.
Sorrio, grato pela tarde deliciosa. Bem, vou indo... iediatamente,
eia saca um bloquiiiho, a caneta, e comea r as contas.  -  Deixa
ver. Voc tomou um suco. ou foram dois? Quan ,linhos de  bacalhau?
i senhora portuguesa grita: - Seis! Ele comeu  seis!  m,  eu  comi
seis pensando qu  fosse  de  graa!  Arranco  i  notas  do  bolso,
desenxabido reebe, feliz da vida. -  Volte  sbado  que  vem.  -o
drama da palavra "aceita". Ah,  palavrinha  perigosa!  onheci  uma
jovem que  veio  do  interior  estudar.  Vida  di-  riflorando  em
pensionato. Um dia resolveu fazer uma    ex  cia.  Saiu  com  umas
amigas, estudantes como ela, para praa, evito passar por cima. Pr
ir por baixo, do metr, qu  mais seguro. Outro dia  estava  com4
nho, pronto  para  voltar    superfcie  pela  escada  roI  rapaz
aproximou-se,  clocado. - Fui cercado por seis  pivetes.  Queriam
nem sei como estou aqu Meu vizinho recuou, com medo. Eu ainda con:
rapaz s queria desabafar, ainda tremia. O sndico  dio  participa
de um grupo que tenta fazer tal chi  na  pi  gente  vai,  mas  ele
insiste a duras penas. H suj( coisa  pesada  no  ar.  Nunca  mais
sentei em um ba mesmo de dia. Juro, tenho saudade daquele tempo em
que fic sando na praa podia ser uma coisa normal. No  s  conheo
ningum capaz de cometer a ousadia de praa, mesmo em  um  bairro,
e  passar  a  noite  baten  Parece  que  o  centro,   com    tanto
policiamento,  ainda  mais  seguro.  Pois  em    muitos    bairros
assaltam-se ati inteiros. Havia  menos  linhas  denibus.    Menos
proje daquilo. Mas o laguinho podia ter  patos.  Sinto  qu  perdi
alguma coisa essencial. Hoje, tei apartamento, carro. No  preciso
esperar o horrio d. Mas, no  fundo,  sou  proprietrio  de  muito
menos.L,, era dono  da cidade. 152 153 jantar fora. Sentaram-se no
restaurante. Nenhuma rin rincia de cidade grande. Veio o  garom.
- Aceitam uma entrada? - Aceitamos! - Aceitam um vinho? - Oh, sim,
aceitamos! E foram aceitando. Certas de que  fipsse  uma  gei  que
ning estava falando em dinheiro. N o ti nal v ta.  Quase  morreram
de susto. Passaram ni Com com  po.  O  verbo  aceitar  acabou  se
tornando uma I de empurrar a mercadoria sem discutir  o  preo.  O
coi o garom ter ukrecido a carta de vinhos. Em tempos bicudos, as
coisas flcam ainda mais Recentemente ui ii casa d  um  amigo  ria
Vila N1adakn so. Mal entrei, ele lembrou. -  Ainda  no  dei  seu
presente de aniversrio! 1  :  Foi  para  dentro,,voltou  com  uma
caixinha de rua feitada com flores do tipo que detesto.  Sorriu  e
disse: - Que acha? Gosta? - ... linda! - Quer ficar  com  ela?  -
Cla Afinal, o que se diz diante de um  presente?  Mas  a  era  bem
assim. Saltitante, ele entrou no It1 \'o um pacote. - Este    seu
presente. - Ahnnn? Desembrulho uma camiseta atnito. Ele continua.
- Pela caixinha, vou fazer um preo especial!  E  manda  ver!  Que
ttica, hein? Como voltar arr por cima  sendo  uma  obra  assinada
pelo prprio? 1 )eu de atirar  a  caixinha  na  cabea  dele.  Uma
amiga, que mora em um baifro de classe mdia tra cional da cidade,
anda apavorada. Diante da crise que asso as melhores  famlias,  a
maioria das vizinhas partiu  para CIOS domsticos. Uma faz massas
em casa. Outra, doces bolos. As visitas amigveis  de  antigamente
transformaram m armadilhas. - No quer  levar  uma  lasanha  para
casa? 'A ingnua caiu na conversa algumas vezes.  Logo  depois  de
bru1hada a massa, u a bandeja de docinhos, vinha o -Mas... mas...
Nos bons tempos, bastava devolver o prato com outra jodice.  Minha
amiga desenvolveu uma ttica. - Estou de regime. Ninguem acredita,
e claro Continua gordissima Mas com .1ihheiro no bolse.  Eu  optei
pela franqueza - No aceito no. Mas est to  gostoso.  /  -  No
quero, no quero e no quero! Vou acabar passando por mal-educado.
Mas do jeito que oisas vo, ficou perigoso aceitar at presente de
aniversrio. 155 154 Vtima das EmbaIa ENTRO NO  CHUVEIRO.  Relaxo
na gua quentinha. Pei pu.  novo. Tento virar a tampa. No  cede.
Aproxi olhos mopes.- Est envolta em um plstico duro, tmr  Puxo.
Minhas  unhas curtas  resvalam.  A  batalha  d  instantes.  Minhas
investidas no produzem resukad nho cabelos oleosos. Sem  um  bom
xampu, fico tb quanto um tapete de pele de    carneiro.  Ataco  a
tanv - das. Meus dentes rangem. Mal arranco uma lasquinha.: pu cai
da minha mo. Abaixo-me. Tropeo. Caio  frasco  continua  invicto.
Recentemente, tambm fui vtima  de  uma  lata  d  -  figado.  Era
daquele tipo que vem com uma chavin1ii do    enrolar  a  chavinha
beni devagar em  torno  do;  que  a  parte    de  cima  se  solte.
Teoricamente. Como s quei com a chavinha intil numa mo  ea  lata
fecha tra. Os amigos bebiam cerveja na  sala.  Quis  enfiar  a  de
novo. Impossvel.  Tentei com o abridor.  No  havi  para  apoiar.
Peguei uma faca e um martelo. Fui lata pela parte de cima.  Cavava
um buraco, em segui do lado, e assim por diante. Quando  achei que
dava, pui Mas a lata, cheia  de  pontas  metlicas,  bateu  na  mi
Espalhei pat pelo piso. Eu me cortei. Um cortezin mas  corte.  Os
amigs vieram correndo. Falaram  pronto-socorro. Jurei nunca  mais
comprar pat de 1 chavinha. f rascos, latas  e  semelhantes  levam
qualquer ser  humano  a  da  loucura.  Remdios  e  vitaminas  so
hors-concours. S  )yam  uma  coisa:  quem  onseguir  abrir  est
perfeitamente .vel. As aspirinas tm vindo com uma t na qual h  a
setinha minscula em relevo. A tal setinha tem de encaj  tom outra
marquinha. Algo to minucioso quanto abrir um  e  sem  o  segredo.
Para quem est estalando de dor de cabe uma. delcia. Alguns sucos
vm em embalagens de  papeln um recorte picotado.  "Aperte  aqui"
diz um aviso. Ap io acontece nada. Depois de inmeras  tentativas,
arrebento apelo no lugar errado. O suco esguicha  para    o  copo
pelo : Um horror. : Engoli derrotas at de embalagens de  produtos
de limpeza. umas vm com uma tampa  simples.  Aberta,  descobre-se
uma tampa O lugar onde devia haver um furinho esta tapado plstico
resistente. Tudo bem. E uma medida natural do . para impedir que o
detergente alague o caminho de  rega. Mas  a  tampa    planejada
numa medida tal que nada segue fazer o furihho. A ponta das  facas
no penetra. Nem La tesoura de cozinha.  Tento  com  um  garfo.  A
dimenso   ita. Quase consigo. Empurro um dente do garfo no  plas
. Entorta para o lado, mas  no  faz  o  furinho.  Fico  com  o  o
destrudo e a embalagem fechada. Paro  alguns  segundos.    mo  um
caf. Cravo 'chaves de fenda de tamanhos  variados.  khuma  serve.
Lembro-me db  abridorde  vinhos.  Tenho  um  erchique,  de  design
italiano, que reservo para os dias  de vi L:  Quase  acabo  com  o
abridor, mas consigo. Furinho feito, ilavar os pratos.  Espremo  a
embalagem e o produto sai por ks os lados.  As  vrias  tentativas
criarai  pequenas aberturas. Irra at no armrio da cozinha. Minha
orella  fica  cheia  de  ,ente.  Estou  consciente  de  que    os
fabricantes  tm  slidas  razes  -me  torturar  dessa   maneira.
Proteger o produto  uma de- 156 157  las.  Impedir  que  crianas
abram frascos indevidos  ot se  ltimo  caso,  trata-se  de  pura
iluso.  Petiscos  em  sa  metlicos  indevassveis  e  bugigangas
eletrnicas trem  meninada. Para minha  humilhao,  qualquer  gar
uma  embalagem  complexa  em  segundos.  Eu  me  sinto  fosse   um
aliengena,  ,  no  adaptado'  para  conviver    progressos    da
civilizao.  Tenho saudade das embala- passado. Quando bastava  u
puco de firmeza para toti pas ou usar o abridor de  latas  Fora,
so para estourar da garrafa de champanhe. Mas,  a, sempre valia a
pena, 1 da comemorao / A Vida  4. Falsa ou EM UMA CHUR1 Termino
de devorar peda variados de alcatra, de picanha, de costela. Sinto
um peda uho de carne infiltrado entre meus dentes. Tento  arrancar
com  ngua, de leve. Intil. Aspiro. Um rudo sa  da  minha  boca.
eeeeee! Os cmpanheirs de mesa levantam os olhos. Es-  o  a  mo
para  pegar  o  paliteiro.  Sim,  em  churrascarias  ain   existem
paliteiros. Nos restaurantes mais finos,  eles vm icapsulados. Ou
nem mesmo so colocados na mesa. Agarro m palito. A moa na  minha
frente me olha horrorizada.  Lem  o-me  de  todos  os  manuais  de
etiqueta E  proibido  palitar  os  rentes  em  publico  No  maximo
pode-se palitar trancado no  talete,  como  se  fosse  um  segredo
inconfessvel. Abandon o ahto na mesa Em seguida, penso  Por que e
proibido palitar dentes?" No h motivo lgico para  tornar  o  to
to vergonhoso. nflo o palito nos dentes, sob o olhar constrangido
da mesa. rrio, deliciado. Existe coisa melhor do que palitar    os
dentes uma refeio? Dizem que  feio fazer isso, fazer aquilo. J
no sei. Outro a estava andando no condomnio. Um cachorrinho saiu
de casa, correu, mordeu e rasgou, minha cala. A moa -  )r  sinal
veterinria, como soube depois -, em vez dc per Intar se eu  stava
'machucado, gritou,  furiosa.  Desculpa.  Rasgou  minha  cala!  -
respondi. 158 159 O que voc quer  que  eu  faa,  j  pedi  descu
revidou a dama. Exigi uma cala nova. No s por  ser  do  'meu  4
pela atitude dela, que nem se preocupou em saber se  ferido.  Dias
depois, insisti em receber a cala. Um air ceu o    nariz.  -  Mas
pode parecer mesq4inharia. -  E  da  se  estou  sendo  mesquinho?
respondi..  feio exigir o que  justo? - Acontece sempre. Basta a
gente pedir alguma co do nosso direito, e que envolve uma  pequena
receber cara feia. Quantas vezes,  em  restaurantes,  so  das  as
moedas,  ou as notas mais baixas? Sem nenhuma o. Outro  dia,  no
shopping D&D, paguei o estacio De troco, um real. O raipaz nem  se
mexeu. Foi pre - Pode me dar o troco, fz favor? Atirou a nota nos
meus dedos, domo se eu  fosse  un  H  uma  infinidade  de  coisas
banidas da vida soci frango com a mo, por  exemplo.    delicioso
agarrar com as mos! As regras de etiqueta at permitem, mas  tein
coragem.  Ficam cortando pedacinhos com a fica,  o  osso  rola  no
prato. E chupar o tutano? Quem no sabe o  que  est  perd    uma
delcia. J me - Voc vai ficar com a boca lambuzada. -  Lambuzou,
lavou! - respondo. Na trilha do frango, vai  a  manga.  Cravar  os
roo de uma manga bem madura  inesquecvel. To do serve  a  fruta
cortadinha. Existem frutas que. nem s das diante de    convidados.
Jaca, por exemplo. Impos mer jaca  de  garfo  e  faca.  Resultado:
ningum mais Tem gente que acha feio at comer sanduche com a  -i
recebi muitos olhares  de acusao ao agarrar um cheesd e meter os
dentes, enquanto a pessoa na minha fren pedacnhoS. So tantas  as
falsidades que j nem sei como comporta Outro dia cheguei a  uffia
festa  de  aniversrio  ,ergUfltei  alegre.  -  Quantos  anos?   A
aniversariante virou a cara. Na hora do bolo, s uma  vela  tria.
Acabei  comentando:  -  .  Se  ela  botasse  todas  as   velinhas,
provocaria um incndio! : Quase fui expulso. Algum  me  responda:
como dar festa de aniversrio sem ie perguntem  a  idade?.  J  me
conformei. Se  para deixar de ser espontneo, prefi p chamado  de
mal-educado. Pelo menos a vida se roma js confortvel. 160  161  O
Cardpio do Med HORADO ALMOO.  minha frente, um prato de  frair
lhado com berinjela  milanesa. Minha barriga cantai  dade.  Penso
melhor. Deveria, sair correndo. Segundo. nada pior  do que a  pele
do frango.  um depsito de rol. E tambm a  parte  mais  gostosa.
Puxai O colest produzir um sabor delicioso. Tudo que  bom tem  c
as pampas, como  torresmo    e  gema  de  ovo  frito  Suspiro  no
inventaram o colesterol diet Retiro  a  pelezinha  E  em  si?  Uma
reportagem na. televis revelou que os podem  estar  contaminados
com  hormnios capazes de) zir doenas pavorosas.  A  berinjela  
milanesa tambm inocente. A fritura vai  poluir  minhas.  ar  Pego
unia. com casca. Quem garante  ter  sido    devidament  est  Entre
outros mimos,  pode  d  clera.  Tornou-se'complicado  comer.  Meu
acupunturista - O bom  ter sempre peixe  na  mesa.  Eu  gosto  de
peixe. De frutos do mar tambm, m maro (justamente o camaro!)  
um poo de colest peixes seriam totalmente inocentes. Seriam. Uma
ami dica  avisou:  Com  a  poluio,  os  peixes  tm  excesso  de
Pergosissimo' Sempre achei queijo saudvel. Ledo engano.  So  ds
viles, devido ao ndice de gordura. Pior, mesmo, s  1  guer  com
bacon e maionese. E como sobreviver sem ni 162 me de leite, queijo
parmeso? Aconselho-me novamente com - - Evite o leite comum. Tome
bastante leite de soja e coma Bem, uma vida  base de tofi no  
exatamente uma verso   paraso.  Abro  uma  revista.  Um  mdico
explica como tirar o te da dieta  perigoso. - Soja no  leite  -
adverte. Estari arriscado  vrias doenas decorrentes  da  Jalta
de ,Jcio, se evitar o leite. Entre la osteoporose,  artrite.  Ah,
se  pelo  menos  eles  concordassem  entre  si!  Adoro  sal.   Sou
aconselhado a evitar. Pode causar hiper lSao. /  -  Minha  presso
sempre  foi  tima!  -  tento  me  defender.  O  amigo  com   quem
converso_abana a abea, cautelso. -  melhor prevenir. - Termina
explicando - A melhor dieta  a  vegetariana.  Quando  me  v  com
nariz mergulhado em um prato de as de alface, outro amigo adverte:
- - As verduras esto contaminadas por agrotxicos. - E o que devo
comer, grama?. Existem fazendas especializadas em produzir  frutas
e legu es sem agrotxicos. Vou  feira do Parque da gua.  Branca,
onhecidssima entre quem gosta  de  comida  natural.    Vejo  umas
nouras  mirradinhas.  So  elas.  Comeo  a  me  conformar  com  r
existncia  base de sopa de verduras e queijo de soja.  Mas...  O
ideal    tomar  um  clice  de  vinho  por  dia  -  aconse  la  o
cardiologista. - No  melhor virar a garrafa inteira de uma  vez?
- teresso< Ele erge as sobrancelhas: Uni clice,  como  se  fosse
remdio. 163 Tomar vinho como remdio? J perdeu a graa!  Acar,
nem pensar. Dizem ser a raiz de todos " Tudo, absolutamente  tudo,
tem uma porcentagem d,. D  vontade  de  chorar.  O  sorvete  mais
inocente  uru  rL,  pedao    de  mil-folhas,  uma  tentativa  de
suicdio!  Rebelo-me.  Tornou-se  impossvel  comer  qualquer  uma
advertncia mdica. Tentei me refestelar na comi Avisaram-me de ue
nem sempre  to light assi Re feliz. Encho  o carrinho com caixas
e caixas de bom Em casa; abro o primeiro. Uma linda trufa de c  Ao
mesmo tenipo leio uma, reportagem. DescobriraT chocolate  reduz  o
colesterol! Vitria! Encho a boca c. bons! Finalmente    posso  me
fartar em paz! At,  dar nova descoberta aterrorizante! Esplendor
em Runas OU UM OTIMISTA. Acho que o  paulistano  tem  vontade  de
viver ruma cidade bonita. O entusiasmo  maior  agora,  com  a  mu
rna na prefeitura. Mas, entra ano, sai ano,  eu  vejo  constru  s
interessantes transformarem-se em runas. E yie pergunto:  quando?
Cada cas antiga que cai  um pedao do passado e desaparee.  No
estou falando em critrios tcnicos. Tal ez para  mlm  seja  linda
uma c que no receba  nenhum    aval  .o  monumento  importa  Isso
aconteceu com a  antiga  e  demolida)  manso  dos  Matarazzo,  na
avenida Paiilsta. Li v-  as  reportagens  em.  que,  criteriosos
profissionais  afirmavam que  a  no  tinha  valor  arquitetnico.
Nunca entendi essa opinio uramente  tcnica.  Era  um  beli'ssimo
palacete, que remetia  o Paulo antiga. e guardava  um  pouco  de
histria em cada um de seus tijolos. Ho  estacionamento. O que  
melhor? O palacete ou o estacionamento?  Tenho  um  amor  especial
pela Vila Itoror, na rua Marti iiano de Carvalho. Inaugurada  nos
anos 20, abrigou a primei ra piscina pblica da cidade. Quem v de
perto  fica surpreso. rguida em um barranco, possui vrios andares
sustentados por Colunas altssimas. Uma esttua de ferro da  deusa
da p e enfeita a entrada da casa ao  nvel da rua. Dois lees guar
Lavam a entrada. Guardavam. No     toa  que  usei  o  verbo  no
passado. Passei em frente um dia desses, um dos lees estava cacos
no cho. Em torno existe um belo onjunto de casas Litigas. A  vila
converteu-se, h dcadas, em um grande corti  164 165  o.  T  na
frente. Nem sei se est tombada. Ma ver, de que  adianta,  se  vai
acabar como entulho? No  o nico monumento abandonado, mas  sit
Eu me pergunto: por que. tantos governos preferem  co  centros  de
concreto, como o causticante Memorial da ca Latina,    em  vez  de
recuperar o que j existe? Recen  procurei  fazer  um  contato  no
governo estadual, por c uri antigo colgio japons.   uma  grande
casa em es tal, construida   no  inicio  do  seculo  passado  para
abrigar grantes japoneses. Ficaram de me procurar  para  que  mais
detalhes e a localizao Ha meses Ninguem ii lou comigo. E o  cast
da  So  Joo?  Foi  cedido  de  uma  instituio.  Continua    em
decadncia: Se pc tal selo de valor arquitetnico, no sei. Mas  
uma guiai, com identidade. Vale a pena   deixar  que  um,  terreno
baldio? Nem tudo est perdido. Conheo o dono de um de porte mdio
que, ao buscar uma sede para sua empres uma otima  idia  Resolveu
comprar uma casa tombada mente por serem  tombadas;  essas,  casas
acabam ten4o ui de mercado menor, embora s  vezes  a  localizao
seja e, te.  Como  a  idia-padro  do  empresrio  comum    comp
demolir, u revender   pelo  triplo,  boa  parte  delas  te  cando
abandonada Meu amig editor comprou a pertenceu ao arquiteto Ramos
de Azevedo na LiberdaTd 5.000 metros quadrados de  terreno,    com
jatdim, ccht lhado de ardsia,  grades  de  ferro  batido.  Mesmo
locaIi agitad bairro da Liberdade, quando entrei tive a imprc que
estava fora da cidade. Passarinhos  cantavam. Um bd dim.  rvores.
Restaurada,  ficou  lindssima,  confortv  funcionrios    sentem
orgulho em trabalhar em um lu No acredito que se  deva  largar  o
corpo  espera de solu es que venham da prefeitura ou do governo,
embora  sua  atua  o  seja  fundamental.  Mas  quantos  casares,
colgios,  prdios jnaravilhosos no se encontram a ponto de virar
runas? Se o ulistano est realmente interessado em viver  em  uma
cidade itais agradvel,  preciso no perder mais  tempo  e  tomar
cofls- ncia do que ainda pode ser  salvo!  (  167  agradvel.  166
certo. Pequenas Wtudes ACENO  DESESPERADAMENTE  para  um  txi.  
final  Estou  prximo  da  avenida  da   Liberdade.    Tenho    os
brecarregados com  vrios  pacotes,  contendo  quimon  de  feijo,
molhode  soja, peixes secos e outros quit tais. O carro estaciona.
Atiro tudo no banco de, trs e da frente. Dou o endereo. O melhor
caminho seria da; Ele  entra    direita.    Suspiro.  Decido  no
reclamar discutir e descer no trnsito  catico,  com  aquela  tra
Sinto raiva. Para minha surpresa, ao entrar na avenic - torista se
surpreende. - - Pensei que pudesse virar aqu. Eu  me  confundE  -
Tudo bem respondo, mal-humorado.  Ele  desliga  o  taxmetro.  No
entendb. - Que aconteceu? - Eu errei o caminho. O senhor s paga a
partirc Protestei. Ele insistiu. A situao se inverteu: eu 1 para
pagar, ele dizendo que no. Rodou vrios  quartei  gou  exatamente
onde estaria se tivesse entrado  esque   direita. Quando  desci,
ainda me ajudou a carregar os-j Estou surpreso at agora. Conservo
tambm uma sensao de bem-estar. Verti dita.  Algo  de  bom  anda
acontecendo. Ainda ouo his pessoas que desembarcam na  rodoviria
e caem nas. motoristas  desonestos, capazes de rodar horas a fio p
a.  passageiro.  Mas  a  categoria  dos  taxistas  tem  melhorado.
tralnente pego um que queira inventar caminho. Lembro hoje  de  um
txi que tomei, na poca das compras    de  Natal,  pjucos  anos.
Quando cheguei, o motorista queria bem  mais  ,  que  o  valor  da
corrida. Brigou porque eu estava cheio de  -icotes  e  me  ameaou
quando me recusei a pagar o e Ul mente, no tenho visto  acontecer
esse tipo de  coisa.  A  nestidade  parece  despontar  em  lugares
inesperados. Recen atente, estava na fila do caixa de  uma  grande
locadora.   jnha  frente,  um  cliente  mostrou  dois  filmes  ao
atendente. 'Ll a opinio. O rapaz foi sincero. - Este aqui  muito
ruim. E Seguiu-se uma pequena conversa. Ao final o  cliente  levou
video Era o gnero que desejava Podem argumentar que a lora treina
seus caixas. Mas em outra, muito menor, sem me aconteceu o  mesmo.
Clod, misto de gerente, caixa e pervisor artstico, me  advertia:
- Muito chato Este e melhor  Nem  sempre  o  meu  gosto  artstico
coincidia. Clod tinha n fraco poi filmes de  ao.  Muitas  vezes
acabei diante de etralhadoras enfurecidas, agentes  de  espionagem
rodopiando n carros, serial killers esfaqueando dona  em  cozinhas
nicas. A inteno, porm,  o que conta.  Esses  peque  toques  de
honestidade tornam a vida  melhor.  -:  Restaurantes  costumam  me
irritar com a questo do troco. ta pagar em dinheiro para  que  as
moedas nunca  cheguem    e  Muitos  desenvolvem  um  conjunto  de
pequenas  mesqui ras para o  cliente  gastar  mais.  Como  cobrar
carssimo pelo vert e enviar uns pats saf acompanhando rodelas de
po. a desses fui com meu amigo publicitrio    Joo  Paulo  a  um
restaurante asitico, na regio dos Jardins. A  dona    uma  i1ta
ex-modelo. Veio at a mesa  e  perguntQu  o  qI  hava  t  pedido.
Arregalou os olhos: 168 169 - E muita comida Cada  prato  da  para
dois  Como  dois  gordos  gulosos,  insistimos.  Comemos  de   ter
dificuldade em levantar da mesa. Tarnbm j  ouvi,  numa  loja  de
sapatos do  Eldorad  o  conselho  de  uma  humilde  yendedora,  qu
velmente vive de comisso -  Esse  model  no  fica  bem  para  o
senhor. D -- Era verdade. Meus ps pequenos ficavam menore j so.
Naquele dia no comprei nada. sempre qu  de  um  sapat,  apareo.
Vivo me defendendo das deson do cotidiano.   Por  isso  dou  tanta
importncia s peqie tudes. Apesar da violncia e dos  tempos  to
difceis,, o no est aprendendo. a ser um  cidado  melhpr.  '  ..
Ser que sou bobo? .  Ando  perdido  em  uma  selva  de  palavras.
Existem destinados a -dar a impresso de que algo no  exatal que
.  Ou  para  botar  verniz  sobre  uma  atividade.   to,    sim,
incorporados no  vocabulrio  Servem  para  impresso  enganosa  E
tambem  para  ajudar  as-pessoas  inteligentes  e  chiques  porque
parecem dificeis Resolvi dar algumas dessas    armadilhas  verbais
Seminovo - J no se fala em carro usado, a  seminovo.  Vendedores
adoram. O termo sugere que.o  to velho assim, mesmo que se trate
de uma Bras motor. Ou que o cmbio  saia na  mo  do  comprador  1
pois da primeira curva.  pura tcnica  de  vendas.  Vou  lo  para
elogiar uma amiga que fez  phustica.  Talvez  ela  adcu  que  est
"seminova".  Mas talvez... Saie -  a boa e velha  liquidao.  As
lo dos sh devem achar liquidao muito chula. Anunciam em ir quer
dizer que o estoque encalhou. A g est liqui N se envergonhe  de
pedir mais descontos. Pode sr 4 seja chique, mas aproveite.  Loft
Quando  o  lofi  surgiu,  nos  Estados  Unidos,  era  uma  ioradia
instalada em  antigos  galpes  industriais.  Sempre  enor  e  sem
paredes divisrias Vejo anncios de' lofis  a torto e a  jeito.  A
maioria corresponde a um antigo conjugado. S no tem paredes para
lembrar seu similar americano.  preciso ser mpreensivo.  Qualquer
um prefere dizer que est morando  ni  um  lofi  a  dizer  em  uma
quitinete de luxo. C'ult - No agento mais ouvir falar que alguma
porcaria, cult. O cult  o brega que ganhou status. O negcio   o
se unte: um bando de intelectuais adora assistir  a filmes de  ter
ceira, programas de televiso  populares  e  afins.  Mas  um  inte
lectual no pode revelar que gosta de algo  considerado  brega.  o
diz que  cult. Assim, se pode divertir com bobagens, mo  qualquer
ser humano normal,  sem  deixar  de  parecer  in  teligente.  Como
conceito, prximo do cult est o  trash.  o lixo Dgiado. Trash  
muito usado'para filmes de terror. Um can o a  intelectual  jamais
confessa que no perde  um  episdio  srie  Sexta-Feira  13,  por
exemplo. Ergue o nariz    e  diz  que  trash.  Depois,  agarra  um
saquinho de pipoca, senta na pri meira fila e grita a cada vez que
o Jason ergue o machado. .. Workshop -    uma  espcie  de  curso
intensivo.  Existem os  bons.  Mas  o  termo  se  presta  a  muita
empulhao. Pois, ao con dos cursos, no  workshop  ningum  tem  a
obrigao de prender alguma coisa  especfica.  Basta  participar.
Muitas ve s botam um sujeito famoso  para  dar  palestras  durante
dois Lias, seguidos. H alunos que chegam a roncar na sala. Depois
3zem' bonito dizendo que participaram de um workshop  com  no  ou
beltrano. A palavra   imponente,  no  ?  Releitura  -  no  meio
artstico  ou  gastrnmico,  OnSegue  sobreviver  sem  usar  essa
palavra. Est em moda. Fala seem releitura de tiiido: de  msicas,
de receitas, de  livros. Em flria, releitura serve para falar  de
algum que achou uma eceita antiga e lhe  deu  um  toque  pessoal.
Crticos culinrips e 170  171  donos  de  restaurantes  badalados
adoram falar em carc releitura disso e daquilo. Ora, um cozinheiro
no bora pero at na  feijoada?  Isso    releitura?  Ento  minh
releitura  e no sabia, coitada,  O  caso  fica  mais  com  outras
reas. Fazer uma releitura de uma histi no  .  falta  de  idia?
Claro que existem casos e casos. Mas  qu  serve  para    disfarar
cpia e plgi, serve. Seria mais h "adaptado de..." ou "inspirado
em...", como  faziam  Daria  para  escrever  um  livro  inteiro  a
respeito. 1 piado quando algum vem com uma conversa abarto termos
como esses. Parece que vo me passar a culpa  minha, e   no  sou
capaz de entender a prof conversa.  Nessa  horas,  fico  pensando:
ser que sou tem gene esperta demais? Loucuras de Vero.    DUAS
MANTRAS DE conhecer b uma pessoa. A primeira casar. A  segunda  
viajar junto. Ou pelo menos observr  seu  omportamnto  nas  fri
Todas as loucuras afloram    como  x*umelo.  Um  grupo  de  amigos
trintes alugou uma casa em amburi, no litoral norte. Arrumaram as
malas inundados de  idade.  Pretendiam  fortalecer  a  amizade  de
ans. Fizeram pras. Cada um. levou ainda petiscos variados. O mais
ma Irugador acordou com o canto do galo - sim,  no  litoral  norte
inda h galo cantando, embora  no se saiba por quanto tem o.  Fez
caf. Abriu a geladeira, repleta.  Escolheu  um  potinho  [  pat.
Passou no po e lhou  pela  janela  para  contemplar  a  atureza.
Mordeu.  O gosto era estranho. Nada que pudesse  [  Tentou  ler  a
embalagem, em ingls. -  alguma espcie de creme. Mas do  qu?  -
preocupou-se. Mordeu de novo. Ouviu-se um grito. Do alto da escada
'larcolino, um alto executivo, se desesperava:  Largue  meu  creme
rejuvenescedor!  Frmula  imjortada,  carssima.  O  outro   havia
passado qua e o pote todo- no po. Um  teve  dor  de  estmago.  O
outro, no bol Pior: a geladeira estava repleta  de  produtos    de
beleza, e a Comida, de fora. At camaro  estava  estragando.  Deu
briga. O vaidoso mudou-se para um hotel. Nem se falam mais.  Minha
amiga Lal  outra que sabe surpreender. Passou  meses  planjando
sua estada nas areias quentes. Quinze dias 172 173  antes  iniciou
um tratamento rejuvenescedor  bas retinico. Mal chegamos  praia
da Baleia, avisou: - No posso tomar sol. - E a praia? E o mar?  -
Estou gorda para pr mai; Passear na praia,s pu e protetor solar
45. Claro que no dia seguinte esqueceu chapu e   Quinze  minutos
depois estourou uma  bolha  no  ro.  correndo  antes  que  a  pele
derretesse como m um mes de terror.  noite  parecia um torresmo.
- Por que comear um tratamento  desses  jus  vero?  -  Voc  no
compreende - ela  rosnou  Quem  entende?  incrfvel  o  nmero  de
pessoas rem para a praia e passam o tempo todo se escondendo H um
lado do paulistano que s surge flQ vet torna,  por  assim  dizer,
mais... carioca! To correto em da, perde a exatido  nas  frias.
Como se o descompromi essencial  nas ferias. J no  suporto  mais
quando teleft - Olha, viemos  fazer  umas  compras,  depois  varnc
alguma coisa e ai a gente passa na sua casa Observo o sol la  fora
O mar deve estar uma delici ficar de planto? - Mais  ou  menos  a
que horas? - L pelas 4 ou 5. Talvez 6 ou 7. Suspiro  fundo.  Pego
um livro. Duas pginas depoi meo. Acordo com a noite escura  e  o
telefone chaman -  Oi,  tudo  bem?  O  restaurante  estava  cheio,
ficamos4 tos Voltamos para casa No vai dar mais para  passar  que
amanh de manh, l  pelas  10...  Comeo  a  rugir.  Meus  amigos
reclamam. Dizem qu mal-humorado. Mas h vantagens. Eu tambm me ti
quando vou ao litoral. Viro um  paranormal.  Minha  i  exacerbada,
principalmente no tocante  comida. Tenho ji-ia intuio  precisa.
Se vou visitar algum, chego sempre na a do almoo. Em  frias  os
hbitos mudam muito.  Mesmo im nunca perco  uma  vjsita.  Bato  na
porta .e sinto o aroma carne grelhada. Entro com  ar  surpres9.  -
1h... chegui na hora certa! As pessoas sorriem.  Na  praia  ficam
mais hospitaleiras. s es algum comenta: - Qualquer hora dessas a
gente precisa ir almoar na sua casa. Quase engasgo com uma  folha
de alface. , sim. A gente marca. Espeto o  garfo  numa  fatia  de
picanha e mudo de assunto. 'mo disse, nada melhor  para  conhecer
uma-  pessoa  do  que  -la  em  frias.  A  praia  faz    aflorar,
inevitavelmente, meu lado r 1 174 175 Pedestres   Vista!.  ESPERO
AO VOLANTE. O semforo parece demorar i nalmente, vem o  aqiarelo.
Engato a primeira.  Vira  de.  Boto  o  p  no  acelerador.  Nesse
instante, um sen}ic da calada para a  faixa,  correndo  com  uma
criana Breco ruidosamente. O carro de trs buzina, furioso. 1  re
para aproveitar o ltimo instante antes de os v a largada.  Mostro
a luz verde Olha-me como se um aliengena. Pior ainda, um ser  sem
corao, con sua pressa em atravessar aquela faixa. Coi do, sim. 
a mesma que eu tinha enquanto aguarc mforo. D vontade   de  sair
do carro e armar um barr; foi s a vida dela e a do filho que  ela
botou em risco vou me sentir se atropelar algum? At poderia  ser
aI nos tribunai& Mas  me sentiria  pssimo  pelo  resto  dai  novo
Cdigo de Trnsito tem ajudado a botar  os  mot  na  linha.  E  os
pedestres? J se falou em multar quem anda a  p.  Deve  ser  .ini
vel. O policial sairia correndo atrs da pessoa,  pegariat  ro  do
RG?  No  cruzamento  de  qualquer  grande  avenida,       loucura.
Vendedores, pedintes, bichos da universidade, buidores de folhetos
se atiram na frente dos carros coi mforo  fechado.  Quando  abre,
saem em debandada, 11    ve-se-quem-puder..  A  polcia  multa  os
carros. Nem lisa. quc v. Durante muitos anos morei  numa  chcara
prximo a Paulo. Pegava a Raposo Tavares todas as noites. A  maior
j,rcocupao que eu tinha era evitar as pessoas  qu atravessa yam
a estrada no escuro. Minha baixei velocidade  funcionava  como  um
deixa. Sempre algum corria na minha frente,  cru-  zando  para  o
outro lado. Dava  um frio na barriga! Detalhe isso  acontecia  nas
reas prximas a bairros onde existem passarelas.  Sei  muito  bem
que passarelas so desconfortveis. MaS melhor  orrer  risco  de
vida? - - Sair da garagem tambm no  fcil.  Outro  dia,  estava
dando r. Um casal correu por trs do. carro, como se no  pudesse
r um nico segi Brequei. Botei a cabea pra fora, amei: - - - Ei,
n6 que eu estava saindo? O rapaz revidou de cheia: - A rua   de
todos! Continuou vitorioso, como se tivesse conquist um cam onato.
Eu me pergunto: que pressa    essa?  O  que  ganham  esse  msero
segundo? Dia  desses  eu  estaciqnava  na  rua  Pamplona.  Subida.
Trfego intenso. No exato momento em  que  embiquei  na  vaga,  um
sujeito surgiu na traseira.  Enfiei o no breque. O  motor  morreu.
Um carro que descia quase levou minha  dianteira.  Xingaram  minha
me. O responsvel nem notou o barulho. Continuou  adiante,  feliz
da vida. Mui tas  vezes,  ao  embicar  numa  garagem  em  caladas
movime - vejo um batalho se atirar no espao mnimo entre o  pra
choque e  entrada. Um  amigo  me  aconselhou:  Voc    tonto.  O
negcio  acelerar, que eles saem  cor  rendo  Sei  que  funciona.
Tambm ando a p. J vi atirarem carros in cima dos pedestres. Mas
que  issO, uma selva? O motorista 176 177 Guerreiros dos  Malotes
QUATRO HORAS DA TARDE. Estou subindo a avenida Reboas   observo
a montanha de carros  minha frente. Trnsito  lento.  Lentssimo.
Ouo msica. De repente, sint  uma pancada no  carro  Um  motoboy
acaba de arrasar com meu espelho Nem  se  digna  olhar  para  tras
Continua ondulando por entre os car ros paralisados Da vontade  de
descer e persegui-lo  No seria nem para  reclamar  o  espelho  de
volta Mas para exigir respeito No min um pedido de desculpas Tarde
demais Ele esta i longe. Eu, sem retrovisor.  Ja  sei  Vo  acabar
dizendo que tenho obsesso pelos pra- de trnsito. Que  durmo  pen
em semforos, assim como tenho pesadelos com  minha  barriga  Pode
ser Ando louco com os motoboys Nada mais pratico do que usar  moto
numa - cidade como a  nossa  Motobo  so  uma  categoria  a  parte
-Encolhem-se para passar--entre os carros, atravessam as  ruas  em
diagonal Pintura raspada e detalhe sem importncia Outro  dia  uma
amiga conversava comigo de janela   aberta,  o  brao  para  fora.
Ouviu um barulhinho, instintivarnente puxou o brao. Por  m  triz
no perdeu o cotovelo. - Ei! Toma cuidado! - gritou. Com  sempre,
o rapaz nem diminuiu a velocidade para -- confe -  -  -  Quando  o
trnsito flui, tambm no  fcil. As motos pa  -recem  surgir  do
nada.- Cortam pela direita, atravessam na fren 179 Sempre ViSto  C
agressor. O pedestre. como vtin hindo, no fimdinho, isso cheira 
velha viso da lura c_ - (.) rico, que tem carro,  o malfeitor. (
) pobre pedestre,  iiia. No e por possuir um automvel que algum
d encarado como um seri kif/er. Bem que est  ria  hora  pedestres
darem a contrapartida, tornando i vida m pOtico nienos   selvagem.
1T'S te, empinam para a  esquerda.  Sair  no  Itaim-Bibi  noite  
arriscadssimo.  O  motivo:  a  mar  de  motoboys  gando  pizzas.
Paulistano que se preza adora uma pizza a  mingos    O  Itaim-Bibi
possui urtia das maiores conc de devoradores de pizza do  planeta.
Pelo menos  o contou um morador do bairro.  uma correria  total,
ii as pizzas cheguem  quentinhas. Enquanto isso, os tr correm para
no ser atropelados pelas cajabresas, marg&  mussarelas.    vezes
ocorrem tragdias.  A  famlia  senta-se  os  estmagos  ronronam.
Abre-se a caixa. O presunto d portuguesa rlou sobre a meia  mu  A
famiha pass do jantar arrumando o presunto e capturando as azeioj
pretas que se espalharam pela    tampa  toda.  Motoboys  tm  seus
truques Um deles me explicou..  -  E  mole  cortar  nibus  Presto
ar-eno ao motor baixinho, e que ainda est pegando passageiro, e
eu e cima. -Se o barulho  aumenta,  danou-se!  Bela  filosofia  de
vida, no? Um amigo;teve cap atingido  por  um  apres  Desceu  do
carro pronto para pegar o nmero da  chapa  ocorrncia.  Todos  os
motoboys que passavam por perto ram a pressa. Pararam.  em  torno,
ameaadores. Unidos.. - Que foi a? O motorista passou de vtima a
agressor. Em cinco  :  dos  a  histria  era  outra.  Comearam  a
ameaar.  refugiou-se  no-  carro,  antes  que  apanhasse.    uma
profisso sofrida. No se ganha muito, trabi no sol  e  na  chuva.
Existe uma complacncia a resp assunto, devido  questo social. O
que seiucra com isso. eles,  defendem-se como  se  pertencessem  a
uma tribo ra. Dirigir moto parece despertar esse tipo de reao  O
se sente cavalgando um corcel rabe pelas duias do deser o. Mesmo
que esteja apenas entregando um malote  de  buro  crticas  cartas
comerciais. Por baixo do capacete  vive  um  '  tuaregue.  Um  bed
prestes a erfrentar a guarda do sulto e resgatar uma odalisca  do
harm Mas e eu, como fico? S6 quero sair  de  um  lugar  e  chegar
inteiro a outro. Meu sonho e' dirigir s ter  um  infarto  em  cada
cruzamento. A salvo dos guerreiros  dos  malotes.  -.  180  181  A
Sereia e o -Mergulhadl. AMOR PELA INTERNET? Nada mais  comum  hoje
em d Ryan e Tom Hanks no se conheceram assim em  para  Voc?  Por
que eu no posso ter a mesma sorte? T dar de cara (ou melhor,   de
teclas) com Meg Ryan' Rc Julieta no se amaram em  uma  sacada  de
pedra? Mu confortvel descobrir a alma gmea numa cadeira m  mendo
batatinhas fritas e entrando  nas  salas  de  bate  internet  Ouvi
historias Uma jovem casou-se dessa forma um alemo. S se viram em
Berlim, um ano depois do ro contato. Mandou um  postal  com  letra
trmula, dizen estava muito feliz, embora nunca mais tenha enviado
ma outra notcia.  Como  conhecer  algum  numa  cidi'  todos  so
annims? Certa moa foi  luta pela internet cou  o  amor  sob  o
pseudnimo  de  "Gata  Amorosa"  Re  cantadas      com    detalhes
impublicaveis da anatomia masc Tentou "Sereia". Entrou em uma sala
de conversa para  Choveram  mensagens  Descartou  imediatamente  o
'Garaz e "Marido/SP",    por  oferecerem  poucas  perspectivas  de
eterno Foi quando o "Mergulhador 27/SP"  respondeu  -  Tenho  1,80
metro, 71 quilos, cabelos castanho Gosto  de  mergulhar.  E  voc,
como ? Por prudncia, inspirou-se em "A Pequena Sereia", a o'  -
Su do tipo mignon, 1,60 metro, loira  e  mui  mntica.  Tenho  23
anos. Adoraria trabalhar em um ma infantil. 182  Trocaram  e-maus.
Durante as  semanas  seguintes,  escreve  ram-se  todos  os  dias.
Dispararam confidncias. Falaram de amor. So  faltava  um  detalhe
conhecerem-,se pessoalmente  Hesitaram A hora da vrdade sempre d
medo. Finalmente, marcaram- o encontro, na area de alimentao  do
Shopping Paulista  "Se  for  um  estrangulador,    mais  seguro",
pensou a romntica mas pratica Sereia Foi de preto, como combinado
Passou vinte minutos a procura do Mergulhador  Deveria  estar  com
uma camiseta e casaco de couro Finalmente, bateu os  olhos  em  um
sujeito  calvo,  de  bigodes  grisalhos,  tipo  cantor  de   tango
aposentado. Quando ia fugir, ele ergueu a cabea e sorriu  NQ  de
felici dade, mas de susto - - Sei - - - Mergulhador????????????  -
- - - Pensei que voc fosse mais magra - Eu era, mas andei comendo
muito doce... Foram s uns ' quilinhos - No me leve mal,  que  a
idade tambm... - 1h, ser que 'bati o nmro  errado?  disfarou,
m cente. - Falsa, sim Irritadissima tambem Aquilo era barriga  de
- mergulhador? S se ele fosse a ncora do barco. - E voc,  n  se
atrapalha com os bigodes na mascara, quando  mergulha?  -  Ah'  Eu
mergulhei uma vez, numa excurso em  Cancun  Gostei  muito.  Nunca
esqueci. - - - E 'os 27? - - Achei que fosse uma forma de  comear
a conversa As pessoas so muito  preconceituosas  quando  a  gente
conta a ida de verdadeira No tenho ido muito a  praia  por  falta
de grana Era gerente comercial, mas agora montei uma microempresa,
'estou comeando. tudo de novo. Voc gosta de praia? Quem  --  183
sabe algum dia a gente. vai numa que eu conheo. Te penso que  d
desconto. Se a moa pudesse, faria um raio cair naquela car tambm
a encarava com tristeza. Como ela ficaria de 1  tiara  da  Pequena
Sereia? Estaria mais para Orca, a  b  sina,  do  que  propriamente
paraS uma sereia. Tinham de chamar a polcia e acusar um ao  outro
de falsidade .1 ca. Por educao, continuaram conversando.  Quand
estavam rindo. Sereia, hein,?  Mergulhador?  Pois  sim!  Andam  se
encontrando at hoje. Ela comprou un Pequena Sereia s para  fazer
piada.. Amor pela internet Escreve-se por linhas tortas.  Mas  at
acaba dando Reis d Consumo TENHO MANIA DE COMPRAR livros..   uma
fixao, p aca bo levando para casa muito mais do que consigo ler.
Freqen temente, fao a promessa de no adquirir mais nenhum,  No
cumpro. Basta  entrar  em  uma  livraria  para  descobrir  ttulos
essenciais Como se o simples fato de ter os livros pertinho de mim
aumentasse minha sapincia (Nossa,  ha  quanto  tempo  no  via  a
palavra sapincias Deve ser de algum livro  que  no  li)  Fao  a
festa de vendedores de livros. Cida, a simptica  gerente  de  uma
livraria  na Vila Madalena, sorri  feliz  quando  'me  v  entrar.
Oferece cafezinho e comea: - Olha-& que saiu! J me  convenceu  a
levar, certa vez, um catatau romntico de umas quinhentas  pginas
s porque  comentei  estar  procu  Ei  rando  um  livro  para  "me
distrair". Uma histria    to  me1osa  botaria  um  diabtico  no
hospital. Mas esse, pelo menos, ii, embora no devesse confessar a
ningum ter gasto tempo com to baixa literatura. (O  pior    que
torci  pelos personagens!)  'Lamentei-me  com  Cida.  Segundo  ela
disse, meu caso no   dos  mais  graves.  -  Tive  um  amigo  que
comprava os dez volumes da obra completa  d  Marx,  por  exemplo.
Ficava sem dinheiro para pagar. a penso. Era despejado e  acabava
deixando os  livros. Ia  para  outra  e,  novamente,  comprava  a.
coleo. E despejad mais uma vez. Dava pena. 184 185 Minha loucura
 especial, pois se restringe a livros i mcm, sabonetes  chirosos
No posso ver um sabonete c  Compro.  Como  sou  alrgico,  jamais
posso us-lo. Jogai  nem pensar Seria desperdicio  demais  Dezenas
de empesteiam minhas gavetas Um amigo e assim com r Ligou-me  para
avisar de  uma  liquidao  numa  ld5a  ele  Expliquei  que    no
precisava de nada. -  -  Mas  vc  no  pode  perder  as  fertas
Recusei-me a ir. Ele me tratou como  se  eu  tivessC  i  ve  falha
emocional. Na  sua  opinio,  s  uma  personalida  biematica  no
aproveitaria a chance de torrar uma grai  calas  e  camisas  Mais
tarde veio me visitar feliz da vida - C uma cala  preta!  -Outra?
Tem quatro ou cinco Nem usa todas E  incapaz  de  r  a  uma  roupa
bonita A me de outro amigo adorava sa Mostrou-me o armario  cheio
Nem que fosse a pe daqui Cataratas  do Iguau gastaria tanta  sola
Era capaz de se cionar com um par de escarpins de couro de  cobra.
- No so lindos? - mostrava, os olhos marejados tanta  formosura.
Alguns nunca punha, para no estragar Adorava  coj  pia-los,  como
Ali Baba ao tesouro A mania de comprar no  tem  nada  a  ver  com
classe -sc ou necessidade Ja vi gente com pouquissimo  dinheiro  e
em um breclho e sair de sacola carregada de  inutilidades    i:im
loucura de consum  a do sujeito que adora vinh estou falando  de
conhecedores, que identificam uma aroma. Mas  de  gent  como  eu,
capaz de confundir qul. .vinagre  mais  encorpado  com  um  tinto
especialssimo. Tor se  chique  conhecer  vinhos,  ter  adega  Fui
visitar um amigo sua nova casa no  Morumbi.  L  pelas  tantas  me
arrastou armrio  repleto. Mostrou garrafa por garrafa. 186 - Esta
custou tanto, esta tanto...  Qbserv  de  olhos  arregalados.  Qual
seria o sabor de vi r nhos daqueles preos? Comentei, amigvel:  -
Deve ser uma delicia toihar um vinho desses Assustou-se: -  Tomar?
Nunca. No escondi minha surpresa. Explicou candidamente: -  Tenho
d. So muito-caros para ficar bebendo. D para  entender?  187  /
Meu Amigo Marcos CONHECI MARCOS REY h mais de vinte  anos,  quana
va me tornar escritor. Certa vez confessei esse desejo  - Helena,
que deixou sua marca no  teatro  paulista.  Temp    pois;  ela  me
convidou para tentar adaptar um livro par Era O Rapto  do  Garoto
de Ouro, de Marcos. Passei n& torturando sobre  as  teclas.  Clia
marcoi um encontro  entr e  ele,  pois  a  montagem  dependia  da.
aprovao do autor"  do  adolescente,.  eu  ficara  fascinado  com
Memrias de um seu livro mais conhecido. Nunca  tinha  visto    um
escr perto. Imaginava uma figura pomposa, em cima de um. tal.  Meu
corao quase saiu pela boca quando apertei painha.  Fui  recebido
por Palma, sua mulher. Um 1  dinho e simptico entrou na sala.  Na
poc j sofria 4 doena que lhe dificultava o movimento das  mos
e do Cumprimentou-me. Sorriu. Estava to  nervoso  que  nem  segui
dizer "boa tarde". Gaguejei. Mas ele me tratou t respeito  que  se
dedica  a  um  colega.    Props    mudanas.    no    Orientou-me
Principalmente, acreditou em mim A pea maneceu    em  cartaz  por
dois anos. Muito do que sou hoje ao carinho  com  que  me  recebeu
naquele dia. - Continuei a v-lo esporadicamente. Era alegre,  div
Todo sbado, de manh, ia tomar cerveja e usque com e  escritores
na Livraria Cultura; no Conjunto Nacional.     nos  telefonvamos
para falar da vida. Escritores costumat competitivos e  ciumentos.
Buscam defeitos nas obras -  como  mulheres  vaidosas,  comparando
vestidos umas das ou tras. Marcos,  no.  Conheci  muitos  autores
benefiiados por suas opinies.  Era  generoso.  Quando  deu  uma'
entrevista  no  pro  grama  do  J  Soares,  a  escritora'   Fanny
Abramovich lhe telefo-. nou. Elogiou seu suter, de uma bonita cor
c Marcos mandou-o de presente para ela.' Sempre me senti orgulhoso
por ser seu companheiro aqui na ltima pgina de Veja  So  Paulo.
Quando comeamos as crnicas, fuivisit-lo. Ele acabara de comprar
uip  apartamento em Perdizes. .Seus livros ficaro na hist6ria  da
literatura. Mas, at poucos anos atr lutava  com  o  aluguel;  No
costumva mos nos telefonar em aniversrios  ou  datas  especiais.
Mas, em  janeiro  ltimo,  ligou  para  desejar  feliz  ano  novo.
Chamou-me de colega. Emocionei-me: - Tomara que voc tambm  tenha
um ano maravilhoso. Como  a vida, no? Palma me contou  que  tudo
aconteceu muito depressa.  Hospitalizao,  operao.  Os  mdicos
foram francos.  Ela  o  vi-  sitou  na  UTI.  Marcos,  no  fique
sofrendo. Pode partir em paz, meu amor. Estava adormecido, mas ela
tem um certeza ntima de que ele  entendeu.  Depois  de  39  anos
juntos, Palma tem o direito de ter  certezas.  Quando  algum  nos
deixa, at  as pessoas mais cticas sentem o dsejo  de  acreditar
no desconhecido. Pessoal mente, nnca tive dvida  de  que  existe
algo mais, em algum lugar. Ainda bem. Marcos, algum dia a gente se
encontra por a. \ 188 189 Elegncia Escaldante BOTO  MEU  Nt  )VO
paier de Li. 1 marrom, cotn um sti Lnf as calas cinza, tambm  de
l. Com traje com um par de meias bem quentes. Ponho os sapat. inc
admiro no espelho.  Em dois segundos comeo a suar c se cS(  vesse
em uma sauna. [ Existem ocastoes e a gelire tenra  se  enganar.  (
omo agora.  (:omprei  todas  as  i  pas  fl  para  aproveitar    a
liquidao. ( Jfl por cc de uma grife sensacional. Pensei que o in
eruo ssc durar um pouqumho. N devia ter pensado. \'ivo du.endo que
" sar que...". achar que...T.  "dedui que... so expresses  levam
ao precipcio. Sempre que a gente 'pensa que", a coisa d  ei-rado.
Deixei as calas para l a barra e o para encurtar as mangas.  Sina
de quem tem barriga: quan palet abotoa, a manga  1.lca  comprida.
1.. 'ma tragdia. Qu comprei, f um lnozmho. Eu me achei  muir(  '"
aproveitar a liquidao. Devia  saber. Espertos  so  os  .  loja,
capazes de irejar a onda de calor com muito mais pr so do  que  a
moa do tempo. Quando  entregaram.  havia  hado  o  frio.  Abro  a
janela.  Fao esforo para sentir a fria Um amigo  chega  para  me
dar canma. - Voc vai  de  palet  de  l?  -  Achei  que  pudesse
esfriar,.. - digo,  espera de que me elogie o traje. O elogio no
vem. Apenas um olhar de esguelha. Peo r ligar o ar  do  carro.  -
No  melhor voc tirar o palet? Estou quse sufocado,  mas  fao
que no. No vou levar  um  palet  daqueles,  com  aquela  grife,
pendurado nas costas. Tal vez ainda faa frio. Senti  uma  aragem.
Nunca  se sabe. As calas de l me pinicam.  Chegamos  ao,  Teatro
MunicipaL- Enquanto ele discute o  preo  com  um  flanelinha  que
exige o mesmo valor do ingresso do concerto  -,  fujo  do'  carro.
Preciso de ar.  Talvez  desmaie.  Mas  no  tiro  o  palet.  .  -
Entramos, finalmente. Um sujeito de camiseta me observa  surpres.
Ser minha ele Vejo uma conhecida com um casaco de pele. De longe,
parece uma ratazana branca.  Qual quer dia desses sera atacada com
um spray Nos nos cumpri mentamos  como  cmplices.  Afinal,  ambos
havamos percebi do que naquela noite fazia frio, ao contrario  do
que diziam os termmetros. Ela deve ter posto cola  na  maquiagem.
Pois, ape sar dos riachos que descem pela testa, o rmel  ontinua
intato. O amigo que me deu  carona se aproxima Nos o contempla mos
com desprezo Camisa de mangas curtas, coitado" Entra mos  A  jovem
senta-se algumas fileiras a frente Mal comea o concerto,  despe a
pele, irritando todos ao lado.  Aproveito  e  tini  o  casaco.  Um
alvio. Se pudesse, arrancava as calas  tambm.    o  mal  desta
cidade. No se pode confiar no clima. Mui tas vezes de  manh  faz
frio. Saio para trabalhar de suter. No meio do dia comea o  stri
' tarde chego em  casa com a aparncia de  quem  dormiu  vestido.
Calas amassadas, gravata  torta,  suter  e  palet  na  mo,  os
cabelos idnticos a ima vas soura de piaaba.  Vejo  as  mulheres.
Retocam a maquiagem a cada dez minutos. O penteado despenca. Mas o
contrrio tam bm acontece.  vezes o dia  est  lin4o.  Saio  com
roupa de vero. -Dali a pouco comea  um ventinho. Finjo que no 
nada. O ventinho me corta os ossos. Continuo fingindo  que  no  
nada. Passo dois dias de cama com gripe.  Dizem  que    culpa  da
poluio.  Na televiso, falam em frente fria que  no  chega  190
191 por causa de uns ventos que vieram da Argentina. Ento    dos
argentinos? Ou ser o contrrio? O caso se repere- ano.  Tempo  de
seca. Todos ansiam por chuva, para  re (e para usar as  roupas  de
liquidao). Quando a chuva  parece  o  dilvio.  Suspiramos  pela
seca. Mesmo agora,  quando  estou  scrvendo,  temo  ueo  po,  me
en-gahe. Pode haver outra virada. Todo mund batendoos  dentes  de
frio, sem entender  porque  falo  dt  Que  coisa,    hein?  Decidi
pendurar meu palet de inve armrio,  para  um  longo  perodo  de
hibernao. No ar. vem, capa de estar fora de moda. Com  um  tempo
tc vel,  difcil at  aproveitar uma boa liquidao. , Vida.  de
Cachorro AND COM VONTADE e virar cachorro. No  pagam  conta  de
luz nem seguro de carro' e ainda se do ao direito  de  deitar  de
patas para cima, oferecendo o corpo aos carinhos  de quem  querem.
Comportamento que. no atingi em quase duas d das de terapia. Quem
ama os ces enlouquece por eles.  uma voca. Minha vizinha  no
pode ver um filhote: leva para casa. Ch gou a dez. Todos de raas
diferentes, mas com  um    ponto  em.  comum:  hoje  sa  enormes.
Decidida a transformar a paixoem negcio, ela monto um pet  shop.
O primeiro filh6te, trazido em consignao, era um poodie de   cor
hampanhe. Sm cora gem de vender, umentou a  coleo.  O  pai  da
moa anda preo cupado: nesse ritmo, toda  a  rao  da  loja  ser
consumida pelos seus prprios cachorros. Amigos do melhor amigo do
homem no podem se encQn trar sem passar horas e horas descrevendo
as qualidades dos bichinhos: - O Gandhi entende  o  que  eu  falo.
Outro dia eu estaya na maior depr. Ele abanou o rabinho e  deitou
no meu colo, com um jeito triste, triste. O Fidel  apaixonado por
mim. Cada vez que meu ex- marido chega, ele rosna! Ateno para um
detalhe: o  bom  dono  confere  aq  seu  bi  cho  o  nome  de  uma
personalidade, nunca um nome de cachor  ro!  Meus  amigos  Vera  e
Flvio so 4onos da Cora Coralina, 192 193 r uma gigantesca cadela
rottu'i'iler. 1 )a pi )ctisa. ela ostenta o  meigo,  mas  t  etias
quando quer coiiquisla.r um osso OL pozinho francs. \'enderam  o
stio onde  C3ra vivi; em dade e  trouxeram-na  para  sua  nova  e
ampla residncia. r da Boa Vjsta. No primeiro dia  (  .ora  tentou
devorar  uma altiva cadelinha fix-ierrier j  hahiranie  da  casa.
corao partido. a rotiu'cifer f entregue a um _riador da  No  dia
seguinte F'u!vio pegou o carro, juntamente    com  ur  nehci;irio,
para buscar, tambm no sitio, o companheiro dela, Pablo Neruda. No
cu, percebeu algumas nuvens esc - Vii chover -- comentou h'ilvio.
-- E melhor volt Mas iio  caiu  nem  um  pingo!    h  entrou  no
acostamemo, com o rosto transtorr na mascara da tragdia. Quan..Jo
ch )Ve. a estrada i n tinda. H ;i ha idas.  As  -  SO  se  aFogam.
Acelerou at a casa do outro, no Morumbi. Desceu e gou  (  :OI-  (
oralifla de ' ra. RL mi udo: o casal rec m r antigos caseiros  (10
sltR). Alugou uma casa para os  dois, n rrada. Paga um saLino para
que cukkm dos ces e os visita  gularmente.  como  pessoas  da  
Pensaram at cm cc  prar o stio de volta. N s o  nicos.  H  um
florescente comercio em 1 dos pdudos. Outro  dia  houve  uma  kira
unerria no Anheti Um dos  grandes  sucessos:  caixezinhos  para
ces. O detalh  nham a forma de um  Y  invertido,  para  caber  as
patinhas aber Quem  cachorreiro, como se diz no jargo. vive cm E
de veterinrios melhores. H um, na Vila Mariana, formam filas  de
senhoras com cachorrinhos do uma luvas. Entre  elas,  comentam  os
cpirros dc cada 1 -- melhor corte de plo. Meu amigo Rogrio ievou
o seu, da r aleita, branco e magro como um varapau. Enfrentou,  na
fi um macaco  de circo com bon, sentado, que ngia  ler  u  Int  1
revista, e dez papagaios gripados  que  tossiam  somo  gente,  uma
aflio. O diagnstic: anorexia nervosa. Talvez causada por que o
cofora proibido de entrar em casa  e comer as almofadas do. sof.
As raes- melhoram de sabor a cada dia. Umrapaz, recm- separado,
chegou a comprar um para comer no jantar. Alimentou-se durante  um
ms com os biscoitinhos, e at  me aconselhou: - Para regime, nada
melhor.  uma refeio completa. Eu me imagino  entrando  -no  pet
shop e experimentando Bonzo, Purina, Canadian... Levo  dois  sacos
de vinte quilos daquela l. Est feita a compra do ms.  um  caso
raio eni que a lngua no evolui juntamente  com  a  realidade.  A
expresso "vida  de  cachorro"  relaciona-se  com  uma  existncia
desagradvel. Agora o significado  est mais para o  de  mordomi.
Vou s franco: hoje em  dia  tornou-se  mais  fcil  para  utn  co
encontrar um lar do que para uma criana abandonada.  Nada  contra
os amigos  caninos porque tambm amo os meus. Mas h alguma  coisa
errada, no h no? 194 195 Famil ia Unida. TODOS OS ANOS, MES  E
FILHOS se encontram para i round So os tais laos de familia que,
frequentemente, e formam em ns. -  Acho  que  a  mame  no  est
regulando bem. Fezi para o almoo. Est cansada de saber que estou
de r geme a mais nova. -  a idade... ela no  mais o que era  -
diz a mai Saltitante, a me mostra a mesa com  um  sorrisii  s  o
tnder  criminoso,  adornado  com  pssegos  em  calda  tambm   a
maionese, que todos adoravam quando menir o quindim  d sobremesa.
S falta uma garrafa de colestero1 O mais velho, com uma ponte  de
safena, morre de pavor infarto  mesa. Mas come. Seja dito  o  que
for, um dq g objetivos  de qualquer me  engordar  os  filhos.  -
Est uma delcia, mame - suspira a mais nova. A me no  resiste:
- Vai repetir Pensei que estivesse de regime V tem mesmo fora  de
vontade. A filha quase atira o prato no cho.  Se  comesse  p  me
reclamaria: Desse jeito voc acaba doente.  urgem  as  recordaes
dos bons tempos. - Zelito, por que voc chegou au Eu me li daquela
noite que passei acordada e depois soube  que  batido  o  carro  e
quase foi preso Fico nervosa Por que ela tem de se lembtar  sempre
daquela noite em que ele dirigiu sem carta? A nica ilegalidade em
toda a sua vida de juiz! - isso faz vime an  Eu  tinha  15.  -  Eu
nunca esqueci. Quem disse que me esquece? A no ser,  cla nos mo
mentos estratgicos. - Gilda, me passe a salada. Silncio  mortal.
Choque. O filho do meio blbucia.  Me,  esta    a  Soraia.  Voc
trocou os nomes. A Gilda  minha ex-mulher. - Desculpe,  Soraia...
eu sei que voc no se importa...  a idade. Mas  que eu  adorava
a Gilda! Um net bate com  um  martelinho  no  chp.  -  No  faa
barulho. - Voc est reprimindo oArturzinho - revolta. a  nora.  -
Gi ma tem razo.  uma "tortura - defende o  caula.  Gislaine  se
levanta, puxando o menino pela mo, e  sai.  O  marido,  irritado,
corre atrs. -  Vocs  atacam  minha  mulher  s  porque  ela  era
manicure! Todos contemplam a mesa desfalcada. A me,  arrasada.  -
Com ela por perto, no possp  dizer  um  "ah!  O  que  ser  desse
menino? O grupo descasca a cunhada At que eia volta, com o  filho
e o marido. Senta-se, um sorriso torto. Tocam a campainha, a  mais
nova vai atender.  o namorado. A me  suspira: -  J  casou  duas
vezes. Nem fala mais em noivo ou mari do. 56 em  namorado.  Quando
essa menina vai se acertar na vida? - Me; ela j,  tem  34  anos.
No meta o bico - palpita  a  mais  velha,  esta,  sim,  casada  e
atormentada com os filhos ado lescentes, que  fugiram  do  almoo.
196 197 Dia d Compras ABRO A ELADErRA. NEM  OVOS!  Nos  armrios,
nem  sabo!  Rendo-me  ao  inevitvel.  Fo  a   lista.    Parto.
Supermercado s bado de manh  a-sucursal do inferno! Mal  entro,
quase sou atropelado por um adolescente que corre com um  carrinho
vazio, a irmzinha dentro. Deveria haver semforo para carri  nhos
de compras! Cuidadoso, mantenho  meu carrinho  direi ta, devagar.
Uma senhora enfia o dela nos meus  calcnhares.  Rosno.  Ela  pede
desculpas e segue. Abro a listinha. O proble ma  que  aordem  dos
produtos na lista nunca  a mesma em que esto dispostos. Vou para
um corredor e pego a lata de molho de  tomate.  Parto  para  outro
item. Ando quilmetros. O item  seguinte est prximo de  onde  eu
estava antes! Logo tenho  a  mprsso  de  que  fiz  o  trajeto  S
Paulo-Rio a p! Guardo a lista. Decido andar  entre  as  gndolas,
pegando  o que deve  estar  em  falta.  -  leo,  preciso.  Arroz,
preciso. Choc no preciso Mas quero! Que fome! Atolo o carrinho de
bolachas,  salgadinhos,  ge  lias,  como  se  'fosse  Comer  tudo
imediatamente. Viro  direita e desembarco em um congestionamento.
Senhoras    maquiadas  passeiam  pelas  gndolas,  tranqilamente.
Comportim-se como se estivessem pegando  as  crianas  na  escola,
paradas na faixa dupla. Ou seja, abandonam os carrinhos   no  meio
do corredor. Empurro um deles. A dona me  encara,  brava.  Ergo  a
cabea e continuo. Mais adiante, alguns 'casais.  As  crianas  Eu
no me meto em nada - avisa a me, feroz. se isso  o  que  chamam
de liberdade, u dispenso. A mais nova entra  com  um  sujeito  de
bermuda e 'c de cantor de reggae, dez anos mais novo. Todos trocam
o] venenosos. A filha avisa que j  vo.  Surge  o  convite  ma  -
Sente-se... coma um pouquinho... eu mesma f murmura gentil. - -  -
Ele recusa educadamente. Ela insiste. Ele se senta e   metade  do
pernil, dois teros da maionese e um naco do tn  acompanhado  por
trs cervejas.  Depois,  levanta-se:  -  Desculpem  por  bancar  o
cachorro magro, mas tenho c Mal ek sai com a filha a  tiracolo,  a
me geme: - -  um morto de fome. Imaginem  s...  criar  uma  dar
estudo, para depois ela virar vendedora  de  bijuteria  e  mar  um
namorado desses. Exalta-se o caula: - - Me, ser que voc tem de
criticar tudo? Up lgrima furtiva. A velha mexe humildemente   no
prato. - Viu o que voc fez? Magoou sua me -  ataca  a  ho  Olhos
arregalados, ele dispara: - - Quem magoou foi voc, quando  brigou
por causa. seu filho. - Artur, voc vai  deixar  seu  irmo  falar
assim comi - Ela tem razo, Zelito... voc... Olhos  cintilantes,
a me pede, com voz angelical: - Filhos,  no  briguem  por  minha
causa. Tudo o que. ro  uma famlia unida! 198 199 r  comportam-se
como se estivessem em um  playground.  -'  rem  Gritam.  Os  pais
sorriem, enquanto uma menina ba uma lata de pssegos em dalcia nos
meus ps. Atiro-me i  o prximo corredor. Uma senhora  idosa  pede
para eu verificar a validade de produto. Sorrio, massei  'que  ca
numa  armadilha.  A  validaTd  detalhe.  Qtier  puxar  papo:    Em
supermercados   que ser solido das grandes cidades.  -  -Como  o
preo do arroz subiu! - diz, entabulando i conversa. - Hum, hum. -
Desse jeito no sei aonde vamos parar. - - Hum, hum.  -  Eu  venho
sempre aqui porque a minha filha e a m neta trabalham fora.  Minha
neta  muito inteligente, j prestar vestibular! - - H-um, hum.  -
'Gosto de conversar com gente como o senhor para  -  atualizar.  O
senhor  muito simptico! - Hum, hum! Consigo me esgueirar  at  a
fila.  enorme. Vinte minu    minha  frente,  um  casal  nervoso.
Quando est terminand,  caixa  pra.  -  Este  produto  est  sem
cdigo.-' Vem um rapazinho. Some. Descubro qe a fila do la  andou
muito mais depressa. Que raiva! Finalmente, vem o j o. Ele faz  o
cheque. Novo  ritual,  enquanto    aprovado.  T  nho  vontade  de
abandonar o carrinho e sair correndo. Chega mjnha vez.  Esvazio  o
carrinho. Boto tudo em saco 1 Demoro. A caixa me ajuda. Quem  est
atrs me encara- cc olhar assassino. Pago.  Deu  mais  do  que  eu
previa, sempre' d mais! Encho o carrinho de novo. Na pressa,  boto
lataria em cima de frutas, tudo vira  uma  confuso!  Vou  para  o
carro. Tu' 200 as sacolas, guardo. Chego ao prdio. Agora,  retiro
do  carro.  Bto  no  elevador.  Arranco  do  elevador.  Entro  no
apartamento. Es tou exausto, mas nada de descansar!   Esvazio  as-
sacolas.  vos  se  quebraram.  Limpo  as  latas.  Enfio  tudo  ha
geladeira, nos arm rios. Dsabo na cadeira. A lista  cai  do  ieu
bolso. Esqueci metade. Ah, que vida! Semana que vem,  vou  ter  de
voltar! - - 201 L Tudo E Possvel QUANDO EU  ERA  PEQUENO,  queria
ganhar um cavalo de rida. Natal aps Natal  eu  mandava  cartinhas
para Papai I' No tinha muita idia de onde botar o cavalo. Morava
em ui pequena casa no interior de So Paulo,  dividindo  o  quart
meu irmo mais velho. Talvez pudesse  acomod-lo  na  c  se  mame
deixasse. Mas isso no parecia ser  problema. Em  tc  Natal  mame
vinha com uma desculpa: - O cavalo ficou doente, e Papai Noel  no
pde traz  Ou  ento:  -  Estava  muito  pesado  para  Papai  Noel
carregar. Finalmente, exausta, revelou a  verdade  sobre  Papai  N
Sofri. No queria acreditar. Puxa, desde que eu me coni por  gente
fazia esforo para. ser bonzinho por conta  do  cava  de  corrida.
Via o velhinho de barbas brancas na  porta  da  loij  Acordava  de
manh e encontrava sempre um presente - vrios  -  junto    meia.
Agora queriam que  eu enfrentasse.. realidade dos fatos?  O  tempo
passou, e a vida  se  encarregou  de  trazer  'outi  frmulas  to
mgicas quanto Papai Noel. Principalmente ei relao ao  Ano-Novo.
Ultrapassar a noite d rveilion  tornou se  um  foco  de  tenso.
Qualquer errinho, por menor que seja capaz de redundar em  um  ano
inteiro de pavores  A  coleo  de  exigncias  para  um  Ano-Novo
decente bota crena em Papai Noel no chinelo. Por exemplo: -  Usar
roupa branca, de preferncia nova. Minha miga Lal andou  matando
cachorro a grito em uma fase da vida. Acabou desistindo  e  entrou
no ano novo de preto, na   esperan  a  de  reverter  a  situao.
Bem... acho que este ano ela vem de vermelho.  -  Comer  muito  na
ceia, para ter abundncia o ano intei ro.   desculpa  de  guloso.
Sinto imensa simpatia  por  essa  idia!  O  nico  problema    o
cardpio:, no se pode  domer ave, por que cisca para trs, e isso
arrasa a vida. Melhor comer porco, que chafurda para a  frente.  O
risco  passar o ano  chafurdan  do.  Depois,  lentilha,    que  
sinnimo de sorte. Para completar, roms, para atrair  felicidade.
Com  tanta  rom,  certamente  as  lavanderias  devem  morrer   de
felicidade, tal o nn de man chas  nos trajes brancos! - Dar  trs
pulinhos com a taa de champanhe na mo. Depois, jogar o champanhe
pata trs:  uma garantia de sor te. E  talvez  de  briga,  porque
sempre algum acaba  levando a bebida nas fuas. Pior ainda se  eu
estiver em uma praia e tiver de pular as sete ondinhas. Nada  mais
difcil que contar as  ondas  no  meio  d  barulho,  dos    fogos
(imprescindveis), agarrando a taa em uma  mo,  os  chinelos  na
outra e recebendo abraos de feliz Ano-Novo!   inevitvel:  acabo
roubando na conta. Vem uma  ondinha, no  consigo  pular  e  digo:
"Essa no vale!". Ou seja, era mais fcil quando eu acreditava  em
Papai Noel! Agora, alm de comprar os presentes, tenho de  labutar
na noi te de ano! Na esperana de que, sim, acontea  alguma coisa
mgica - no sei bem o qu - cpaz de trazer algo de mara  vilhoso
para minha vida. Este ano resolvi me dar um  presente.  Aprendi  a
no acredi tar em Papai Noel. Tambm no quero mergulhar em tantas
frmulas mgicas. Eu posso ter um Natal e um ano  maravilho sos se
acreditar em mim! No entra na minha cabea que uma 202 203  noite
iluminada pelos fogos v determinar a minha  vida,  o  meu  ano,  a
minha felicidade.  E  sim  o  meu  ntimo,  ikiminado  pela  minha
vontade.  Natal  e  Ano-Novo  so  simblicos.    Duas  datas  que
despertam a vontade de ir  frente, de ser m de en  contrar  novos
caminhos. Mas a magia, a capacidade de tornar a vida  maravilhosa,
est, realmente,  dentro de mim. Agora, com essa  certeza  no  meu
corao, eu sei. Tudo  possvel!  O Dia d& Cime DESDE CEDO  ELA
OLHA PELA JANELA de cinco em cinco minutos. - Ser' que eles  vm?
Dificil, todos de uma vez. A filha  tambm  j    me.  Costu  ma
comemorar com suas  prprias  filhas.  Mas  estas,  por  sua  vez,
precisam ver as mes dos namorados. E tem  a sagra d filha, que 
italiana. - O Ar  muito apegadq  -mamma! - lamenta-se, tdos  os
anos; quando d a des-culpa pelo telefone. O filho  solteiro  deve
ter ido para a farra. Os dois  casados  quase  se  separam  hessas
datas, pois suas mulheres-querem ver as  prprias  mes.  Discutem
sobre qual deve  ter a preferncia. Ela. vive perdendo, pois  mora
em Santos; - Se eu descer a serra, n  vou  poder  visitar  minha
me. Ela fica muito magoada - argunxenta a nora belicosa. - -  Ah,
meu bem, mas a mame fez justamente aquele per  nil  com  maionese
que voc tanto adora! - ronrona a mais diplomtica. -  '  -    um
campeonato de  cime.  Quem  for  mais  visitada  sen  te-se  mais
qerida. Ela est apavorada. - - E se no aparecer  ningum?  -  -
Ouve os gritos de alegria da  vizinha.  Se  nenhum  dos  filhos  a
visitar, no da seguinte no suportar o das outras mo radoras  dc
prdio.  C  se,  no  campeonato    doafeto        filial,    fosse
desclassificada. A lasanha est no forno. Nunca foi boa em 204 205
masSas. Como no sabe quantos vm, encheu o maior pirex e -  botou
no forno. Faltar comida no vai. E se no ganhar nenhum  presente?
Sempre garantiu que no liga para isso. Mentira. Um presente   um
trofu ser xi bido Ostentado no elevador, na sala, na cozinha'  -
Vu s? Eles e reuniram para m dar um videocassete.  .  Aconteceu
no ano passado Veio com uma  fita  Quando  ligaram,  um  bando  de
mulheres peladas corria em uma praia repleta  de  surfistas  Todos
riram - 1h, mame, errei a fita fingiu o mais novo -  Esto  rindo
do qu? Pensam que nunca vi algl4m pelado? Duas da tarde Bateu na
vizinha do lado Viuva O unico filho migrou para a Australia Podiam
fazer companhia uma a outra Da  porta,  ouviu  as  risadas  -  Meu
sobrinh veio com a familia? Quer entrar? No quis O corao-zinho
foi se enchendo de ciume, 'en quanto ouvia o predio  inteiro  rir,
enquanto sentia o cheiro  dos pratos saindo do forno  De  repente,
um carro chegou la em- baixo! Desceram a filha e o mais novo  para
abrir aporta, tonta de felicidade De quatro, dois' Um bom  parco -
Cad seu marido? - Foi para a  rnamrna  Discutimos  -  reclamou  a
filha, de cara amarrada. E a namorada? - Esta com os pais  Prometi
comer a sobremesa na casa dela. Tremeu O filho era capaz de correr
na estrada Acidentar- se Serviu a lasanha rapidamente Quando deram
as  primeiras  garfadas,  percebeu  que  tinha  virado   borracha;
Garantiram que estava  uma  delcia.  Fingiu  que  acreditou.  Aos
poucos, descontraram-se. Fofocaram. Sobre as mes dos  outros,  
da ro A da namorada estava na terceira  plastica e  no  quinto  ma
-riu. Comentaram longarpente a vida das sogras  dos  filhos,  umas
egostas. A filha nem se dava mais com os irmos,  por  conta  das
cunhadas. Entre os presentes, divertiu-se  com um  CD  de  pagode.
Fingiu danar. - Quando partiram,  sentou-se  satisfeita  Dia  das
Mes e as- sim. Filhos  que  visitam,  filhos  que  fogem.  Sogras
versus sogras. Tenso. Cime. Fofocas sobre a famlia.  At rixas.
Mas seja dita a verdade tanto mes como filhos  adoram  essa  doce
confuso J rido. A sogra da filha usava uma dentadura to velha ue
s vezes quase caa da boca. - No ano que vem,  d  uma  dentadura
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